Lá e de volta outra vez: análise de Elle

elle
por Rodrigo S. Pereira

Novo filme do diretor holandês-quase-itinerante Paul Verhoeven, Elle (2016) foi produzido na França e estrelado por Isabelle Huppert, adaptado do romance Oh… (2012) do francês Phillipe Djian. Alvo de polêmicas desde cedo, o filme, aplaudido de pé no último festival de Cannes, é controverso “como um bom Verhoeven deve ser”. Em poucas palavras, o filme narra como Michèle LeBlanc (Huppert) lida com ser estuprada dentro de casa por um invasor mascarado. Criticamente aclamado, o filme divide opiniões que o situam como misógino ou feminista.

A presença de cenas de estupro no cinema vem sendo crescentemente discutida com os anos, visto que esse violento crime muitas vezes serve de motivação para heróis (frequentemente masculinos) realizarem vingança e/ou justiça; ou pior, a cena do estupro é muitas vezes usada como sexo, sendo filmada para ser excitante e trazendo uma exploração da vítima em sua fragilidade por parte do filme/cineasta tanto quanto do personagem-agressor. Que fique claro: estupro não é sexo; é violência, crime atroz. A atriz e cineasta Jodie Foster já se pronunciou publicamente a esse respeito, e o filme Valente (The Brave One, dir: Neil Jordan) que estrelou em 2007 pode ser interessante de se colocar como contraponto a Elle.

Agora como Elle se comporta nesse contexto? O filme já abre exibindo o primeiro estupro, observado com algum distanciamento e quadro fixo, reforçando a dureza da cena. A mulher rememora o momento do crime posteriormente, e o filme revisita a ocasião de uma perspectiva mais íntima. Através de diferentes ângulos e montagens, o estupro é recontado passo a passo numa cena de ação. Nela, me assustei junto com Michèle com o surgimento do invasor – e percebi outros espectadores na sala do cinema igualmente sobressaltados. O desespero da mulher é impecavelmente representado por Huppert, e todo o movimento, ângulos fechados e montagem ágil (e precisa, principalmente no design de som) recriam angústia, terror e dor. Não é bonito, não é sensual. Para mim, uma cena de horror mesmo, e tem todos os elementos pertinentes a este gênero cinematográfico: o susto, o ritmo acelerado (inquietante) e o vouyerismo inescapável. É um estupro visto de perto, o que incomoda intensamente.

A trajetória de Michèle é muito difícil de resumir, complexa e cheia de nuances. A mulher tem um passado marcado pela violência de um homem – seu pai cometeu crimes aos quais ela foi injustamente relacionada, mesmo enquanto criança, e tantos anos depois ainda sofre consequências dessa interpretação. Ela foge desse laço paterno, apesar dos protestos da mãe, e se desenvolve como uma empresária bem-sucedida em um dos ramos mais machistas da machista indústria do entretenimento: os videogames. Ela e sua sócia – as duas se conheceram numa maternidade – são donas de um estúdio produtor de jogos, e assim chefiam uma equipe majoritariamente composta por homens.

Michèle já foi agredida durante um relacionamento, mas o ex permanece em sua vida. O marido de sua sócia – subordinado de ambas – a trai com Michèle, e seu comportamento é também dominador e abusivo nesses encontros. Em suma, nenhum homem de Elle realmente presta, nem mesmo o filho tabacudo da protagonista (que, quando de cabeça quente, torna-se também um agressor em potencial). Michèle tem seus problemas no trabalho, primeiro por parte de um de seus subordinados que não a respeita, e também por parte de outro que lhe puxa o saco, mas que, descobre-se, engendra um abuso e desrespeito sem medida com a chefe. Em família, Michèle está constantemente em confronto com sua mãe, que faz frequentes cirurgias plásticas e tem tido casos com homens mais jovens, além de relutar em aceitar o relacionamento do filho com uma jovem que considera desequilibrada.

elleUm amigo comentou comigo que achava estranho não ler, nas críticas ou comentários e polêmicas, sobre Michèle ser uma psicopata. Não no sentido “clássico de thriller americano” de uma assassina em série, mas de alguém que não se ajusta socialmente, insensível e fria, de pouca ou nenhuma empatia com o próximo. Michèle tem uma dureza tal que a faz parecer indestrutível, irredutível, tanto que se nega a se apresentar e ser vista como vítima; ela mesma aparentemente fazendo pouco caso do estupro quando decide revelá-lo a outras pessoas. É importante frisar que isso é aparente, mas não necessariamente verdade: a gravidade do crime e seus efeitos em Michèle são a força motriz do longa-metragem. A dureza que a personagem desenvolve para si é sua defesa contra a sociedade; ela não confia em ninguém, herança da história com seu pai.

Então ela “comete o erro” de não ir à polícia após o crime. Não por vergonha ou medo – o que sabemos que é uma questão para as vítimas reais – mas por completa desconfiança na autoridade e na justiça legal. Seu procedimento, em contrapartida, é o de investigar por conta própria. Mesmo que já se desconfie desde cedo da identidade do invasor (tanto não é segredo que esta revelação é um ponto central, não o clímax do filme), o somatório de atitudes de Michèle só evidencia sua força e talvez, como sugeriu meu amigo, psicopatia. É também onde começa a maior polêmica do filme, o que o torna controverso. Michèle parece conflituosa quanto ao que pensar do crime do qual foi vítima, o que lança uma ideia de que ela pode ter alguma inclinação masoquista – ainda que eu lembre muito claramente de que uma de suas reconstruções do primeiro ataque torna-se imaginativa, incluindo o desejo de retribuir a violência.

Mas é muito perigoso reduzir a personagem e o filme a essa relação. Michèle não está simplesmente brincando com fogo ou buscando esse prazer masoquista ao procurar seu estuprador. Caso lhe pareça aceitável a ideia de que ela é psicopata, tudo desde a revelação da identidade do agressor pode estar incluso em maquinações para culminar na punição que ela considera adequada. E, curiosamente, vejo essa relação como a própria punição, mesmo que não a veja como psicopata. Por fazer essa escolha de interagir diretamente com seu agressor, no mais clássico “eu sei que você sabe que eu sei que você sabe”, Michèle assume o controle da relação. Ela manda uma mensagem clara de que a força física dele não é suficiente para quebrá-la, de que a vontade dela é soberana. Agora é ela quem o está usando, e ele não tem mais qualquer escolha. Isso se estende para o clímax do filme, em que se poderia entortar o nariz para quem dá o golpe final no criminoso, mas me foi cristalina a impressão de que Michèle arquitetou cada passo da conclusão dessa história – uma vingança que sequer lhe suja as mãos.

O quase-maniqueísmo de Elle em relação aos personagens masculinos lembra muito outro filme de Verhoeven, Showgirls (1995), igualmente controverso, mas por sua vez muitíssimo subestimado, tendo sido execrado à época e é comum que continue sendo até agora, 21 anos depois. Elle é talvez um Showgirls aprimorado, melhor sucedido. Ambos os filmes têm uma protagonista mulher inserida num ramo intensamente machista da indústria do entretenimento, cercada por homens, e em ambos as personagens têm de lidar com um estupro, dentre outras violências. Ambos os filmes se equilibram numa corda bamba entre sexualização e empoderamento, problematizando o desejo e o vulgar numa suposta perspectiva feminina – ou numa projeção de perspectiva feminina, dada que a direção é de Paul Verhoeven e ambos os filmes foram escritos por homens. Mas gosto de pensar, enquanto crítico e realizador, que filmes uma vez prontos são seres independentes de seus realizadores, e são capazes de comunicar inclusive o completo inverso do que qualquer de suas partes pretendia. Isso porque um (bom) filme é sempre “completado” (e complementado) por seu espectador, podendo alcançar significados diversos e discrepantes.

elleRelembro um trecho de Câmara de espelhos (2016, dir.: Dea Ferraz), documentário ao qual também dediquei texto. Nesse trecho o filme se apropria de uma das esquetes mais famosas (e melhores) do canal cômico Porta dos fundos, em que a personagem feminina declara ao marido Mário Alberto que quer foder, e segue descrevendo minuciosamente uma pá de maneiras como quer foder, com quem (e quantos). No trecho do documentário, os homens que debatem ficam em conflito quanto a considerarem adequado uma mulher querer as coisas que a personagem de Júlia Rabello quer, ou pior, se quiserem, se é adequado declararem isso. Elle, e também Showgirls, tende a lidar com essa controvérsia do desejo feminino versus a sexualização masculina do desejo feminino. Michèle, tal qual Nomi (Elizabeth Berkley) no filme de 1995, faz muitas coisas porque quer, e a soberania de sua vontade é a chave desta(s) narrativa(s).

Michèle é dona da própria vontade, do próprio desejo, tal qual o é a esposa de Mário Alberto. A fonte do desejo: os personagens homens dominados pelo próprio desejo são comumente condenáveis, brutos e criminosos, enquanto as mulheres encontram em seu desejo todo um poder. O requinte cinematográfico de Verhoeven para o sexo e para a violência, que ele frequentemente traz juntos, é um esforço artístico digno de nota. A meu ver, os filmes reconhecem suas protagonistas como donas de si, da própria vontade e libido. Mérito do roteiro, da direção, das atrizes, da magia do Cinema ou de quem assiste e interpreta desta forma.

Os filmes de Verhoeven que conheço surtiram um efeito curioso. Robocop – O Policial do Futuro (Robocop, 1987) e Tropas estelares (Starship Troopers, 1997) são filmes de ação recheados de violência, e apesar de já ter visto muitos outros dramas policiais e de guerra, eu nunca tinha sentido com tanta força tamanha aversão por armas. A violência dura e explícita ali exibida tem esse poder, e não consigo atribuir a outro fator que não a direção de Verhoeven. Showgirls e Elle fazem o mesmo com o estupro (Elle também me deixou aterrorizado quanto a invasão de domicílio, o que francamente nunca havia me acometido com outro filme que lidasse com essa situação), enquanto são também capazes de demonstrar toda a sensualidade do sexo que elas querem.

O roteiro – que admiro bastante, e sofro por não saber quanto dele já está presente no romance que o originou – tem suas espertezas nas demais personagens femininas. As mulheres, disfarçadas por fragilidades até mesmo estereotipadas, têm personalidade forte e se somam em Elle de forma surpreendente. A mãe de Michèle é pioneira, no filme, em ser dona do próprio nariz e fazer o que bem entender, perseguindo a própria satisfação e prazer acima do que os outros pensam. Esse espírito parece guiá-la num caminho de certa ingenuidade, mas tal qual a filha, vejo essa senhora muito conscientemente usando sem pudor seu parceiro, o que me parece maravilhoso. A amiga e sócia duplamente traída é outra mulher incrível, que soube localizar muito bem na situação do adultério qual era a parte nociva que ela precisava expurgar de sua vida, e, melhor ainda, o faz unindo forças com Michèle. A nora da protagonista, que luta ferozmente por território a princípio, supera a loucura que a ela atribuíam com muita determinação e fibra, emergindo dominante (ainda bem) em seu relacionamento.

O mais complicado talvez fosse a vizinha beata, cuja declaração final sobre o marido pode soar, para alguns, como um perdão ou justificativa para seu comportamento. Se o for, Michèle deixa bem claro – mesmo que sem palavras – o quanto discorda. Mas a personagem está ela mesma passando por um intenso trauma (facilmente ignorado nesse ponto), e a religiosidade tão presente na sua vida é uma forma muito pertinente (no filme) de lidar com isso. Não me parece que suas palavras tenham o mínimo sentido de defender o marido, mas sim de explicar para si mesma como aquilo é possível. E mais, sua declaração, em vez de defendê-lo, é mais uma condenação a todos os “bons homens”: eles não estão isentos de suspeita ou de culpa, nem serão facilmente perdoados, se o forem. Foi esse reconhecimento que vi no olhar com o qual Michèle responde. Algo como “de bons homens o inferno está cheio”.

Elle não é lindo, sexy ou engraçado. Elle é assustador em diversos níveis, e, assim, é potente e pertinente. Não dá para dizer que o filme é sutil, e não creio que eu vá acusar qualquer um(a) de “não tê-lo entendido”. Afinal, cada espectador(a) recebe e completa um filme conforme sua sensibilidade, e acho improvável existir, principalmente nos melhores filmes, uma “leitura correta”. Apesar de a polêmica render toda sorte de material curioso, como a declaração de que Elle seria um filme “pós-feminista”, convém manter os pés no chão e lidar com o que é fato. Michèle investiga seu agressor, e dá vazão ao próprio desejo com ele, quando quer. Isso não exonera o agressor do crime anterior e das tentativas seguintes, o que a própria mulher deixa claro para ele ao revelar que pretende, sim, puni-lo. O imbecil ainda pergunta “Por quê?”.