No filmar da câmera, a vida

kawase
por Larissa Veloso

Pensar num filme que tenha me marcado em 2016 é realmente uma tarefa difícil. Mas posso dizer que dentre aqueles que mais me tocaram, que mais mexeram com coisas aqui dentro das quais a gente nunca sabe nomear, o filme Céu, Vento, Fogo, Água, Terra (Kya ka ra ba a, 2001), de Naomi Kawase, com certeza foi um deles. Passei a ter um carinho imenso por esse filme, por essa cineasta e por seu cinema. Dentre tantas maravilhas vistas este ano, esse filme é um dos quais vou carregar comigo por um bom tempo.

Percebo que é grande a quantidade de documentários recentes que têm se voltado cada vez mais para o universo do íntimo, para a filmagem de si mesmo como tentativa de dar conta de uma autobiografia, de um eu que se dirige à câmera ostensivamente, como Tarnation (2003), de Jonathan Caouette, ou In the Bathtub of the World (2001), de Caveh Zahedi. Algumas vezes, esse registro documental biográfico encara a vida como uma trajetória linear apreensível pelo encadeamento cronológico dos fatos, como um corpo palpável no qual é possível localizar uma origem e um fim. E, no entanto, quão numerosas são as possibilidades de transgredir isso, de ter-se a vida entendida em sua complexidade e descontinuidade. Não que os filmes citados sejam “menores” por assim serem, mas há também outros caminhos. E se existem filmes que seguem por esse outro caminho no qual a vida parece ser formada mais por fragmentos do que por uma linearidade cronológica, a cineasta japonesa Naomi Kawase é um dos mais sensíveis exemplos dessa produção documental voltada ao íntimo.

Naomi foi adotada e criada por sua tia-avó, e o desejo de ir atrás de seu pai biológico, que até então não conhecia, é o que move a construção do filme Em seus braços (Ni Tsutsumarete, 1992). A narração adquire quase tom de confissão, com a diretora falando sobre seus receios, suas dúvidas: “o tempo passa, nada acontece; embora dentro do coração bata forte, parecendo explodir”, ela diz. Nove anos depois, outro filme de Kawase vem se conectar totalmente com este.

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Trata-se de Céu, Vento, Fogo, Água, Terra (Kya ka ra ba a, 2001), que começa com a cena do telefonema ao pai, primeiro contato dos dois, e a voz vacilante de Naomi que parece carregar consigo essa dor do inexprimível, do inalcançável. A câmera se afasta e percebemos que o telefonema vem de uma cena de Em seus braços, que está sendo assistido por Naomi e algumas amigas. Em seguida, outro telefonema: não é mais a cena daquele primeiro filme, é a ligação que viria a lhe informar da morte de seu pai. É Céu, Vento, Fogo, Água, Terra que se inicia.

Nesse filme, outro encontro: agora entre a cineasta e sua mãe biológica. E a pergunta que Naomi carrega consigo desde sempre: o porquê do abandono. A conversa das duas, entretanto, não aparece em imagem, apenas em som. A câmera, ao invés de filmar o diálogo, move-se minimamente por entre algumas plantas e flores. Não vemos o rosto da mãe – e nem é necessário: ouvimos sua voz e o que nos aparece enquanto imagem é o céu, as árvores, o fogo, a água. O título do filme (Kya Ka Ra Ba A) já aponta para essa sensibilidade aberta à natureza, fazendo referência aos cinco elementos que compõem o mundo segundo a tradição do budismo japonês. Nada mais simbólico para o filme de Naomi: a origem do mundo representada por tais elementos inserida num filme de busca de uma origem pessoal.

E se por um lado há essa busca pelos pais numa tentativa de recuperar algo de seu passado, o cinema de Naomi vai além. Mais do que registrar o que foi vivido, seu cinema possibilita que outros reais apareçam na imagem, outros universos e latências que a realidade não consegue acessar sozinha: é preciso o olhar de uma câmera. Tal câmera incita acontecimentos, diálogos, silêncios. Uma propriedade quase mágica da objetiva, o desejo constante pelo registro. Nos filmes de Naomi Kawase, é a própria vida que se mostra enquanto processo diante da câmera: “filmo para me sentir viva”, ela diz.

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