Toda a Memória do Mundo

toute la memoire du monde

por Jyan França

Memória, faculdade pela qual o espírito conserva ideias ou imagens, ou as readquire sem grande esforço. Significado comum a alguns dicionários, memória é tudo aquilo que vivemos e que foi armazenado em alguma parte de nossa consciência. Não precisamos nos esforçar muito para lembrarmo-nos do último verão ensolarado em uma casa no lago com nossos parentes ou amigos, ou mesmo de nossa última refeição. Temos uma imensa capacidade de registrar coisas que nos são pertinentes, coisas que vão ser pertinentes a outras pessoas e que nos pertencem também, de certa forma. Estamos conectados em um universo em constante expansão, fazemos parte de uma comunidade de pensamento crítico, livre ou guiado, certo ou errado, é nosso. Nossa memória está intimamente ligada àquilo que somos e ao que construímos ao nosso redor.

Seguindo por esse viés um tanto romântico, proponho a feitura de mais um exercício de registro – mais uma inscrição a ser transposta nesse compêndio de momentos que foi a raça humana até o presente momento, e que também será, pois a memória não é apenas sobre o tempo passado. Alguém deve pensar nas coisas que ainda vamos querer lembrar, nos acontecimentos que marcarão nosso futuro. Sem mais rodeios, desejo inscrever em nossa história um vislumbre do que fomos, do que somos e do que pretendemos nos tornar com o filme Toda a Memória do Mundo.
O filme a ser realizado nas dependências da Biblioteca Nacional Francesa no presente ano de 1956 mostrará o funcionamento do processo de catalogação bibliográfica naquele órgão – da chegada do livro até seu lugar de descanso em uma das estantes. Entretanto, vejo aqui o processo como um misto entre organicidade e mecanicidade: o livro, vivo em seu conteúdo e em sua forma, pertencente a toda uma gama de informações já coletadas por seu autor ou seus autores em suas questões intrínsecas e extrínsecas em sua erudição e experiência de vida, depois de catalogado, carimbado e guardado, passa a ser apenas mais um objeto de desejo – um produto para o consumo de uma ou mais pessoas para ser apreendido, digerido e expelido.

Nossa fixação em querer lembrar ou guardar preciosismos e momentos únicos está se tornando uma obsessão pela informação – quanto mais adquirimos conhecimento, mais fome de saber sobre o que o mundo pode nos oferecer temos. Nesse sentido, desejo retratar a angústia nas entrelinhas do processo de catalogação bibliográfica, focando em imagens vertiginosas de áreas da biblioteca que se assemelham a uma prisão em sua arquitetura.

A montagem auxilia nessa reflexão, indo em ambientes onde vemos antiguidades expostas, verdadeiros museus. Observamos relíquias, joias, pinturas, gravuras, e em todas elas vemos “espasmos” do passado que reverberam até hoje em nós como indivíduos e também como sociedade. Mas ainda assim a tentativa de querer tomar posse daquilo, de ter uma imagem gravada em nosso subconsciente, de poder sentir as páginas antigas e deterioradas de um livro de muitos séculos atrás é subserviente ao nosso ego, ao nosso intelecto.

Vejo que, em breve, teremos um número de informação maior do que o que já podemos sustentar hoje. Ademais, pretendo propor aos espectadores uma reflexão sobre quem eles mesmos são, quando virem o filme. Naquele momento, meu desejo é que vendo aquelas imagens, seja em 1956 ou dentro de cinquenta anos, em 2006, que olhem para si mesmos e reflitam sobre quem foram, quem são e mais importante ainda: quem gostariam de ser e quem serão no futuro, pois com certeza alguém lembrará deles.