Animal Político

664_2048x1152por Mário Rolim

Centrado na crise existencial e posterior jornada filosófica rumo à “iluminação” de uma jovem vaca burguesa, Animal Político (2016, dir.: Tião) se mostra como uma crítica vinda da ala intelectual/artística da esquerda contra “tudo isso que está aí”, pra aproveitar uma expressão da época. No caso, “tudo isso” englobaria, entre outras coisas, o enriquecimento ilícito da elite econômica (herdeira da elite açucareira); o estilo de vida burguês com suas idas a boates, festas de família, academias e shoppings; a televisão “popular”, e mais especificamente as novelas; a ABNT e a academia; e a manipulação e condicionamento ideológico das massas realizado pelo sistema capitalista, que supostamente transforma as pessoas em gado (não se esqueçam da vaca), a não ser que eu tenha entendido mal, afinal há uma infinidade de outras leituras possíveis.

Antes de mais nada, é bom esclarecer que não é que eu tenha algo contra fazer uma crítica a esses problemas ou questões, ou ache que exista algo intrinsecamente ruim ou errado em fazer isso. O que me incomoda é a forma como isso é feito no longa. Para começar, o filme é construído através de sketches ou pequenas cenas conduzidas ou interligadas por comentários em off por parte da vaca (com voz de jovem burguês), com cada cada uma dessas cenas dotadas de pelo menos uma alfinetada ou punchline, e sustentada por uma narração monótona, emocionalmente distante e irônica. Reconheço que algumas dessas tiradas são hilárias, sim, mas a sucessão de dúzias e dúzias de pequenas cenas com alfinetadas próprias, sem falar na irregularidade no “nível” (por assim dizer) entre essas tiradas, fez com que eu me cansasse depois de um tempo, o que fez com que as cenas fossem perdendo potencial cômico pra mim, ou pelo menos perdessem parte dele.

Isso se dá também (e talvez até principalmente) pelo fato do filme continuamente induzir o espectador a um distanciamento, seja através da já mencionada narração, do ritmo da narrativa ou de outros elementos estéticos, como a proposta de dar pouquíssima atenção a um plot ou ao desenvolvimento de personagens e elementos dramáticos. Não que eu esteja criticando o filme pela falta de desenvolvimento de um enredo dramático, afinal esta é uma (ou a sua) proposta, que pode ser bem trabalhada ou não. No entanto, me parece claro que o que importa mesmo aqui é a egolombra existencial da vaca, ou a crítica irônica dos valores e problemas da sociedade capitalista contemporânea.

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E é aí que se torna mais aparente a superficialidade do discurso filosófico (onde alguns conceitos básicos são jogados aqui e ali, mais por efeito do que através de uma tentativa de reflexão propriamente dita), ou da própria crítica a “tudo isso que está aí”. Claro, há alguns elementos interessantes aqui e ali, mas no geral ela parece rasa, e às vezes dotada de um ímpeto transgressor quase adolescente de querer brincar com as “grandes instituições do capitalismo” só para ridicularizá-las superficialmente, sem realizar um esforço para desconstruí-las ou criticá-las de forma mais elaborada. Fazendo uma somatória (de forma meio grosseira, eu admito), não creio que essas críticas sejam suficientes para sustentar um longa, me parecendo mais apropriadas para um curta (com um pouco mais de direcionamento e concentração, no sentido de abarcar menos temas).

Voltando à questão do distanciamento, outra coisa que me incomoda no filme é seu afastamento enorme da vida cotidiana e da “realidade” que ele mesmo pretende criticar, algo típico da arte “de vanguarda”(ou de um eixo mais elitista dela) e que corrobora com a ideia de que uma obra deve ser mais valorizada quanto mais distante da existência “mundana” e (próxima) da baixeza das satisfações materiais, e mais perto estiver do desinteresse (pelo “comum”) e da “liberdade” (do artista), ao melhor estilo “arte pela arte”. Uma das formas como isso transparece é no fato do filme se colocar, ao menos supostamente (claro, posso estar muito errado ao interpretar dessa forma), como um defensor das classes populares contra as opressões do sistema capitalista, mas demonstrar um grande desprezo por alguns elementos da cultura popular, principalmente a televisão e mais especificamente a novela como a conhecemos no Brasil, que é colocada como o diabo (vejam só) sem nenhum tipo de crítica fundamentada.

Desta forma, Animal Político, que tanto se apresenta como uma crítica ao estilo de vida burguês e à opressão realizada pela nobreza delimitada primariamente por razões econômicas acaba tendo um efeito duplo, criticando a submissão ao capitalismo e aos interesses materiais/econômicos tanto da burguesia quanto das classes populares. Assim, o filme se posiciona bem dentro de uma certa nobreza cultural, um tipo de nobreza que não se destaca primariamente pelo seu poder econômico (e inclusive rejeita esse capital econômico e os valores atrelados a ele), e sim pelo seu acúmulo de capital cultural, acesso às artes (principalmente as com mais legitimidade) e aos bens culturais, e seu gosto “refinado”. Uma nobreza que não deixa de exercer formas de dominação e violência simbólica, ainda que sejam formas mais sutis que as exercidas pela nobreza representada pelos muito ricos ou das famílias mais “tradicionais”. E, ao fazer isso, o filme acaba dando margem para que aspirantes a essa nobreza cultural (inclusive da burguesia que ele tanto critica) usem o longa para se distinguir culturalmente, se distanciando do gosto popular e seus produtos “fáceis” e “manipulados” ao mesmo tempo em que se distanciam do gosto burguês e sua submissão aos interesses materiais.

Mais uma vez, não é que eu tenha nada intrínseco contra o tipo de crítica (satírica) que o filme se propõe a fazer, mesmo que sob a aparência de uma egolombra bovina. É mais porque acho que a crítica a todas essas questões é importante demais para ser feita de maneira tão leviana e até preguiçosa, e com tanto desinteresse com os grupos sociais que supostamente deveria ou se presta ao papel de defender.