Enquadrar, Enquadrar; Se Passar, Se Passar

arrival
por Alan Campos

O canadense Denis Villeneuve pertence a um panteão seleto de cineastas que vão consideravelmente aumentando sua base de fãs com filmes kubrickianos que carecem de justificativas para sustentarem seus apreços por uma estética gritantemente plástica. Tanto ele quanto Christopher Nolan e Alejandro González Iñárritu (dentre outros) são cineastas virtuosos, autores que me parecem desejar que a cada instante o espectador indague “como isso foi filmado?” ou pense “que plano lindo”. Enquadrar, enquadrar; se passar, se passar. A comparação com Stanley Kubrick se dá devido à fama que o cineasta norte-americano tinha de exagerar no seu perfeccionismo, passando muitas vezes dias e até semanas para rodar um único plano. Não que os cineastas apontados façam necessariamente o mesmo, porém o resultado é comparável por parecer emular o apuro visual que constantemente reforçava a impressão de que naquelas imagens há um realizador e que ele se preocupa em conduzir nosso olho para a beleza de seus planos, algo que Kubrick tanto prezava.

O grande problema do último filme de Villeneuve, A Chegada (Arrival, 2016, Dir.: Denis Villeneuve), está em minar as possibilidades dessa imagem plasticamente harmoniosa em se tornar algo além do desejo de seu realizador em fazer ela ser… bonita. Tal beleza não se configura num artifício fertilizado pelo roteiro, nem tampouco coloca em cheque outros elementos estéticos, o que poderia ocasionar um embate de discursos interessante. Aqui o belo é referente da mão do cineasta. Diz respeito a um ofício que ele sabe muito bem (ou acha que sabe): enquadrar, balancear a cor, causar suspense, amarrar suas pontas e, enfim, surpreender.

Mas o desejo de arrebatar o espectador não se dá apenas pelo visual, mas também por sua narrativa. Sua história de invasão alienígena contada através dos olhos de sua protagonista, Louise (Amy Adams), doutora especialista em línguas que precisa buscar um meio de se comunicar com os invasores ao lado do homem da ciência, Ian (Jeremy Renner), é construída de maneira bem fluida, onde uma cena antecipa logicamente a seguinte no intuito de sempre provocar ansiedade para o que ainda está por vir.

Em seu plot twist, sua música pautada para enfatizar o drama, sua estética de boutique (carente por atenção e almejando que todo interesse seja depositado em suas texturas), A Chegada claramente não consegue deixar de se utilizar de truques para manter a atenção do espectador focada nos enquadramentos do seu realizador. Seu pecado é não provocar o espectador a ir além de seu parnasianismo, enquanto não se utiliza de tal parnasianismo como rito de passagem para pulsações mais interessantes. Seus planos parecem enunciar frequentemente que o ponto de vista desse filme é o de um sujeito que se relaciona com o ato de dirigir como sendo um campo exclusivo de regras e conceitos rígidos que foram estabelecidos por seus predecessores.

Ao ser tão amarrado e rígido, A Chegada é dependente do fascínio que seus enquadramentos possam exercer no espectador ou da vontade do mesmo em se atar às reviravoltas da história. Em ambos os casos se torna um filme condenado à sua superficialidade – o fato de eu utilizar essa palavra em tom negativo me deixa bastante estarrecido, vale ressaltar – em ser de um esquematismo terrível, sufocante e carente de novas abordagens, com ideias que me parecem terem sido consideradas exclusivamente por supostamente serem relativas a um cânone do bom cinema de entretenimento.