As Pessoas Mudam No Inverno Da Anatólia

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por Mário Rolim

De certa forma, o arco de Sono de Inverno (Kis Uykusu, 2014) se assemelha a filmes anteriores do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, em especial Climas (Iklimler, 2006) e Distante (Uzak, 2004), que também são construídos ao redor de protagonistas (homens) que, em meio a uma paisagem melancólica e desoladora, lutam para manter intactas suas relações pessoais, apesar da clara dificuldade em exprimirem sentimentos e demonstrarem empatia.

Neste caso, o filme é focado no ator aposentado Aydin (interpretado por Haluk Bilginer), que administra um pequeno hotel na Anatólia, herdado de seu pai. Ele reside no hotel junto a Nihal (Melisa Sözen), sua esposa, com quem tem uma relação conflituosa, e Necla (Demet Akbag), sua irmã, que se divorciou recentemente e parece não ter superado a separação. Aydin tenta conciliar sua relação com as duas enquanto divide seu tempo entre seus papéis de proprietário de terras, colunista para um jornal local e escritor de um livro sobre a história do teatro turco.

A principal diferença de Sono de Inverno para os outros filmes citados é provavelmente a sua dimensão, e por dimensão eu não falo só de sua duração de mais de três horas. Neste longa, Ceylan parece dar mais importância do que nunca às palavras, o que não só rende mais diálogos entre os personagens, mas também uma caracterização mais profunda deles, além de um maior número de personagens secundários. Quem mais parece ter se beneficiado desse aumento na importância dos diálogos são Nihal e Necla, certamente as personagens femininas melhor desenvolvidas entre todos os filmes que vi do diretor, não só por terem uma caracterização mais detalhada, mas também por confrontar mais o protagonista masculino e serem menos objetificadas sexualmente – além disso, as duas protagonizam o primeiro diálogo extenso entre mulheres que já vi num filme de Ceylan.

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Esta maior ênfase nos diálogos também resulta numa diferença na abordagem quanto ao visual do filme, que deixa de ser quase expressionista (como é em outros filmes do diretor) para parecer mais discreto e contido. Se frequentemente em longas anteriores do turco as cenas pareciam desenhadas visando uma composição rebuscada, com Ceylan parecendo preferir sugerir os sentimentos e ideias dos personagens através de elementos visuais do que através de diálogos, em Sono de Inverno a linguagem formal parece mais simples, concisa.

Não que Ceylan tenha deixado de lado suas preferências estéticas ou composições recorrentes em seus filmes (como personagens focados através de espelhos ou sendo colocados como diminutos em contraposição a uma paisagem de montanhas e vales, por exemplo). Mas acho que a diminuição do virtuosismo estético valoriza a proposta deste longa, principalmente porque Ceylan parece ter chegado à conclusão de que as paisagens mais ricas de se filmar são os rostos dos atores, mostrados várias vezes em closes intensos conforme seus estados de espírito vão mudando ao longo do filme.

E eles realmente sofrem uma série de mudanças conforme o inverno vai se aproximando, às vezes dentro de uma mesma tomada ou cena. Nihal, por exemplo, deixa sua aparente serenidade dar lugar à culpa e à impotência que o enclausuramento lhe impõe. Necla passa de uma mulher preocupada em perdoar e cuidar dos outros para uma pessoa sarcástica e cheia de ressentimentos. E a gratidão e cordialidade dos irmãos Hamdi e Ismail, locatários de uma propriedade pertencente a Aydin, vão sendo mostradas com cada vez menos frequência conforme a sua incapacidade de pagar o aluguel vai se tornando humilhante. Já Aydin transita entre várias personas, parecendo simpático com os hóspedes do hotel, enquanto que com as pessoas próximas ele alterna entre um homem honesto, porém arrogante e insensível, e um homem incompreendido e injustiçado, (que se faz de) vítima das falhas de caráter dos outros. O ser vivo pelo qual ele parece demonstrar mais empatia é, de certa forma, o cavalo selvagem preso em uma caverna da propriedade. E sua tentativa de passar o inverno em Istambul mostra bem sua incapacidade de tratar afetuosamente as pessoas ao seu redor, considerando que assim ele foge do contato com sua mulher e sua irmã justamente quando estas relações se tornam mais difíceis.

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No entanto, Aydin está preso àquele ambiente desolador, e se vê impedido de ir embora quase que por uma força maior. Nesse contexto, as casas construídas pelas pessoas acabam se tornando suas próprias prisões, cercadas por uma paisagem que ameaça engoli-los lentamente ou torná-los meras peças decorativas. Muito dessa sensação de hostilidade vem do próprio frio, que aparece visualmente (na forma de neve ou mesmo de roupas de inverno) ou é citado no diálogo várias vezes ao longo do filme. Além disso, o inverno parece influenciar diretamente na vida dos personagens ao forçá-los ao confinamento e a ficar mais próximos uns dos outros (no sentido de aperto mesmo), o que acaba reforçando a distância e falta de comunicação entre eles, e torna cada vez mais difícil guardar ressentimentos. Sendo assim, não é de se surpreender que Necla se tranque em seu quarto assim que chega a estação.

É justamente nessas horas de maior distanciamento entre os personagens que a câmera mais se aproxima deles. Apesar de sempre manter algum nível de distância (há poucos closes no filme, mais concentrados no seu final), o ponto de vista do observador (representado pela câmera) nunca me parece ser um de julgamento dos personagens, apesar de vários elementos do filme evocarem uma frieza inescapável. Creio que a câmera demonstra uma notável empatia diante de pessoas que lutam para manter sua dignidade em meio a um ambiente adverso (tanto no âmbito doméstico quanto exterior) do qual elas não se mostram capazes de sair.

Esta empatia é notável principalmente porque sugere ao espectador um sentimento de compaixão. Há de se admitir que não é uma compaixão fácil de ser obtida, não só pelos elementos estéticos que levam à (ou indicam) alienação como o ritmo lento da narrativa ou o distanciamento da câmera em relação aos personagens em boa parte das cenas, mas também porque essas pessoas não parecem ser “gostáveis” da maneira convencional, ou seja, praticamente não demonstram afeto, são egoístas e cheias de defeitos, e os sentimentos que mais expressam são negativos (como rancor e insensibilidade). Creio que tudo isso dificulta a identificação emocional entre os personagens e o espectador. Por isso, o desafio maior do espectador assistindo ao filme não me parece ser a narrativa lenta e de pouca “ação”, e sim acompanhar a postura da câmera-observador e sentir compaixão e empatia por esses personagens, apesar de todas as suas falhas, e de todos os elementos estéticos que podem nos levar a sentir um distanciamento em relação a eles.