Rogue One (With The Force)

por Rodrigo S. Pereira

Não pretendia escrever sobre Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One, dir: Garreth Edwards, 2016). Dispensei sumariamente grande parte da hype (apesar de, admito, ter gostado do primeiro trailer), tanto que mal lembrava, por exemplo, do rebuliço causado por refilmagens do projeto. Acontece que me atrasei para minha primeira sessão, mas me interessei tanto pelo filme que me prometi vê-lo novamente com intuito de escrever a respeito. Contudo, acabei me colocando numa armadilha. Agora meio que tenho que escrever “dois em um”, sobre duas experiências bem diferentes: a de ver o filme pela primeira vez, incompleto (na estreia, com sessão cheia, fãs fantasiados, gritaria a cada fan service), e a de revê-lo completo depois (sala quase vazia, fulaninho no celular três fileiras depois no qual atirei uma moeda de 5 centavos, pois o jovem, com fones de ouvido, não estava ouvindo outra pessoa reclamar diretamente com ele).

Em minha primeira experiência, meu atraso e uma confusão acerca da sala me levaram a perambular na exibição errada por uns três minutos procurando o amigo que detinha meu ingresso. Neste momento, vi Cassian Andor (Diego Luna) ter seu encontro com um informante inquieto e todo o desenrolar dessa cena, ainda que não estivesse prestando muita atenção ao diálogo. Quando cheguei na minha sessão, a Aliança Rebelde já havia capturado Jyn Erso (Felicity Jones), e a Senadora Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) e companhia a introduziam à missão de encontrar seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen). Além das sucintas explicações do meu amigo (“Galen é o pai dela, ele foi capturado no começo do filme para trabalhar para o Império. A mãe dela foi morta nessa ocasião. Saw Guerrera era amigo deles”), Rogue One se dá ao trabalho de inserir uns flashbacks de Jyn pouco depois, e então, com mais um ou dois esclarecimentos (“essas imagens todas já passaram?”), eu já não me sentia atrás na narrativa.

Claro, parece muito fácil dizer que vi o filme com 20 minutos a menos e entendi tudo depois de revê-lo completo, mas juro juradinho que anotei minhas impressões da primeira sessão. Para dizer a verdade, escrevi um protótipo do texto naquele momento mesmo, para o caso de não conseguir rever (o que só aconteceu duas semanas depois, afinal uma inteira tá cara esses dias, e ser forçado pelas distribuidoras a pegar sessões 3D e/ou dubladas não ajuda). Ao fim dessa primeira experiência, logicamente meu maior problema foi me envolver com os personagens, e inclusive fiz umas indagações a um outro amigo sobre Cassian e K2-SO (“Como eles são inseridos? Cassian e Jyn se encontram antes da missão?”) e informações gerais do início do filme que eu pudesse não ter pego pelos flashbacks. Este amigo afirmou categoricamente que perdi coisa demais, informação demais e seria impossível para ele resumir ou explicar.

rogue one

Ao sair da minha segunda experiência, minha primeira atitude foi contestá-lo: “você exagerou. Demais”. Minha impressão quando a nova sessão alcançou o ponto em que cheguei na anterior foi de que não vi nada de novo, em termos de informação. Excetuando uns “comos” e “porquês” muito pequenos (por exemplo o rancor inicial de Jyn em relação a K2-SO, ou a Saw), estes 15-20 minutos iniciais rendem mais conexão emocional com os personagens principais (o que não é, de forma alguma, irrelevante!) que informações essenciais à trama. Digo essenciais porque há, sim, presença inegável de informações significativas, mas para receptores específicos (fãs que vão se interessar por certos locais e figurinos familiares a eles, por exemplo).

Este investimento emocional em que o filme aposta é decisivo para o seu desenvolvimento e desfecho serem impactantes. Curiosamente, perder esta introdução dos protagonistas e do vilão, Orson Krennic (Ben Mendelsohn), não impediu meus olhos de quase lacrimejarem em alguns pontos. Compreendi-os todos melhor ao assistir novamente ao filme, apesar de infelizmente esta emoção inicial estar morta. Jyn, na primeira vez, me pareceu bastante forçada quando finalmente resolveu agir contra o Império, e admito que a sequência de abertura cobre os pontos relevantes da personagem para justificar suas escolhas, mesmo que parcialmente. Rogue One se esforça para fazer uso de cada detalhe, como a relação de Jyn com a Força, o que entre diversos pontos de importância discutível, serve para agregar Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Wen Jiang) ao time.

Já quanto ao capitão Cassian Andor, pouco mudou, o que para mim foi muito decepcionante. Rebelde integralmente dedicado à causa, soldado cuja consciência não atrasa seu gatilho, exceto (claro) no momento em que essa característica se transforma, ali próximo do ponto central do filme. Isso é tão logo reforçado que pouco fez falta a chacina cometida por Andor em sua introdução à trama – mas, estando ela lá, a mencionada transformação se torna muito mais significativa. Krennic, por sua vez, só é vilão de fato graças à sequência de abertura. Da primeira vez ele foi tão repetidamente humilhado por seus superiores imperiais que pareceu um “trapalhão inconveniente”, ou seja, aquele obstáculo apresentado aos heróis antes do real vilão e/ou objetivo. Esta continua sendo sua função narrativa, mas a sequência inicial apresenta a soberba e completa falta de escrúpulos de Krennic, contribuindo para que ele pareça mais ameaçador e impactante.

Impacto é a palavra-chave para este que é o primeiro de três spinoffs planejados para a franquia. Seguindo a aposta de Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, dir: J. J. Abrams, 2015), tudo, principalmente a ação, é “maior e melhor”. Nestes dois filmes há mais ação que nos outros seis juntos, ou ao menos é a impressão que eles passam. Com suas tramas corridas, haver uma cena de ação “over the top” (pode-se dizer “exagerada”, com aspas e tudo) a cada dez minutos tem esse efeito de acelerar a coisa toda, o que é radicalmente diferente das aventuras meticulosamente compassadas de Luke e companhia na primeira trilogia, ou dos épicos político-shakespeareanos protagonizados por Obi-Wan e Anakin nos outros três episódios. Tramas aceleradíssimas recheadas de ação e fan service aparentemente são a grande aposta da “engolidora de franquias” Walt Disney, que carimba tanto essa nova fase de Star Wars como a distribuição e merchandising do Universo Cinematográfico Marvel, com um total de 8 bilhões de dólares de investimento “só” por estas duas aquisições.

rogue one

O impacto é tão relevante para Rogue One porque, surpreendentemente ou não, na franquia Star Wars este é o primeiro “filme de guerra” que eu vejo – ou pelo menos sua segunda metade o é. Isso inspirou (o presente texto e) uma leitura política muito mais madura do que a pobre caricatura de nazismo feita em O Despertar da Força, pois em Rogue One o maniqueísmo fica muito menos presente. Não tanto pela humanização do inimigo, que é talvez o caminho mais óbvio para este efeito, mas pelo que poderia ser uma postura “autocrítica”, ou no mínimo dividida, da Aliança Rebelde. Entre outras coisas, a reunião do Conselho que antecede a missão a Scariff deixa claro que as diversas facções aliadas divergem muito quanto a objetivos, métodos e mesmo os valores da causa Rebelde.

Lutando por suas liberdades individuais ante a postura ditatorial do Império Intergalático, os rebeldes cometem diversas atrocidades. O próprio Cassian recebe secretamente a missão de assassinar Galen Erso em vez de resgatá-lo. Esta ordem e um bombardeio inconsequente mais à frente partem de um mesmo personagem sutilmente antagonizado pelo filme, de modo que não se pode responsabilizar diretamente todos os rebeldes por suas escolhas, mas é importante notar como limites entre certo e errado são tênues e relativizados no contexto de guerra. A Aliança ainda tenta se diferenciar de Saw Guerrera (Forest Whitaker), a quem chamam de “extremista”, mas mais de uma vez no filme eles atiram primeiro, explodem primeiro. Cassian admite, ao apresentar sua nova tripulação a Jyn, admite que ele e os demais já fizeram coisas horríveis pela aliança. Eles são todos soldados, espiões, sabotadores, assassinos. Mas fazem o que fazem pela causa.

E seria, honestamente, (mais) um filme muito dúbio no relativo à guerra Império-Aliança não fosse o pouco sutil detalhe de como os rebeldes se relacionam com a Força. Rebeldes guiados, ou ao menos inspirados por uma fé específica já é curioso neste contexto de Aliança violenta: para um certo olhar, podem estar “fazendo o necessário pelo que é correto”. Outro olhar pode vê-los como terroristas, que estão lutando por alguma coisa de uma maneira muito errada. Independente disso, a “causa” Rebelde só fica verdadeiramente clara porque em Rogue One não se repete apenas o clássico “May the Force be with you”. Chirrut tem uma prece própria, Baze se apropria dessa prece à sua maneira, e este é um exemplo de como cada personagem tem uma relação particular com a Força, sendo isso um ponto a favor da individualidade que compõe o estandarte rebelde. Que fique claro, considero muito bobo chegar num ponto, numa interpretação de um filme, personagem ou fala, e declarar que “na realidade o filme é sobre isso”. Assim, seria para mim absurdo vincular diretamente Rogue One às guerras estadunidenses, fanatismo religioso, atentados terroristas e outros horrores contemporâneos, mas acho que o filme, neste ponto, se comunica com esta realidade como os Star Wars clássicos nunca conseguiram se comunicar com a Guerra do Vietnã, Guerra Fria e tudo o mais.

rogue one

Até a virada para a guerra aberta, o time de heróis já protagonizou cenas de ação tão absurdas que parecem imbatíveis, e assim, o clímax sanguinário pode até surpreender, apostando tudo no envolvimento emocional de quem assiste. Infelizmente, principalmente para Jyn e Cassian, personagens menos desenvolvidos receberam um tratamento cômico, em medidas variáveis, mas que surtem o mesmo efeito: ao nos fazerem rir, criam um atalho emocional, tornando mais fácil que nos importemos com eles que com os protagonistas. Isso é válido para Chirrut, Baze, para o droid imperial K2-SO (voz de Alan Tudyk) e até mesmo para o piloto desertor Bodhi Rook (Riz Ahmed).

Este último é o mais complexo dos quatro. Sua deserção é o pontapé inicial da trama, pela qual ele é perseguido e mesmo torturado – o rebelde Saw o submete a um monstro detector de mentiras, experiência que poderia deixá-lo louco – antes de Cassian encontrá-lo. Supostamente buscando redenção, Bodhi é inspirado por Galen a agir contra o Império, mas, diferente de Finn (John Boyega) em O Despertar da Força, não sabemos exatamente o que levou Bodhi a desertar. De todo modo, os dois personagens servem como lembrete de que os incontáveis imperiais sendo metralhados, retalhados, explodidos e esmagados em todos os filmes também são gente, e sendo assim, não é muito absurdo se perguntar quantos estão ali pensando em desertar, ou cumprindo suas ordens pela própria segurança ou de seus entes queridos e amigos – caso específico que é um dos principais alicerces desta trama, dada a situação de Galen Erso.

Well done. You’re a Rebel now” (“Muito bem. Você é um rebelde agora”), é o que K2 diz a Bodhi após ele metralhar alguns stormtroopers para resgatar o restante do grupo. Esta é uma das falas que mais me incomodou em Rogue One, dentro de uma infinidade de diálogos puramente funcionais/informativos. Inferir que Bodhi, com a contribuição estratégica que já deu aos rebeldes e tudo o que passou na mão de Saw, só se tornou um rebelde após efetivamente matar o inimigo, é no mínimo indelicado. Felizmente para o filme, indelicadeza é o nome do meio do droid, mas isto não tem nada a ver com a fala disparadamente mais incômoda do longa, também dele. Em Eadu, um pouco antes da fala citada, ele é deixado sozinho na nave, e, ao virar para a câmera e se perguntar o que os outros estão fazendo, declara que se o capitão Andor voltar antes deles, eles partirão sozinhos. Um esforço pobre de desenvolvimento do próprio K2, a fala cômica, expositiva e desnecessária nos diz apenas que ele não se importa com os demais. Não me recordo se C3-PO fala muito sozinho (lembro dele tagarelando bastante com R2-D2), mas independentemente, este alívio cômico/desenvolvimento/exposição está muito mal posicionado num momento de construção de tensão, e não consigo perdoá-lo.

K2 não precisava disso, creio eu, já que vejo no droid o personagem mais cativante do filme. Jyn e Cassian não precisavam da cena do elevador no final do filme – só uma troca de olhares intensa, mas não duvido que um beijo tenha sido filmado e depois cortado. Na verdade, o encerramento destes dois personagens e do vilão Krennic, mesmo dentro do clímax, é um tanto aborrecido. É um Star Wars, e ainda Disney, mas Jyn bem que podia ter perdido um pé antes de chegar à antena, Cassian não precisava ter retornado depois daquela queda, e, honestamente, Krennic podia até ter conseguido escapar. Mas convenhamos, já havia um final mais leve que foi substituído pelo atual, e se tudo o que foi dito a este respeito for verdade, sobre refilmagens e tudo, já é um tremendo ganho.

rogue one

Deste modo, Rogue One se candidata à alcunha de mais pesado e sombrio Star Wars, não perdoando ninguém. Os grandes vilões são Tarkin (Guy Henry com rosto digital do falecido Peter Cushing) e Darth Vader (novamente dublado pela poderosa voz de James Earl Jones), este numa aparição verdadeiramente amedrontadora, em que é imponente de início, e se despede do filme feroz e implacável. Krennic se assemelha a Kylo Ren (Adam Driver), de O Despertar da Força, em sua incapacidade de ser um grande vilão, mas tem em Rogue One a desvantagem de disputar a vilania com estes dois gigantes, que oferecem um golpe de nostalgia aos fãs. Com Jyn e Cassian, são um trio de personagens de desenvolvimento igualmente extenso, mas apesar de relativamente bem escritos e atuados, “todo o resto” (pleonasmo necessário) parece mais interessante que eles.

Rogue One também traz a franquia finalmente dando alguma atenção ao impacto que os massacres genocidas promovidos na saga causam em seus personagens. O devastador disparo da base Starkiller no Despertar da Força é sumariamente dispensado com poucas palavras; se reage a ele com ações, mas pouco se percebe de emoção (ou no mínimo respeito) para com aquelas incalculáveis mortes; o que é notável e, para mim, lamentável. No spinoff, o primeiro teste da primeira Estrela da Morte destrói “apenas” uma cidade, e o peso dessa devastação reverbera pelo restante do longa. Os rebeldes entoam “por Jeddha!” no clímax de uma forma que deixa ainda mais explícito o quanto o drama familiar em que O Despertar da Força é imergido diminui o impacto imediato do restante. Há uma cena inteira de luto no hiperespaço em Rogue One que é simples, não pausa a trama (pois é quando Jyn revela o conteúdo da mensagem de seu pai), mas significa bastante. Chirrut quebra o pesado silêncio com “Baze, me conte. A cidade inteira?”, e assim, com muito pouco, se coloca “pingos nos is”, emocionalmente falando. Ainda não se chegou ao ponto de dar atenção às massivas mortes resultantes da destruição das temíveis bases bélicas do Império, mas já é alguma coisa.

Por fim, tal como O Despertar da Força, é uma boa e feliz experiência ver um Star Wars liderado por uma mulher, e Felicity Jones está tão de parabéns quanto Daisy Ridley estava por sua Rey. Rogue One também dá maior evidência a Mon Mothma liderando a Aliança, e o encerramento inesperadamente agridoce com a Princesa Leia (Ingvild Deila com o rosto digital da personagem clássica) cria uma relação muito mais forte com o restante da saga que, por exemplo, Luke (Mark Hammil) no filme de 2015, e tudo isso é potencializado pelo falecimento recente de Carrie Fisher.