O Dispositivo do Outro

gente bonitapor Cesar Castanha

Em Pacific (dir.: Marcelo Pedroso, 2009), Pedroso acompanha, pela mão de seus personagens, o cotidiano de um cruzeiro que sai do Recife até Fernando de Noronha. A viagem é celebrada com um entusiasmo performático, voltado para lentes conhecidas, e o filme é montado juntando um material que seria provavelmente exposto a amigos e familiares. Mas essa performance serve bastante também como caminho para expressar e deixar registrada uma alegria muito genuína. Em determinado momento do filme, um casal de meia idade se isola em seu quarto e se filmam de mãos dadas, simplesmente — um momento que ainda guardo como meu mais querido do cinema pernambucano.

Esse filme me parece motivar uma comparação inevitável com Gente Bonita (dir.: Leon Sampaio, 2016). Primeiro, pela proximidade entre os dois diretores, que fizeram juntos alguns curtas coletivos voltados para a defesa do movimento Ocupe Estelita e outras questões urbanas, como Recife, Cidade Roubada (2014) e Novo Apocalipse Recife (2015). Pedroso é, inclusive, montador de Gente Bonita. Depois, pela semelhança do dispositivo. Pedroso acompanha a viagem como parte de uma equipe de filmagem de algum modo distante e depois pede, aos personagens, que cedam um material privado que produziram alheios às intenções de um diretor de cinema. Já Sampaio articula a presença da câmera com seus personagens, foliões de camarotes particulares no Carnaval da cidade de Salvador.

Diferentemente de Pacific, Gente Bonita tem uma estrutura narrativa mais firme, conduzida pela ótima montagem de Pedroso, com poucos personagens e uma noite cuja narrativa vai da empolgação e promessas de conquista de felicidade à frustração destrutiva. A escolha, como espaço do filme, de alguns camarotes do Carnaval de Salvador é excelente. Mais do que outros espaços de festa, talvez, esses camarotes estão associados a uma ideia de vitória individual e também de conquista sobre o Outro (como revela um pequeno grito de guerra repetido por personagens de dentro e de fora do camarote), um ideal que é ponto de partida para toda a violência que já esperávamos ver no filme (como o constante assédio de homens a mulheres), mas também para a frustração e o desespero íntimo dos personagens.

gente bonita

O que esse dispositivo tem de mais interessante — aqui, em Pacific ou em Doméstica (dir.: Gabriel Mascaro, 2012) — é como ele permite a seus personagens trazer adiante algo de si mesmos como um acidente que escapa na sua performance diante das câmeras. Nos outros filmes, Mascaro e Pedroso direcionam o olhar aos sintomas políticos que surgem da performance, acentuando o discurso ao qual o filme se volta. Em Gente Bonita, os “acidentes” não se voltam para o Carnaval de Salvador e tocam apenas indiretamente na cultura do camarote ou das selfies (como seu mal escolhido título internacional Selfie Generation, dá a entender). O que realmente revelam é a fragilidade dos próprios personagens, e apenas a partir de uma constatação dessa fragilidade íntima é que o filme chega às frustrações inevitáveis da cultura do narcisismo. Isso é alcançado, por exemplo, quando um personagem, depois de ser rejeitado várias vezes, esquece que a câmera está voltada para seu rosto, e, entre um grito de guerra exaltando-se e outro, revela uma expressão confusa e perdida, um desconforto profundo — e que parece ser compartilhado por todos os personagens em algum momento ou outro do filme — que transforma aquele camarote, para as mesmas pessoas que o celebravam anteriormente como a promessa do paraíso, em uma experiência insuportável.

Existe, acredito, um exercício ideal desse dispositivo, onde ele seria operado no ponto exato para que funcione como um trabalho de alteridade enquanto ainda recusa a condescendência. E acredito que Sampaio e Pedroso, se não alcançaram esse ponto, chegaram perto o bastante. Gente Bonita é uma experiência de “filmar o inimigo” das mais sofisticadas. Como o julgamento do Outro indigesto não está didaticamente demarcado, assistir ao filme pode ser difícil, pois exige um exercício de alteridade que (por bons motivos) temos nos recusado a fazer enquanto travamos uma série de disputas ideológicas que se assemelham a pequenas guerras civis. Mas acredito que, justamente nesse momento, olhar para o outro seja também absolutamente necessário.