Até o Último Homem

hacksawpor Alan Campos

Existe uma cena em Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, dir.: Mel Gibson, 2016) onde o protagonista Desmond Doss (Andrew Garfield), após resgatar dezenas de soldados feridos no campo de batalha, toma um banho para escorrer toda a sujeira e o sangue de seu corpo. Como um gesto simbólico, o diretor Mel Gibson vê tal ato como uma purificação ou até mesmo canonização do sujeito que decidiu ir para a Segunda Guerra Mundial sem querer matar ninguém, recusando-se até mesmo a tocar em uma arma de combate.

Se há acusações recorrentes de que o cinema de Mel Gibson é vulgarmente gráfico e em diversos momentos desnecessário em seu desejo por cenas melodramaticamente violentas, penso que talvez nenhuma de suas obras dê tanto espaço para tais acusações como Até o Último Homem.

O contexto do homem mártir, a violência enquanto lugar do choque com a pureza moral do protagonista, o indivíduo que é esmagado pela indiferença dos seus semelhantes. Todos esses são temas que estão presentes no filme, mas que não são costurados para tecerem comentários pertinentes sobre quaisquer que sejam os assuntos que poderíamos estar falando agora, sendo reduzidos apenas ao choque dramático finito em si mesmo, e representativos de uma falência de ideias. Uma obra incapaz de fazer com que sua temática religiosa e simbólica pulse firmemente por mais de duas horas.

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Claro que seria impossível separar Até o Último Homem do contexto de award season (a temporada de premiações do cinema hollywoodiano) no qual ele orgulhosamente se insere, pois não existe maneira de encará-lo sem escapar do fato de que esse é um filme acompanhado das marcas de uma típica obra que deseja o bendito do Oscar. É baseado em “fatos reais” (com direito a depoimentos das pessoas retratadas), possui um fundo histórico (e patriótico) da Segunda Guerra, e pior, é um filme que brande caprichosamente virtudes (como coragem, amor, dedicação e fé) socialmente admiráveis como seu único ímpeto para criar cenas dolorosamente previsíveis e horrorosas.

Obviamente tudo é higienizado, nada soa para causar dissenso, em momento algum existe a impressão de que as coisas podem ruir e desandar para novos lugares, ou que elas serão postas em cheque. Existe só uma lenta descida rumo a situações embaraçosas envolvendo encenações excessivamente dramáticas e frases de efeito como “por favor, Deus, me deixe salvar mais um”, ou algo por aí. Nem mesmo a violência parece escapar do filtro higienizador e vulgar – pois é relativa à banalidade das imagens, às suas reduções ao simples caráter didático –, se assemelhando muitas vezes a um filme de guerra oitentista, como no momento em que um soldado americano não para de gritar e atirar nos japoneses enquanto é carregado por outro.

É difícil não olhar para o filme como um pedido de desculpas do seu diretor – seu nome só aparece nos créditos finais, por exemplo,– para a indústria, como um trabalho necessário de um funcionário arrependido para tentar tocar novos projetos, após ter sido protagonista constante de polêmicas nos últimos anos por declarações antissemitas e episódios de violência doméstica.

Talvez Até o Último Homem represente um mal necessário para que Mel Gibson possa focar em novos projetos que abordem a violência e o indivíduo mártir como atemporais aos seus respectivos tempos – como na espetacularização midiática que parece rodear o Cristo de A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004), ou na paranoia da Guerra ao Terror que infecta as imagens das civilizações pré-colombianas em Apocalypto (2006), ambos filmes ótimos e que de certa forma passam batidos entre cinéfilos. Caso contrário, acredito que será lembrado como o momento em que Mel Gibson esvaziou suas ideias em prol do sentimentalismo que atravessa o cinema hollywoodiano em toda award season.