O Desamparo na América

por Cesar Castanha

A única referência direta a Donald Trump em Docinho da América (American Honey, 2016, dir.: Andrea Arnold) acontece no início do filme, quando a protagonista Star (Sasha Lane, excelente) zomba das calças de Jake (Shia LaBeouf), e ele questiona se elas estão “muito Trump”. A eleição para presidente que elegeu o empresário parece, para o longa, estar ao mesmo tempo muito próxima e muito distante. A bandeira dos confederados, um símbolo de uma certa resistência ideológica — conservadora e racista — do Sul dos EUA, decora as casas e estampa o biquíni das personagens. A falha dos institutos de pesquisa da mídia liberal que tinham como certa a vitória de Hilary Clinton nas eleições se revela no filme no encontro com um pedaço fundamental, mas frequentemente esquecido, da América.Star deixa a casa onde mora para se juntar a um grupo de jovens que viaja pelo país em uma van vendendo assinaturas de revista. Treinada por Jake, o melhor vendedor do grupo, a garota logo se desinteressa pela verborragia falaciosa da venda. Ela não está interessada, como seus colegas, em vender uma narrativa falsa sobre si mesma. Star se aproxima do Outro, ela compartilha suas experiências e se abre para as experiências alheias.

Star segue intuitivamente, em divergência aos costumes do grupo. Ela parece se conectar ao que a cerca de sua própria maneira. Suas escolhas podem algumas vezes colocá-la em posições de perigo, mas não porque a garota é ingênua ou especialmente corajosa. Ela simplesmente se coloca à disposição de cada experiência que surge, sorrindo enquanto salta para o vazio, desamparada.

Ao mesmo tempo, ainda que Star dê pouca importância às normas do trabalho e estabeleça com sua supervisora, Krystal (Riley Keough), um constante desentendimento, o mesmo desamparo que parece tanto atrair a personagem se faz presente naquele grupo como um modo de vida. Cada um deles parece tão lançado ao vazio e às suas próprias sensações quanto Star. Não está muito claro de onde eles vieram, o que os levou àquele ponto e menos ainda para onde seguirão ao fim dessa experiência.

A direção de Andrea Arnold valoriza — através de certo tipo de enquadramento, um meticuloso trabalho de cor e controle da luz, chamando atenção para a beleza imagética possível daquele espaço — as experiências estéticas do grupo de personagens e especialmente de Star. A imagem construída por Arnold pode ser tida como estetizada em excesso, trazendo contra o filme o estigma de “perfumaria” — palavra péssima agora utilizada por críticos e cinéfilos sempre que a imagem de um longa é trabalhada para além de seus gostos pessoais. Mas em Docinho da América apenas se acentua na imagem o que já é lido esteticamente pelos personagens: a textura da pele, a cor de uma roupa, o calor, etc — pequenos objetos e sensações que os atingem no decorrer do filme.

american honey

Não acho, portanto, que o filme imponha à imagem uma estética alheia àquele universo para o nosso consumo. Acredito que, no lugar disso, ele meramente reconhece e dá evidência às experiências estéticas possíveis àquele território e àqueles personagens. Mas a questão não se encerra aí. Porque a partir deste ponto o filme nos coloca então diante da estética do Outro.

Não há problemas, imagino, em compartilhar com os personagens a experiência de ouvir uma música de Lady Antebellum ou Rihanna. Mas e quando o filme nos confronta com a beleza possível — quando percebida a partir da sensibilidade dos personagens — de um objeto como a bandeira dos confederados? O filme se permite observar essa bandeira, um símbolo tão carregado de significados e configurações sociais e políticas, como apenas mais um objeto de determinadas cores, de determinado formato.

Isso é, de certa maneira, assustador. Mas me parece, mais uma vez, necessário ser confrontado com a experiência do Outro — ou, como a imagem da bandeira no filme especialmente me sugere, com a estética do Outro. O que diferencia Star do grupo, enquanto estão todos lançados a esmo na mesma estrada, é a disposição da garota por compartilhar da experiência do Outro, mesmo que isso a atinja, que a leve a não cumprir sua meta de trabalho, que a coloque em perigo.

O filme, ainda assim, evita romantizar esse contato com o Outro. Ele reconhece a violência inerente a esse gesto. Ele sabe o que se perde nessa experiência. Mas, ao mesmo tempo, parece entender que estar no mundo com o Outro, compartilhar da existência num mesmo espaço, é sempre um processo violento de perda. A escolha de dividir o mundo com o Outro — como a que faz Star — torna-se então inevitavelmente uma escolha de perda, de desamparo.

Encerro o texto com o comentário de Vladimir Safatle sobre a obra Leap Into the Void, de Yves Klein, que, acredito, poderia ser um comentário também sobre Docinho da América e o salto desamparado de Star:

“Saltar no vazio talvez seja atualmente o único gesto realmente necessário. Com a calma de quem se preparou lentamente vestindo terno e gravata, saltar no vazio com a certeza irônica de que sabia que um dia essa hora chegaria em sua necessidade bruta, que agora não há outra coisa a fazer.”