Entre olhar e se deslocar

14975751_1323861040999134_750686908_opor Alan Campos

Em um congresso de comunicação recente descobri numa feira de livros um determinado exemplar que defendia que todo filme, diretamente ou não, apontava para o próprio cinema, ou seja, que todo filme é metalinguístico. Devido à correria em que estava na época não pude folheá-lo com o devido tempo, mas a afirmação ficou guardada na cabeça. Querendo ou não, ao assistir a um filme somos constantemente convidados a associar nossas inquietações, ideologias e questionamentos com o que é apresentando na tela, e mesmo que a inquietação provocada pela afirmação do livro não tenha aparecido em todo filme que vi desde então, ela certamente foi potencializada em A Morte de Luís XIV (La Mort de Louis XIV, 2016, Dir.: Albert Serra).

Passando-se quase que inteiramente em um cenário, La Mort de Louis XIV se contenta em observar os últimos dias de Louis XIV enquanto é acometido pela deterioração de sua saúde. Seus diálogos e situações são quase que exclusivamente sobre a condição física do protagonista: hipóteses sobre possíveis formas de curá-lo, súditos convocando pessoas para manter o rei um pouco mais na terra, uma gangrena se espalhando pelo corpo, etc. O inevitável é constantemente adiado. Esse é um filme que apresenta sua condição e seus mistérios em rostos, onde suas materialidades – rugas, excesso de maquiagem, frieza, distanciamento – produzem uma espécie de aura relacionada com certa sensação de imobilidade.

Sendo conduzido por rostos, é imensurável estipular os limites em que o rosto de Jean-Pierre Léaud (no papel de Louis XIV) possuiu em minha relação com o filme. O final de Os Incompreendidos (Les 400 Coups, 1959, Dir.: François Truffaut), com o rosto congelado do ator então com 14 anos, ainda é um dos planos mais emblemáticos e incrustados no imaginário cinematográfico de que se tem notícia. Antoine Doinel – o menino interpretado por Léaud – correndo pela praia, tomado pelo ímpeto de não pertencimento a lugar algum, foge de sua prisão e encontra a praia como barreira que vai minando seus movimentos e o fazendo encarar o espectador até se tornar completamente estático. Incompreendidos era menos um filme sobre uma situação específica em determinado contexto sociocultural e mais sobre certo sentimento de se sentir vivo e não saber como se policiar diante de desejos e de emoções. Truffaut filmava cada cena como sendo dotada de energia própria. O filme me parece simbolizar não apenas uma intensidade de energia através da presença de Antoine, mas também em dar um rosto e narrativa para as memórias de seu diretor.

O rosto congelado era um final que extrapolava o quadro, o momento que permitia ao personagem se desprender tanto do fim da narrativa fílmica quanto em ser alçado a um símbolo da juventude angustiada e incompreendida. Ele deu ao personagem o caráter de um alguém fora de sua linha de tempo, sempre ressurgindo numa infinidade de referências que ora prestaram homenagem ao filme, ora se apresentaram com intuitos diferentes. Tal rosto é um dos símbolos do próprio cinema, mas nunca significa somente uma coisa, é de um caráter de revelações para tantas outras que vão além de Os Incompreendidos.

Pensando por esse viés, é perceptível que o diretor Albert Serra entenda a força do rosto de Jean-Pierre no imaginário cinéfilo, desejando que a potência desse rosto supere tanto a materialidade da representação da face mórbida de Louis XIV como as feições envelhecidas do ator. É nesse constante deslocamento de personagens e rostos que reside o desejo de La Mort de Louis XIV em não pertencer a uma única temporalidade, quer esteja ela dentro ou fora do quadro. A partir da ponte criada entre o rosto próximo da morte e o rosto jovial e que encara o espectador no final do filme de 1959, pode-se dizer que ambos estão atados pelos seus corpos. Antoine virou refém por não controlar seus impulsos juvenis, enquanto Louis recebe apenas o processo de ser cada vez mais imóvel e estático.

Quando o rei encara a câmera pela última vez, senti o peso que remete não só ao fim do filme de 1959, como também à impotência do cinema em retratar o gesto da morte que não seja diante de uma tela onde a textura do tecido se confunde com a urgência do seu vermelho, norteando o rosto de Jean-Pierre e fazendo com que essa imagem me devolvesse o mesmo impacto de um Antoine acuado e impossibilitado de se controlar. Porém o diálogo do personagem mórbido com o imaginário cinéfilo não é a única maneira em que o filme olha para o meio cinematográfico.

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Sendo um filme que raramente cessa de olhar para a cama (que remete muito a um caixão), ele apresenta o caráter minimalista dos cuidados com o rei em toda a banalidade dos seus mínimos detalhes. É notável o artificialismo do quadro: já que quase não entra luz natural em cena, não há uma preocupação em explicitar se determinada cena está ocorrendo durante o dia ou à noite. O filme é tomado por um tom fúnebre (não restrito à sua temática), que é transbordado através de velas, cores constantes em toda a narrativa e movimentos lentamente ritmados dos personagens, ou, no caso do rei, uma imobilidade quase que completa. A percepção do movimento dentro do quadro é quase nula.

Nesse universo estático, existem poucos momentos em que o filme saia do quarto do protagonista. E sempre que o faz parece enfatizar que outras realidades diegéticas são inacessíveis, bem como estáticas, como no plano único da janela do quarto do rei, a pintura do jovem monarca que é focada constantemente, ou a vontade do rei em passar mais tempo com seus cachorros. Momentos que se intrometem como devaneios oriundos da mente do déspota ou como desejos de se aproximar de outra coisa além da agonia. Já que o corpo efêmero é tão central no filme, nada mais natural do que o filme terminar com os órgãos do rei sendo expostos e analisados por médicos.

Seu desejo de levar às últimas consequências a materialidade efêmera de seu protagonista também provoca uma dessacralização da figura do “Rei Sol”, o monarca absolutista que governou por mais tempo na Europa. Jean-Pierre Léaud menos representa o papel da grandiosidade dessa figura e mais apresenta o caráter passivo e frágil que o corpo adquire frente às marcas do tempo.

Se a princípio La Mort de Louis XIV é tirânico ao impor uma estética de ritmo lento, ele o faz para suspender nossa percepção da passagem temporal à medida que o filme segue. Tendo em vista que não há uma grande dessemelhança entre as situações apresentadas, o que existe é um filme que, em parte, ordena suas cenas como pertencentes a uma imagem maior e quase congelada (novamente ecos de Os Incompreendidos) que remete à decadência corporal. Uma pintura.

Porém se diante de uma pintura nos é dada a escolha de permanecermos na sua frente por quanto tempo acharmos interessante ou válido, no cinema existe uma duração determinada para apresentar o seu corpo cinematográfico. O que Albert Serra põe em jogo são os limites do meio cinematográfico, sua impureza e hibridismo com outras artes. Ele expõe um filme que ignora sínteses entre suas cenas e está mais interessado em nos jogar num limbo constante de imagens, associações e crises da imagem em movimento.

Portanto não há muito a ser narrado por parte do filme, não existe muita coisa a ser apresentada além de um velho doente e prestes a morrer. Porém existe muito ao que se olhar. La Mort de Louis XIV permite um deslocamento constante entre temporalidades, filmes, interpretações e pulsações por parte do espectador no intuito não de viver inteiramente em sua materialidade, mas de existir sem medo no rosto de seu ator principal (e todas as suas possíveis pontes), ou de se colocar no limiar entre o cinema e a pintura. Portanto, um exercício do olhar, nunca exato ou definitivo.