O Morro dos Ventos Uivantes

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por Larissa Veloso

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2011), digirido pela cineasta britânica Andrea Arnold, é uma adaptação cinematográfica do romance de 1847 da também britânica Emily Brontë. Embora a narrativa se passe entre o fim do século XVIII e o início do XIX, essa condição de “filme de época” não impede que a adaptação siga por outros caminhos e traga para o longa um tom marcadamente contemporâneo. Ainda que haja o cuidado com aquilo que é característico de determinado tempo, como figurino e mobília, a forma como Arnold escolhe enquadrar os personagens e os cenários, por exemplo, distanciam o filme de uma representação mais tradicional da época retratada. O filme também segue por um viés contemporâneo na forma como as imagens e os sons são trabalhados: a câmera mais solta e trêmula, sempre muito próxima aos corpos; o ocasional foco em insetos que se movem por entre as folhas, ocupando toda a tela e sonorizados em seus mínimos ruídos; ou mesmo a canção “The Enemy” da banda de rock Mumford and Sons que toca nos créditos finais, por exemplo. Tudo isso constitui o olhar da cineasta e é justamente esse olhar que dá ao filme esse tom contemporâneo.

E aqui já não cabe mais o já tão gasto comparativo entre qual é “melhor” entre o livro e o filme, já que é naquilo que o filme tem de particular que a grandeza da história original se revela. Isto se evidencia não só no olhar de Arnold sobre a narrativa, mas também em sua construção do roteiro, co-escrito por Olivia Hetreed, que também foi a responsável pela “screen story” – a adaptação do livro para o roteiro original. Se Emily Brontë nos trouxe a história de mais de uma geração, com conflitos que se estendem para além da cronologia escolhida por Hetreed, esta última se detém apenas àquilo que se refere a Heathcliff e Cathy – desde o momento em que o Sr. Earnshaws traz para casa um garoto órfão, dá-lhe o nome de Heathcliff e passa a criá-lo como filho, até os conflitos que surgem da paixão que acompanha Heathcliff e Cathy (filha do Sr. Earnshaws) da infância à vida adulta. E nem é preciso que o filme se debruce sobre o que virá depois, pois tudo aquilo que precisamos ver já está lá na imagem, no gesto, nos sussurros e olhares.

O filme inicia com Heathcliff adulto numa cena em que, ainda que não saibamos o motivo, sua perturbação é visível. Ele está num quartinho cujas paredes revelam inscrições com o nome dele e o de Cathy. Logo em seguida o filme retorna ao momento em que ele foi trazido à família ainda criança. A parceria que se estabelece entre ele e Cathy é de uma força tamanha no longa porque é naquilo que os gestos têm de mínimo que ela se sustenta. Nenhum diálogo entre os dois poderia dar conta de nos convencer, mesmo quando eles passam anos sem se ver, que de alguma forma eles para sempre terão uma ligação. Não seria possível que palavra alguma no filme sustentasse o peso desses anos que passam e mantivesse em nós a crença de que foi tudo realmente doloroso – ainda que essa crença seja muito mais genuína nos personagens adolescentes, pois com eles já adultos parece que algo se perde.

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E é exatamente nos gestos feitos diante de um silêncio cúmplice que os dois se conectam. Como na cena em que Cathy passa a língua nas feridas de Heathcliff: a câmera tão perto, tão próxima. E o plano seguinte nos revela o fechar dos olhos dele, que deixam enfim cair uma lágrima. Ela abaixa a camisa. Os olhos dele marejados olham a paisagem. Algo ali aconteceu, ainda que não saibamos jamais como dizê-lo. Depois os dois correm sob a paisagem ao entardecer. Tudo na cena carrega algo de uma energia pulsante.

E ainda que se exigissem que em duas horas de filme Andrea Arnold desse conta da força que o livro de Emily Brontë tem, é preciso pensar que esse “dar conta” não pode se limitar a colocar no longa a totalidade dos acontecimentos narrados. Se por um lado o roteiro de Arnold e Hetreed encurta a cronologia da narrativa, isso não diminui o impacto que o filme pode possuir. E, para além da paisagem que se estende até onde os olhos conseguem alcançar, é também nos movimentos de pequenos insetos entre as folhagens e em seus ruídos que Andrea nos traz algo de comovente. O filme vai da vastidão dessas paisagens à proximidade dos corpos, como na cena do cabelo de Cathy esvoaçando no rosto de Heathcliff. A câmera treme, assume a posição do menino cavalgando atrás dela. E no balançar da cavalgada, o roçar das mãos de Heathcliff no pelo do animal tão próximo a Cathy que é quase como se ele a tocasse. Tudo isso num enquadramento que mostra esse cuidado com o que é micro, com aquilo que só é revelado porque existe uma câmera que se permite filmar essa proximidade.

Por fim, Andrea Arnold traz o seu olhar à história e acrescenta a ela algo que escapa da simples ida e vinda entre o que pertence ao livro e o que é próprio do filme. Há coisas no filme que são mais do que cenas de adaptação do romance de Emily Brontë: são fragmentos, pequenos lampejos do que seria esse olhar da diretora. E não apenas seu olhar sobre Heathcliff e Cathy, mas sobre encontros e perdas, sobre relações entre pessoas, sobre amor, ódio e sobre a dor que essas relações carregam também.