Viagem à Heterolândia

jovens loucos rebeldes
por Mário Rolim

Mais do que qualquer outro filme do diretor norte-americano Richard Linklater que eu tenha visto (ou pelo menos que eu me lembre), Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Everybody Wants Some!!, 2016) é um trem para a Heterolândia, uma viagem pelo imaginário de um punhado de jovens numa espécie de adolescência tardia que antecede a idade adulta e suas responsabilidades, onde eles brigam por afirmação, liderança e prestígio de uma maneira hiper-masculina, e/ou até hiper-adolescente. Para ser justo, sim, há um personagem gay que aparece brevemente numa festa dos alunos de Teatro, e os outros jovens até se surpreendem um pouco com a aparição dele, ainda que não façam nenhum tipo de ofensa homofóbica, mas isso não muda o fato do filme trazer uma perspectiva predominantemente masculina e heterossexual.

No caso, os jovens em questão são jogadores norte-americanos de beisebol universitário, que, no início da década de 1980, participam dos rituais de recebimento dos calouros e aproveitam os últimos dias antes do início do semestre letivo praticamente sem supervisão adulta e com muita festa, cerveja, testosterona, e, na falta de palavra melhor, paquera. Sem dúvida, este é um filme “dos caras”, que explora certas possibilidades dos arquétipos de jogador de beisebol “tabacudo” ao seguir alguns deles por esses últimos dias de férias enquanto parece adotar a sua perspectiva, o que inclui desde canções da banda de hard rock Van Halen tocando alto na trilha sonora até closes nos bumbuns e seios das meninas com quem eles transam.

Vi algumas vezes esse filme sendo comparado com outro longa de Linklater, Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, 1993), com o mais recente sendo colocado como uma espécie de “sequência em espírito” do outro. Apesar dos dois filmes focarem em ambientes, personagens e temas semelhantes, Everybody Wants Some!! se passa alguns anos mais tarde que Dazed And Confused, e não traz o retorno de nenhum dos personagens do primeiro longa. De qualquer forma, acho a comparação bastante válida pelas semelhanças inegáveis entre os dois, mas o que mais me intriga na comparação são justamente as diferenças.

Por mais que Dazed And Confused já trouxesse uma forte nostalgia e um deslumbramento por uma ideia de cotidiano da juventude universitária norte-americana do fim da década de 1970, algo do tipo “ah, boa mesmo era a minha juventude…”, eu esperava que Everybody Wants Some!!, por ter sido feito quase quinze anos depois de Dazed And Confused, e uns quarenta anos depois da época retratada no filme, trouxesse um certo distanciamento crítico e/ou irônico em relação aos valores do fim dos anos 1970/início dos anos 1980 que são retratados no filme (principalmente os que parecem datados dentro do contexto atual), ou no mínimo mais distanciamento do que em Dazed And Confused. Bem, no geral eu estava enganado.

Um exemplo é a forma como o filme aborda os trotes, onde alunos veteranos fazem os calouros passar por cerimônias de iniciação humilhantes. Em Dazed And Confused, os trotes são até mais violentos (tanto física quanto simbolicamente ou psicologicamente), mas alguns personagens veteranos (mesmo minutos depois de realizar um trote) mostram consciência de que aquilo é uma grande besteira, enquanto os veteranos mais violentos são escanteados ou colocados de maneira crítica e melancólica. Por outro lado, em Everybody Wants Some!!, o trote é visto como algo divertido, pelo qual os calouros obrigatoriamente têm de passar pra se integrar socialmente, e do qual eles às vezes se sentem até felizes de participar e “seguir a tradição”.

jovens loucos rebeldes

Em Dazed And Confused também há muito mais participação de personagens femininas, enquanto Everybody Wants Some!! foca num universo predominantemente masculino heterossexual, onde as mulheres são divididas (ainda que não seja de maneira verbalmente explícita) entre as para namorar/casar e as para transar. Só uma personagem ganha certo destaque e preocupação com desenvolvimento, Beverly (Zoey Deutch), mas é um destaque mais baseado no fato dela ser o “interesse romântico” de Jake (Blake Jenner), calouro que chega mais próximo de ser o protagonista do filme, apesar de o foco não estar inteiramente nele.

De fato, o longa, mesmo tendo sido lançado mais tarde, parece realmente estar décadas atrás (pelo menos nesses quesitos) de outro filme de Linklater, Boyhood – Da Infância À Juventude (Boyhood, 2014), cujo protagonista se aproximava mais de uma ideia de “garoto desconstruído” ao pintar as unhas ou ter uma postura aparentemente distante da de um “machão” tradicional. Esse tipo de “desconstrução” também não é contemplado quando o filme (me) parece fazer pouco caso do possível racismo ou pelo menos do sentimento de hostilidade e/ou não-pertencimento do único personagem negro entre os jovens jogadores (Dale, interpretado por J. Quinton Johnson) quando o grupo sai de uma boate disco pra um bar country, um ambiente tradicionalmente mais (supremacista) branco, algo que é inclusive perceptível no filme.

Mas o fato é que, no geral, esse tipo de “problema” passa longe das cabeças dos universitários que protagonizam o filme. De certa forma, eles parecem viver uma adolescência tardia, que faz o máximo para se manter afastada da idade adulta, não só pela quase inexistente supervisão por parte dos adultos das atividades realizadas pelos universitários mas também pela distância que parecem ter problemas tipicamente associados ao que é tido como “ser adulto”. Até a possibilidade da namorada do caipira Beuter (Will Britain) estar grávida vira motivo de piada, e não preocupação. Certamente o personagem que mais encarna esse espírito de adolescência tardia é Willoughby (Wyatt Russell), que inicialmente parece ser um veterano trazido de outra universidade para jogar no time de beisebol, mas é na verdade um adulto de uns 35 anos que gosta de passar um tempo fingindo ter quinze anos a menos para poder fumar maconha, ouvir Pink Floyd e beber entre os “jovens” universitários. De certa forma, o próprio Linklater parece ser uma figura como Willoughby, voltando a esse ambiente quase quinze anos depois de Dazed And Confused de forma ainda mais saudosista e menos distanciada. Assim, Willoughby pode ser visto até como uma maneira de indicar o quanto aquele ambiente é atraente, principalmente para quem quer escapar dos estresses da vida adulta.

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Apesar de tudo isso, acho que o filme não deixa de tentar desconstruir alguns estereótipos relacionados a filmes de universitários, ou a jogadores de beisebol universitário, ainda que timidamente. Por mais que “os caras” escutem diversos tipos de rock ao longo do filme, por exemplo, quem faz uma defesa do gênero é justamente Beverly, que enaltece uma vertente mais “artística” (e também mais feminina) do rock ao citar Patti Smith, Joni Mitchell, e, se não me engano, David Bowie, e ainda desdenha dos fãs de Jim Morrison, este até hoje um dos maiores exemplos de “macho alfa” do gênero. Além disso, Jake, aquele que mais se aproxima de ser um protagonista, parece ser um rapaz “sensível” e não tão preocupado assim em posar de machão, lê poesia, manda flores e cita mitologia grega. Certamente não é uma “quebra completa” com as supostas normas, e é algo que poderia ser visto como simplesmente o modo de ação dele com as mulheres “para casar” (algo questionável porque ele não parece mudar tanto assim quando está com Beverly), mas ainda assim achei isso um pouco surpreendente, principalmente quando Jake é comparado com seus colegas de beisebol.

Essas pequenas quebras com estereótipos desse tipo de filme acabam contribuindo para que Everybody Wants Some!! se diferencie do padrão de comédias “besteirol” norte-americanas como American Pie – A Primeira Vez É Inesquecível (American Pie, dir.: Paul Weitz; Chris Weitz, 1999) e Eurotrip – Passaporte Para A Confusão (Eurotrip, dir.: Jeff Schaffer, Alec Berg, David Mandel, 2004). Claro, há várias cenas que poderiam se encaixar facilmente neste tipo de comédia, principalmente as que passam em meio às festas e bebedeiras dos jogadores, ou as que envolvem disputas pra ver quem é o mais machão. Não que o filme de Linklater seja obrigado a se diferenciar de longas como American Pie para ser considerado “bom”, creio que isso fica a critério de cada um. Mas é interessante ver como Everybody Wants Some!! se aproxima desse padrão (pela escolha do tema, pelos personagens, pelo foco na perspectiva dos homens, etc) e ao mesmo tempo tenta se distanciar dele por fazer parte de um cinema “independente” ou “de arte” norte-americano. O filme faz isso ao apresentar uma narrativa cujo desenvolvimento não é baseado na capacidade dos personagens de fazer atos escatológicos ou sexualmente “ousados”, sem clímax ou “mensagem” moralista depois de todo o escândalo; e ao deixar seus personagens falarem e falarem (principalmente Jake) sem se preocupar muito em construir grandes “ações” (no sentido narrativo do termo) ou apresentar problemas para serem resolvidos, com os atores improvisando bastante e as cenas parecendo mais voltadas para a construção de diálogos do que para chegar a um desfecho propriamente dito.

No geral, por mais que talvez eu não tenha achado o filme tão engraçado quanto “deveria”, não deixei de me intrigar com a forma como ele deixa seus personagens falarem, o que na minha opinião os humaniza e os torna mais interessantes, em vez de simplesmente apontar o dedo para eles e dizer “olha como eles tão/tavam errados!”, como poderia ter sido feito facilmente. Claro, isso dá margem para certas atitudes (por parte dos personagens) que podem incomodar e ofender ou fazer o filme parecer até retrógrado e datado, mas nada que tenha me impedido de rir do jeito “ativo-agressivo” de Jay (Juston Street), ou de algumas das conversas malandras de Finnegan (Glenn Powell), por exemplo. No fim das contas, acho que o filme segue a linha do refrão da nostálgica canção “Lookout Joe”, de Neil Young (outro artista que é citado no longa, inclusive): “Old times, were good times/Oooooold ti-mes, were good times”. De certa forma, o tanto que o espectador gostará ou não do filme depende do tanto que ele ou ela concorde com esse refrão.