Westworld – Primeiras Impressões

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por Alan Campos

Welcome to Westworld”, repete uma voz na entrada do parque que recria o universo do velho oeste estadunidense, povoando-o com vários androides (chamados de “anfitriões”) que representam diversos arquétipos do imaginário western: bandidos, donzelas inocentes, xerifes, dançarinas de saloons, etc. O parque convida seus visitantes a várias narrativas típicas de faroestes, bem como os incentiva a experimentarem atos condenáveis na sociedade, como assassinato e estupro. O que se vende no parque é a ideia de que seus visitantes devem se aventurar no mito do velho oeste, bem como se permitir prazeres novos, sendo que alguns deles acabam por induzir seus visitantes a terem reflexões sobre suas verdadeiras naturezas.

No núcleo de personagens desta série norte-americana há espaço de destaque para todos aqueles que giram ao redor do parque: visitantes, anfitriões, criadores do parque, investidores, seguranças, etc. Interessa à série apresentar as diversas camadas que erguem o sistema de Westworld (2016, criada por Lisa Joy e Jonathan Nolan), atravessando vários tipos humanos como forma de tentar moldar um painel grandioso, rico e interessante sobre grandes perguntas e temas como “o que nos faz humanos?”, “até que ponto vale uma vida?”, e “concentração de grande poder nas mãos de um indivíduo”.

Seus personagens são bem delineados em suas particularidades e trejeitos, como se cada um estivesse sempre condenado a desempenhar um papel específico e rígido– um tema recorrente na série –, de modo que tem-se a impressão de que eles se limitam a enunciarem ou fazerem as mesmas coisas diversas vezes de uma maneira levemente diferente. Quando ocorre uma surpresa fora desse cronograma normal, ela é sempre atrelada a um choque envolvendo o tema favorito de Westworld, o embate de dois polos vistos como inseparáveis, sexo e poder.

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Enquanto almeja discutir grandes questões imersas em uma seriedade óbvia, Westworld revela uma obsessão em representar o lado negativo de seus personagens, ou as suas “verdadeiras naturezas”, através de atos sexuais. O olhar que se tem aqui é que o sexo é o que move os seres humanos – e isso em um tom negativo. Cai em banalidade a maneira como determinada personagem – inicialmente vista sem nenhum aspecto de destaque – abre a porta nua e percebemos que ela tinha feito um dos anfitriões de brinquedo sexual, por exemplo. Ou como uma particular cena de estupro é precedida com algum monólogo óbvio sobre a natureza doentia do homem ou como numa piada de mau gosto um homem coloca para tocar uma música dançante antes de abusar sexualmente de outro anfitrião. Situações que permeiam toda a série e que parecem existir apenas no intuito de pegar o espectador pelo choque do que é gritantemente apresentado como repulsivo.

Aqui, o sexo é sempre atrelado à classe econômica, ao poder que determinado indivíduo exerce ou impõe sobre o outro. É interessante perceber como isso é mostrado quase como uma reação aos grandes questionamentos existenciais e filosóficos da série. Enquanto Jonathan Nolan e Lisa Joy brincam com o fato de seus protagonistas serem indivíduos intranquilos e com grandes inquietações sobre os maiores questionamentos da raça humana, eles constantemente os reduzem a objetos de humilhação sexual. Existe um desprezo – ora escondido, ora explícito – da série com seus personagens. Ela parte do pressuposto de que os entende em absoluto e os abomina por suas atitudes maculadoras de um ideal humano de grandes virtudes.

Meu incômodo verdadeiro veio daí, dessa visão retrógrada e datada do pessimismo em relação ao ser humano, de seu reducionismo em relação aos “instintos primitivos”, sempre mostrados como algo negativo e trágico. Porém esse pessimismo nunca é explorado para além do intuito de impactar o espectador através de um plot twist. A tragédia nunca se livra do caráter simplista e condenatório em relação a seus personagens e é sempre acompanhada de um peso que parece sintetizar que tudo que estava sendo construído inevitavelmente levaria a algo ruim. Penso que esse desejo pela violência (mesmo que sendo vista com uma condenação) talvez revele um prazer por seus efeitos (ou vício nesse prazer). Talvez a série seja bem mais ingênua do que aparenta e reforce mais o olhar fetichista que em teoria está tentando criticar.

Westworld é referente de ideias óbvias e de moral rasa. É engraçado que sua figura mais enigmática, o Dr. Ford (Anthony Hopkins), criador do parque, seja vista com tanto desdém por seu calculismo frio e psicótico em relação a suas criações, quando a meu ver os realizadores se portam de maneira estranhamente similar a tal personagem em relação à série.