O Janela, a cidade e aqueles que a ocupam

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por Cesar Castanha

Não há muitos festivais como o Janela Internacional de Cinema do Recife, este ano em sua nona edição. Se eu repetir aqui a constatação óbvia de que o Janela é um festival sobre cinema, corro o risco de simplificá-lo. Mas se abrangermos o termo o bastante, talvez consigamos chegar exatamente ao que o festival é: um olhar coletivo para o cinema em sua materialidade, na sala de cinema, nas ruas e quarteirões que cercam a sala, na cidade.

Porque necessariamente problematiza a cidade, o Janela me parece um festival urgente às vésperas das eleições de segundo turno para prefeito do Recife. No ano passado, com o tema cinema de rua, um tour pelos locais onde ficavam as antigas salas da cidade reclamava esse lugar perdido do cinema, uma nostalgia que o Janela provoca anualmente. É um discurso evidentemente necessário, mas não acho que é através dele que o Janela toca mais fundo na ferida de uma cidade (des)ocupada.

Na abertura desta edição, foi exibido o curta-metragem Roteiro Sentimental de um Primeiro Cineasta, um conjunto de oito minutos de filmagens do Carnaval do Recife em 1923 realizadas por Walfredo Rodriguez e recuperadas por Lúcio Vilar. O filme causou alguma curiosidade e risadas anacrônicas no público pelo deslumbre do próprio cineasta diante de alguns costumes de sua época que hoje parece trivial ou exagerado. Mas o filme não me desceu muito como um objeto da antropologia.

É realmente curioso, claro, observar as peculiaridades daqueles que habitavam a cidade antes de nós, mas acho que não podemos perder a medida de quanto isso é assustador ao mesmo tempo. Roteiro Sentimental de um Primeiro Cineasta me pareceu um filme sobre o movimento silencioso de fantasmas ao nosso redor, de tão forte (e sinistro) que é seu efeito de fazer presente a História.

A tela do Cinema São Luiz parecia recorrer ao nome do festival para revelar o que está do lado de fora, nas proximidades do cinema e que nosso olhar anacrônico e de circunstância histórica não é capaz de ver. Saímos do cinema, assim, para contemplar um Recife assombrado: capturado há 93 anos pela tecnologia então primitiva de cinema do mesmo modo que hoje obsessivos pelo paranormal acreditam conseguir localizar, com a própria câmera, espíritos ocultos. E, além disso, exibido no “templo” do cinema, como o São Luiz já é tido pelo senso-comum, o filme adquire também esse aspecto de imagens evocadas pelo oráculo, em seu dever de revelar, ao mesmo tempo, passado, presente e futuro — e projeções de luz sobre uma tela não é justamente o que restará de nossa existência no futuro?

Foi essa presença atemporal dos corpos da cidade que me atraiu também para Aquarius (2016, dir.: Kléber Mendonça Filho) e, como já disse aqui sobre este, os dois filmes colocam o respeito à presença como o cerne do enfrentamento político pela cidade. É como se o motivo pelo qual se ocupa (o Cais José Estelita, a universidade, as escolas) fosse justamente reconhecer que elas já estão ocupadas, o que é geralmente esquecido por uma racionalidade política que vê nas escolas resultados e indicadores, e não a presença corpórea de seus alunos e funcionários.

Outro filme que dá continuidade a essa questão é O Delírio é a Redenção dos Aflitos (dir. Fellipe Fernandes), também da noite de abertura. O curta-metragem mostra uma mulher que enfrenta o incômodo com a cidade em sua materialidade. Este me parece um contraponto essencial ao fraco longa-metragem Animal Político (dir. Tião), que antecedeu sua exibição. Em Animal Político o distanciamento se dá por um tipo de existencialismo de classe média provocado pela busca de um sentido ou pelo menos um entendimento satisfatório do mundo. Em O Delírio É a Redenção, o distanciamento se dá pela hostilidade das coisas mesmas, dos objetos que cercam a personagem e parecem incapazes de se relacionar com seu corpo. Isso é muito cuidadosamente construído pela forma como o ela e o edifício que está prestes a deixar parecem se repelir mutuamente. O reconhecimento desse tipo de incômodo, material e corpóreo mais que espiritual, sentimental ou racional, pareceu-me particularmente original, o que me faz concebê-lo talvez como o melhor filme pernambucano recente a tratar desse distanciamento (um tema constante para a atual geração de cineastas locais).

E é isso que esses fantasmas da cidade, essas projeções de luz trazem de tão importante, de tão central à discussão política: o reconhecimento último, assombroso e incômodo da presença da História e da materialidade daqueles que habitam a cidade.