Mãe Só Há Uma

mãe só há umapor Juliana Soares

Não ter um time de futebol preferido ou não saber jogar boliche nunca foi um problema para Pierre. Seus interesses eram outros e suas questões giravam principalmente em torno de conhecer e explorar a própria sexualidade. A vida pacata com a mãe e a irmã mais nova lhe permitia desvendar os seus desejos e necessidades sem as frequentes neuras da pressão familiar. Tudo muda quando Pierre descobre que foi roubado da maternidade pela mulher que ele acreditou por 17 anos ser sua mãe. O mesmo com sua irmã. Ele descobre também que não se chama Pierre, mas Felipe e, depois da prisão da sua “falsa” mãe, se vê totalmente inserido numa nova família.

Depois do sucesso estrondoso de Que Horas Ela Volta? (2015) o alcance do público de Mãe Só Há Uma talvez não seja o mesmo. Os dois filmes têm em comum o fato de falar sobre a maternidade, mas em contextos muito diferentes. Dessa vez não há o apelo comercial de Regina Casé no elenco, nem a abordagem do embate entre a classe média estabelecida e uma classe emergente na figura patroa x empregada, que mobilizou discussões em todos os estratos da sociedade. O tema do seu novo longa também pode não ser dos mais palatáveis para a parcela mais conservadora, mas com certeza o filme não fica atrás no que diz respeito à riqueza dos debates que ele pode proporcionar.

Não ter time de futebol, não saber jogar boliche, pintar as unhas, tocar numa banda, não saber o que vai fazer pro vestibular. Todas as idiossincrasias do tão esperado Pierre, ou Felipe, incomodam seus novos pais. A família perfeita é desestabilizada com a chegada de um filho fora do padrão, mas é preciso fazer de tudo para não perdê-lo de novo. Depois da mudança para a nova casa, Glória e Matheus decidem renovar o guarda-roupa do recém-descoberto filho levando-o para fazer compras. Na ocasião, ele escolhe e prova um vestido, provocando a ira do seu pai e desconcerto total da sua mãe: confronto direto à família conservadora. Aplausos da plateia.

mãe só há umaA atitude de Pierre ao vestir-se com roupas femininas corre o risco de ser resumida a uma mera provocação aos novos pais. O que me preocupa não é o seu ato, mas as interpretações que ele pode vir a promover. Não se trata de rebeldia adolescente diante dos padrões que a vida dentro da classe média lhe impõe, vai muito além disso. Não se pode reduzir o peso político da afirmação de uma identificação que não se prende ao binarismo feminino/masculino contido na performance da personagem. Vestir-se “de mulher” é reafirmar sua identidade não-binária, dar vazão a um desejo que vai além do que lhe é socialmente permitido no lugar de homem biológico. É respeitável que Anna Muylaert se disponha a investigar o não-binarismo em seu novo longa. Mas é preciso enxergar a personagem de Pierre em toda a sua complexidade. Aliás, é preciso enxergar o tema em toda a sua complexidade, ampliando o debate para além de Pierre e do seu conflito familiar.

Apesar do peso de abordar essas questões, é interessante observar a fluidez em que o filme é conduzido entre os temas do não-binarismo e da construção – e (re)construção – de relações familiares sem deixar-se cair nos clichês do melodrama. Vide a cena do jantar de Pierre com sua nova família: o momento em que veríamos o primeiro contato dele com os pais é cortado para cena de Joca ao telefone com uma amiga. Ou ainda a cena em que Matheus chora no restaurante mas não vemos seu rosto, apenas a reação constrangida das pessoas com quem ele divide a mesa.

Mãe Só Há Uma também é um filme sobre o tempo e como ele age sobre as relações afetivas existentes ali. Pais e filhos vivem tempos diferentes. O tempo urgente dos pais, ansiosos pelo reencontro e reenlace, contrasta com o tempo dos filhos, repentinamente arrastados para uma nova vida, difícil de se adaptar. Equilibrar os tempos e atar os laços é tarefa lenta e árdua. Aceitar-se e aceitar o outro, também. Mãe Só Há Uma é um filme sobre tarefas lentas e árduas.