O Prazer do Visual

mate-me por favor
por Alan Campos

Em críticas e conversas cinéfilas, observo que é comum o uso de palavras como “clichê” ou “artificial”, que são atarefadas para designar (negativamente) filmes que recorrem a estilos e formas cinematográficas consagradas devido a um suposto esvaziamento de ideias próprias. Seja de propósito ou não, acabo acreditando que esse discurso se abre para algumas conclusões: A) “clichê” ou “artificial” é uma consequência do filme e não uma ferramenta estética; B) O cinema precisa ousar a ser mais do que uma repetição de fórmulas batidas para se desprender de um caráter negativo; C) por último, nesses discursos ocorre a deslegitimação da forma enquanto expressão política.

É importante perceber que formas recorrentes não necessariamente resultam em experiências similares. Em se tratando de um cinema de gênero (ou seja, enraizado em esquemas que visam colocar o espectador em um lugar familiar e seguro) se apropriando de uma cultura baseada em lugares comuns estilísticos, em primeira instância, isso representaria uma escolha de realização e não um signo indicativo de mediocridade ou esvaziamento estético.
Se apegar ao plano, e num escopo maior, à montagem enquanto transmissores de sentidos narrativos é reduzir a potência de uma cena ou de uma imagem a decifrações que nem sempre são de caráter próprio daquelas imagens. Reconhecer que determinada obra é menos interessante por se utilizar de recorrências é enxergar tais recorrências como presas a um único sentido, que em teoria já teria sido decifrado ou experimentado em outros filmes. Nega-se a força do artifício enquanto expressão política, com desejos que vão além de uma suposta preguiça de propor novas abordagens fílmicas.

Mate-me Por Favor (2016, Dir.: Anita Rocha da Silveira) é um filme que gira em torno da rotina de Bia (Valentina Herszage), sua vida no colégio, seus relacionamentos com amigas e namorado, e o crescente fascínio com a morte das vítimas de um serial killer, plot carregado por muitas características de filmes coming of age e de terror.

mate-me por favor

Mate-me possui um tom vermelho vibrante de um sangue bem “cara de sangue de cinema”, diversos diálogos frívolos sobre descoberta sexual e uma angustia própria de adolescentes com os nervos à flor da pele, além de luzes de neon berrantes, música funk, unhas pintadas e tênis All Star. Elementos enroscados em situações relacionadas diretamente a arquétipos de filmes de colégio – meninas que andam ao redor da mais popular, personagem inibido sexualmente, etc –, que giram em torno de um ponto central: assassinatos misteriosos que assolam o bairro da Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.

Aqui, o artificial e o clichê se unem de maneira que o espectador apreenda o filme. É notável a maneira como Mate-me é preciso na leitura de uma poesia de Augusto dos Anjos ou na narração de um caso real de assassinato de uma celebridade nos anos 90, ou até mesmo numa coreografia de funk no colégio. Momentos indicativos de um imaginário pop que consegue ser tão vasto quanto é certeiro em se associar com as angústias e desejos tipicamente adolescentes provocados pelo amadurecimento no contexto escolar brasileiro.

Ao optar por ser um filme conduzido pela cultura que rodeia seus protagonistas, Mate-me parece desejar uma aproximação pautada em uma espécie de prazer por seus próprios arquétipos. Ele ama o papel desempenhado por cada um (o que não o impede de indicar certa distância ou parecer discordar de alguns tipos de personagens), entende perfeitamente suas limitações subsequentes e os posiciona em lugares muito bem definidos e que são facilmente reconhecidos pelo público. Obra calculista, sim, porém nunca para amarrar seu preciosismo a um único sentido narrativo.

mate-me por favor

Ao viver em sua superfície, em sua artificialidade, em seus arquétipos, o filme instaura as potências provocadas por cenas desconexas da linearidade narrativa – uma boca enche-se de sangue, cadáveres apodrecem ao sol, sexo acontece em terrenos inusitados – pelo simples fascínio que se obtém ao olhar para elas, resultando numa busca por uma cumplicidade com seus espectadores enquanto apreciadores da plasticidade do filme: o excesso de cor, a curiosidade mórbida, o desejo conflituoso, e assim por diante

E nesse movimento de aproximação com o espectador, Mate-me revela-se um caso raro de cinema onde sua principal política é relacionar seus temas através da percepção por parte do espectador de uma cultura pop, sendo um filme que fala de nossos objetos de afeto pop ao mesmo tempo em que deseja ser um deles. Enquanto agencia questões de violência urbana, sexo na juventude, fascínio pela morte e pelo repulsivo, o filme explora não suas origens, mas suas saídas que levam a uma potência visual. Portanto, não há um fechamento definitivo de uma imagem que “diz” determinada coisa, e sim aberturas para volumes, formas e temporalidades fora da principal, fazendo com que esse seja um filme menos interessado em conduzir o espectador a procurar sentidos narrativos e mais em fazê-lo ser absorvido pelas pulsações da superfície fílmica.

Tal superfície é constantemente trabalhada para direcionar o olhar do espectador para si, mas isso não denota um filme unidimensional que é visto por ângulos diferentes. O que está em jogo aqui é a vontade de inserir o espectador nas percepções de Bia, no seu choque com o macabro, com o vermelho, com as imagens que lhe atacam. Em nos fazer descobrir um contato com um filme que nos afeta justamente por seu caráter dualista de ser construído em torno de personagens e situações imediatamente identificáveis por serem inseridas no contexto de uma cultura pop, e de ser constantemente bombardeado por imagens que não “dizem” nada de imediato, que estão lá por sua força de choque e de arrebatamento, por redescobrirem a textura do sexo, da morte, do azul e do vermelho como atraentes ao olhar.

Mate-me Por Favor defende sua plasticidade cheia de clichês e artifícios cinematográficos como uma forma de apresentar que é não é possível discernir sua estética de suas temáticas. Porém não seria o ato espectatorial de identificar-se com o drama apresentado como parte de suas experiências reais um indício que nos leve a crer que todos nós também não podemos nos separar de nossos afetos visuais, ou de nossos clichês?