A presença de um edifício

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Na primeira sequência de Aquarius (dir.: Kleber Mendonça Filho, 2016), ambientada em 1980, “tia Lúcia” (Thaia Perez) completa 70 anos. Ela está cercada por familiares e amigos que conversam, dançam e circulam em seu apartamento, no edifício que dá nome ao filme, localizado no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife. Há algum cansaço — ou desencanto — no olhar da aniversariante. Distanciada, quase não percebida na celebração até o momento de cantar parabéns, a sua presença no lugar é alcançada antes de tudo pela sua memória, pela sua capacidade de ver o que ninguém mais vê. Essa visão não é apenas o conhecimento do seu passado — a sua mais íntima história de vida — que, é óbvio, apenas ela tem, mas uma perspectiva melancólica marcada pela idade e pela perda.

Clara (Barbara Colen e Sônia Braga), sua sobrinha com o “cabelo de Elis Regina” — uma das cicatrizes do câncer a que sobreviveu —, compartilha com a tia a distância e a força do olhar. Sua presença na festa — naquele lugar e momento da festa —, no entanto, é mais firme. Isso pode parecer uma constatação óbvia, mas é necessário enfatizar que Clara, em sua totalidade (corpo, mente, alma, como cada um preferir definir), ocupa cada lugar por onde passa: o apartamento, o edifício e a praia.

Mais de 30 anos se passaram na narrativa desde o aniversário de tia Lúcia, e há algo de grandioso e até mesmo raro na transição temporal conduzida por Kleber Mendonça Filho: Clara continua ali. É a mesma personagem desde 1980. O cinema dificilmente consegue esse feito: é comum que nossa conexão com o personagem se perca de um ator para outro, ou que sintamos falta de algo. Não é o caso com Colen e Braga. As duas atrizes trazem a Clara a mesma postura imponente de resistência, mas não o mesmo olhar. E é justo. Há muito mais que a Clara de Sônia Braga viu — e há muito mais que ela perdeu.

O outro personagem que permanece é o edifício. Agora, ele é muito como tia Lúcia em 1980: um corpo que, mesmo tendo antecedido a maior parte daqueles ao seu redor, é um estranho no bairro. A sua permanência ali é a persistência da sua memória — a de Clara, a de tia Lúcia, a de todos que ali moraram, a do bairro e a da cidade —, e a sua lucidez é incômoda: lembra-nos de que tudo envelhece tão logo quanto agora e que a arrogância do novo, assim como a autoimportância dos jovens, não passa de um delírio estúpido.

aquariusNo seu texto sobre o filme, o crítico Felipe André Silva destaca a maneira como as mulheres se olham em Aquarius. De fato, quando o olhar das personagens se cruzam, é como se toda a história delas — as suas cicatrizes, suas perdas, seus afetos, seus segredos, etc. — fosse transmitida de uma para outra. Há um momento em que isso ocorre com mais evidência. Quando Clara e Julia (Julia Bernat) se olham, saudade, amor e medo são expressos para a compreensão exclusiva uma da outra. É a consciência da continuidade e fragilidade da vida, um momento de lucidez trágica que um gesto puro de cinema, uma música de Gilberto Gil, a presença de uma escrivaninha na sala ou de um edifício na esquina às vezes nos trazem.

Sendo um filme sobre Clara — um “estudo de personagem”, como boa parte da crítica o definiu —, Aquarius é necessariamente também um filme sobre o olhar, a memória e a presença. O filme é nostálgico, mas não no sentido de que pretende a restauração de um lugar ou de um tempo passados. Não é por algum fetiche consumista pelo passado que Clara resiste sozinha no edifício. Em outras palavras, ela não fica no Aquarius porque ele é vintage; ela fica porque ele é velho.

O respeito à presença (de pessoas, edifícios, das marcas deixadas pela história individual e coletiva) é o coração da crítica contra a verticalização urbana cega e a arquitetura desumana, que, em nome do que é dado como “novo”, passam por cima da memória, impõem o esquecimento e ignoram a presença. “Esse prédio não é fantasma”, diz Clara para a filha (Maeve Jinkings). Realmente não é, ele está lá, presente mesmo que indesejado. Aí é que está a questão da nostalgia no filme: a memória — e isso Clara, Laudijane (Zoraide Coleto) e tia Lúcia entendem bem — não é uma seleção de recordações confortáveis.

As duas décadas de Didatura Militar, os armazéns de açúcar, o câncer a que sobrevivemos, a morte de um filho, a nossa solidão, a desigualdade social e assim por diante estão presentes por mais incômodos e indesejados que sejam. Ao se debruçar sobre a memória individual de seus personagens, Aquarius exige o respeito pela história coletiva. De pé, o edifício revela o que seria mais confortável esconder. Dentro dele, Clara resiste contra o esquecimento, por ela e por todos nós.

Crédito das imagens: Victor Jucá