Radiohead – A Moon Shaped Pool

a moon shaped poolpor Alan Campos

A Moon Shaped Pool, novo disco da banda inglesa Radiohead, chega cinco anos depois de King of Limbs (2011). É a primeira vez que acompanho o lançamento de um álbum da banda, portanto é difícil esconder as expectativas e tampouco meu lugar de fã. O trabalho anterior consistia numa afirmação enxuta: oito faixas, álbum com a menor duração de seu catálogo, nenhum single (apesar do clipe de “Lotus Flower”). A Moon Shaped Pool é bem mais descontraído nesse sentido: onze faixas, dois singles (até esse momento), 52 minutos. Um álbum que abandona a percussão pesada do último trabalho em prol de uma estética mais etérea.

Se Kid A (2000) era uma paisagem sonora claustrofóbica e noturna de um eu lírico se isolando cada vez mais em medos e paranoias, A Moon Shaped Pool remete a uma paisagem em movimento, a lugares que são associados a devaneios ou ao contato com o Outro em situações cotidianas. A inquietude inicial da primeira faixa “Burn The Witch” é cortada por violinos secos que conduzem a um final apocalíptico tipicamente político da banda em suas metáforas contra o autoritarismo dos Donald Trumps ao redor do globo. Porém o resto do álbum (com exceção da nervosa “Full Stop”) é transpassado por ambientes mais solitários, autorreflexivos e calmos. Letras sobre amor, libertação e relacionamentos colocam esse disco em um nível de vulnerabilidade até então inexistente em outros álbuns.

Em sua segunda faixa, “Daydreaming”, a atmosfera do álbum passa do caótico para a música ambiente, do coletivo para o íntimo (o eu lírico muda sua voz da terceira pessoa para a primeira pessoa no meio da canção). Essa maneira de reverter o tom do álbum pode parecer sem propósito, mas a meu ver atrela as questões que a obra se propõe a levantar de maneira brilhante. Ao variar de músicas que explicitamente apontam caminhos para o coletivo (“Glass Eyes”, “Burn The Witch”, “The Numbers”) para momentos íntimos (“Desert Island Disk”, “identikit”, “True Love Waits”), A Moon Shaped Pool flui organicamente como um disco político, um retrato do eu em contato com diversas transições públicas que moldam os sentimentos do indivíduo.

Possivelmente muitas das canções foram inspiradas pelo fim do casamento de Thom Yorke, principal compositor das letras da banda. Em muitas ocasiões o narrador parece diante de uma reconfiguração de sua relação com o mundo: “different types of love are possible” canta ele na balada de violão “Desert Island Disk”, na qual sua voz acaba por se sobressair diante das melodias simples e da bateria minimalista. Tal reconfiguração é também sentida no ataque de pânico silencioso de “Glass Eyes”, um devaneio sobre rostos numa viagem de trem. Ao narrar “their faces are concrete grey/And I’m wondering, should I turn around?/I feel this often, go”, o eu lírico enfatiza sua estranheza com o espaço que percorre, bem como aponta para caminhos incertos. Há uma necessidade em seguir adiante, em se mover. O anseio de transitar para o desconhecido é notável em todo álbum, e apesar das camadas orquestrais e os teclados tentarem criar tanto canções agradáveis aos ouvidos como músicas que preencham o espaço físico do ouvinte, elas não se revelam inteiramente dispostas a efetivamente chegar a um clímax emocional como em “Nude” (do álbum In Rainbows, de 2007) ou “How To Disapper Completely” (do Kid A). Em vez disso, elas permanecem imersas em uma serenidade musical com pequenos momentos de inquietude através de algumas “intrusões” em suas estruturas musicais, como o coda amedrontador de “Daydreaming” ou riffs que surgem agressivamente em “Identikit”.

Retomo a ideia de movimento à qual me referi alguns parágrafos atrás. É perceptível que sua utilização esteja intrinsecamente conectada com a noção de um eu lírico que vai passeando por esferas diversas de sua vida e as vai abandonando abruptamente e melancolicamente. O clipe de “Daydreaming” ressalta literalmente essa ideia, com Thom Yorke caminhando por diversos ambientes até chegar a uma caverna. É notável o sentimento de não-pertencimento no clipe, a angústia da procura e o suposto conformismo encontrado nos sonhos como lugar de fuga e de paz interior. Residem aqui canções apropriadas para se ouvir em ônibus ou andando por shoppings. A tomada dos sentimentos íntimos para esferas públicas é essencial ao A Moon Shaped Pool, porque este é um álbum em constante busca por uma identidade perdida, pelo fator que lhe devolva algo. Um exemplo disso é quando Yorke canta “All the birds sing in the trees, all the fish swim too deep/And they pray, honey come to me before it’s too late” na música “Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief”, que em seu título parece unir diversas classes sociais como iguais diante da solidão do sofrimento amoroso.

Já “True Love Waits” é daquelas canções que adquiriram vida própria com o passar dos anos. Sua origem remete a 1995, e ela apareceu em versão acústica no EP ao vivo I Might Be Wrong, porém só foi lançada em versão de estúdio oficial agora, como faixa final do A Moon Shaped Pool. Diferentemente de todo o resto do álbum, ela é marcada por uma estrutura e voz quase estáticas, em cujos versos surgem como se estivessem pontuado a inércia de seu eu lírico diante do fim: “I’m not living, I’m just killing time/ […] And true love waits in haunted attics, and true love lives on lollipops and crisps”. Seu significado se desprende de uma música pop que fez relativo sucesso entre fãs e críticos há mais de uma década para um ponto final, o fim do oceano de possibilidades que representa o restante do álbum. E acaba sendo a canção mais pop do disco, devido a seus pianos minimalistas, sua melodia bonita e sua letra de fácil apelo. Uma música cujo êxito depende quase que exclusivamente da empatia de seu ouvinte com a letra e com o restante do álbum. É dolorosamente cantada como se estivesse dirigida a um alguém (se ressignificando como um lamento do autor sobre o fim do seu casamento?), se mostrando como o momento mais direto dessa narrativa. Seu caminho emocionalmente frágil parece residir à verdade máxima do álbum: ao fim de um universo, de uma vida, de um estado de espírito, o que vem depois? Urgente.

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