Um rio, muitas vozes

dia de pagamento
por Mário Rolim

Passei uma boa parte da minha formação como jornalista, principalmente no início do curso, ouvindo que jornalistas deveriam ser imparciais ou ao menos buscar um ideal de imparcialidade, e que os textos jornalísticos mais imparciais teriam mais credibilidade e estariam mais próximos da “verdade”. Claro, ideias bastante convenientes quando se nota que uma parcela assustadora dos textos jornalísticos veiculados na chamada “grande mídia” obedece a um processo criativo quase mecânico de tão automatizado e pouco provido de espaço para a individualidade e para a fuga das normas (sejam as normais formais da própria escrita jornalística ou as normas de conduta e ideológicas do veículo em questão). Com o tempo, me chegou uma noção de que a imparcialidade é inatingível, e que a “verdade” é uma construção ou um efeito, sempre baseado em pontos de vista e ideologias particulares ou específicas.

O curta Dia de Pagamento (2016), que é até onde sei o primeiro documentário de Fabiana Moraes, parece desprovido dessa preocupação com a busca pela imparcialidade tão importante para o jornalismo tradicional – que consigo enxergar também em boa parte do que se chama de “documentário clássico”, e até em documentários mais recentes, como What Happened, Miss Simone? (2015, dir.: Liz Garbus). Ainda assim, creio que, se o filme pode ser posicionado no encontro entre o jornalismo e o documentário não-ficcional, ele me parece estar mais perto do lado do jornalismo, ainda que seja o jornalismo mais próximo do estilo das grandes reportagens (reportagens em que o jornalista trata de um tema não tão urgente assim, e dispõe de mais tempo para pesquisar e entrar em contato com as fontes, assim como um espaço maior para escrever – seja para a TV, rádio, internet ou jornal), e até do ensaio.

Dito isso, é preciso admitir que minha formação como jornalista influencia meu contato com o curta-metragem, assim como minha experiência com algumas das produções jornalísticas de Moraes – nem tantas assim, infelizmente. E tudo isso me deu a impressão de que um dos pontos mais positivos do curta é o fato dele enxergar a parcialidade não como uma limitação, mas como uma potência. Desta forma, ao focar nos modos como a transposição do Rio São Francisco (e sua obra) afetou os hábitos de consumo de uma série de pessoas no povoado de Rio da Barra, nos arredores de Sertânia, no sertão de Pernambuco, a diretora claramente não postula ou busca uma “verdade” com V maiúsculo, e sim explora seu ponto de vista sobre as mudanças causadas pela transposição, assim como os pontos de vista das pessoas afetadas.

Isso fica evidente, por exemplo, na apresentada contradição dos efeitos da transposição, por um lado tendo possibilitado a várias famílias consumir produtos (desde residências e veículos de transporte até biscoitos) aos quais elas não tinham acesso antes, mas também dando margem para o aumento da prostituição (e aliciamento) de meninas adolescentes, assim como a proliferação de lixo, que se acumula assustadoramente em diversos pontos. Para estas últimas duas questões (principalmente a segunda) senti falta de maior desenvolvimento, para o lixo até mesmo mais verbalização, até porque reconheço que só fui entender realmente a importância disso para o curta durante o debate pós-sessão com a realizadora. De qualquer forma, o fato é que não se chega a uma conclusão ou resultado final sobre esse processo, e o que se tem no lugar é uma série de impressões e trajetórias de vida contadas pelas pessoas de Rio da Barra, e conduzidas por Fabiana, cuja presença é perceptível com frequência no curta, através de sua voz em off narrando ou interagindo com os personagens por detrás da câmera, por exemplo.

dia de pagamentoA narrativa é centrada em Lena, mãe de dois filhos que viu seu poder de consumo aumentar bastante em virtude das obras de transposição, e nas relações que Lena estabelece com outras pessoas de Rio da Barra, com o foco transitando constantemente entre passado e presente, encenação de situações cotidianas e entrevista com as pessoas que contam suas próprias histórias. Desta forma, o filme diminui esse lugar de “olho que tudo vê” ou de narradora onisciente (e por consequência imparcial) de Fabiana Moraes (e sua câmera), e evidencia uma relação de cumplicidade e respeito mútuo entre diretora e entrevistado(a) que eu particularmente acho tocante.

Essa relação me parece mais visível nos vários momentos de “erro” do curta (possivelmente o que mais me encantou nele, no fim das contas), quando os personagens não conseguem dizer uma fala “sugerida” por Moraes, ou quando se atrapalham ao contar algo. Nesses momentos, o filme quebra com a impressão de “verdade” para deixar claro que, por mais que aquilo seja um vislumbre da realidade daquelas pessoas, não deixa de ser um olhar particular, e que o ato de contar sua própria história é sempre encenado. E, principalmente, reforça o lugar dos personagens como atores ou performers dentro de suas próprias vidas, o que é explícito quando Lena “atua” sua experiência na profissão de lavadeira, ou na sua conversa com a funcionária do mercado. Além disso, o filme, meio que por inversão, se aproxima de elementos associados com o artificial (a parcialidade, a encenação) e através desse processo também chega perto de uma certa verdade por mostrar as pessoas improvisando, reagindo àquela situação de forma espontânea. De certa forma (talvez torta, eu admito), acho que isso acaba dando mais voz às pessoas, por deixá-las com mais liberdade e não restringir as porções das entrevistas presentes no filme aos trechos mais duros ou com informações mais “úteis”. Creio que este movimento seja bastante válido, além de divertido, me parecendo serem estes os momentos mais cômicos do filme.

No entanto, apesar de reconhecer a potência de deixar esses erros passarem, no final do curta tive a impressão (realçada durante o debate) que Moraes reconhece que isso também reforça seu lugar como diretora e a assimetria assim estabelecida entre ela e os personagens, e entende que em certos casos (num diálogo com Lena ao fim do filme, especificamente) é mais justo e menos assimétrico perguntar menos e deixar as pessoas falarem mais. Apesar de indicar uma mudança de perspectiva em relação ao que é apresentado anteriormente, de certa forma, isso pode ser visto também como mais uma quebra do lugar da diretora como narradora onisciente, ou uma forma diferente de tentar dar mais voz às pessoas/personagens (geralmente esquecidas ou marginalizadas), algo que já se mostrava em vários momentos da carreira de Moraes como jornalista, principalmente em suas grandes reportagens. Assim, vejo Dia de Pagamento menos como uma incursão ocasional de uma jornalista no cinema e mais como uma continuidade do olhar atento e empático de sua diretora, e uma exploração (de um resultado que julgo interessante) de como esse olhar pode ser trabalhado diferentemente em um meio/estética diferente. Por tudo isso, estou curioso para saber como será o próximo documentário de Moraes.