Dez Filmes de Festa

por Filipe Marcena

Festa como raison d’être: os filmes dessa seleção começam com um encontro de pessoas, com alguns entorpecentes e lubrificantes sociais e provavelmente alguma música envolvida no processo. São filmes que se utilizam dos elementos de uma celebração em grupo não apenas como cenário ou plano de fundo, mas como instrumento discursivo, poético e político. Não são os melhores filmes de festa, nem as melhores festas fictícias já filmadas, mas sim um conjunto de obras mais ou menos conhecidas que propõem visões particulares desse ritual social que tantos cineastas já filmaram com tanto gosto (isso significa que várias festas clássicas ficaram de fora, como A Noite, Um Convidado Bem Trapalhão, O Anjo Exterminador, Os Vivos e Os Mortos). São também filmes onde a festa é o mote principal da narrativa ou o espaço onde a maior parte do filme se passa. Se não houvesse festa, não haveria esses filmes. Pega o drink, guarda o convite, finge que conhece todo mundo e entra comigo.

el futuro
El Futuro
dir.: Luís Lopez Carrasco, Espanha, 2013
Esse filme espanhol só ganhou lançamento comercial em sua terra natal, mas está atualmente em cartaz no canal de filmes on demand MUBI. Se você não tem conta lá, recomendo você fazer imediatamente só para conferir essa pérola. Em 1982, a esquerda comunista ganhou as eleições na Espanha, um ano após uma tentativa de golpe de estado. El Futuro se passa dentro de um apartamento naquele ano, onde um grupo de jovens bebe, dança e se diverte numa festa madrugada adentro. Luís Lopez Carrasco filma essa festa com nostalgia escancarada, do formato quadrado à textura do filme 16mm, sem jamais contar uma história de fato. O que temos são momentos da tal festa, onde nem sempre se ouve o que é dito e nem sempre se vê tudo. É como um registro amador filmado com incrível talento para enquadramento e iluminação. A nostalgia se torna melancolia quando esse passado festivo é engolido pelo hoje. Carrasco faz um lindo trabalho artesanal com o filme para propor uma reflexão sobre uma efemeridade política. Em tempo: a trilha sonora é a melhor de todos os filmes dessa lista.

spring breakers
Spring Breakers – Garotas Perigosas
dir.: Harmony Korine, Estados Unidos, 2012
Spring break: pausa de uma semana que escolas e universidades dão aos alunos durante a primavera. Nos Estados Unidos, spring break é sinônimo de praia, drogas e muito sexo. A festa de Spring Breakers não é um lugar específico (embora a Flórida seja a Meca desse feriadão), mas um estado de espírito. O hedonismo das protagonistas Faith (Selena Gomez), Candy (Vanessa Hudgens), Brit (Ashley Benson) e Cotty (Rachel Korine) é a espinha dorsal do filme, que pontua a busca desenfreada por prazer físico e material constantemente, através de uma narração em off que vai e volta como ondas e da montagem também cheia de retornos e previsões, dando um aspecto quase onírico ao filme e nos colocando na cabeça das garotas, que é onde a festa realmente acontece. O hedonismo chega ao ápice com a chegada de Alien (James Franco), rapper que “adota” as garotas e as leva para a criminalidade. A festa não acaba aí. Harmony Korine filma esse ambiente com tesão, cores hiper-saturadas e muito neon, mas há algo de horror nas imagens lombradas que pode ser lido como uma crítica. De qualquer forma, não há moderação aqui.

a festa e os convidados
A Festa e Os Convidados
dir.: Jan Němec, Tchecoslováquia, 1966
Filme importantíssimo do cinema político tcheco dos anos 60, A Festa e Os Convidados é conhecido por ser uma alegoria de regimes totalitários que foi proibida por anos em seu país de origem. Mas não há nenhum tipo de ataque claro e objetivo ao regime comunista, já que a intenção de Nemec é acima de tudo satirizar. Um grupo de pessoas é interrompido no meio de um piquenique na floresta por um homem e seus capangas. Nenhuma ameaça direta é feita, mas o homem leva as pessoas para um interrogatório e logo depois para uma grande festa onde o anfitrião tem a palavra final sobre tudo. Quem desrespeitar as leis, sofre consequências. Se a arbitrariedade das ações daqueles que impõem poder já é algo bizarro e assustador, pior é a reação dos convidados: complacência e submissão. A autoridade jamais é questionada, o importante é estar ali para beber e comer. É um filme aterrador, especialmente quando se pensa nos ataques à democracia que ocorrem no Brasil hoje. Essa festa é uma na qual ninguém gostaria de estar, mas que, de uma forma ou de outra, torna-se obrigatória.

metropolitan
Metropolitan
dir.: Whit Stillman, Estados Unidos, 1990
Festa em questão: baile de debutante, uma cultura de classes abastadas da Europa e América do Norte onde uma jovem garota é apresentada para a “alta sociedade” num baile, como uma forma de mostrar sua disponibilidade para casar e, assim, manter os laços familiares e sociais dentro dos círculos da alta classe. É um negócio que renderia um filme bem ácido, mas Whit Stillman, que conviveu com as pessoas deste círculo em Nova York, faz uma abordagem elegante e intelectual da vida de jovens numa temporada de debutantes. O foco de Stillman não está nos bailes em si, mas nos apartamentos onde tais jovens se encontram para beber, discutir filosofia e literatura, investir nos interesses românticos e jogar strip poker, embora com os mesmos vestidos cafonas e pose de aristocrata dos bailes. Essas festinhas ganham contornos interessantes quando Tom Townsend (Edward Clements), um rapaz de classe média, entra no grupo e causa comoção com sua visão de mundo. O roteiro extremamente literário não perdoa os personagens (assim como não perdoou os yuppies do também ótimo e festeiro Os Últimos Embalos da Disco, de 1998), mas ao tirar suas máscaras sociais e revelar suas falhas e fragilidades, ele humaniza essas criaturas metropolitanas tão distantes de nós. E não deixe o texto afiado ofuscar a direção precisa de Stillman.

dazed and confused
Jovens, Loucos e Rebeldes
dir.: Richard Linklater, Estados Unidos, 1993
Antes de iniciar a trilogia de Jesse e Celine, Linklater realizou aquele que é provavelmente seu filme mais querido pelos fãs. Jovens, Loucos e Rebeldes acompanha um dia na vida de jovens estudantes de uma high school no Texas em maio de 1976. Mas não é um dia qualquer, trata-se do último dia de aula antes das férias de verão. O que o extenso elenco do filme quer é beber, fumar um beque e transar. Linklater, inspirado por sua adolescência e os personagens que o cercavam, constrói um mosaico representativo do que seria a juventude americana (ou mais especificamente texana) de meados da década de setenta, atento a cada detalhe como se estivesse com medo que algo se perca. O filme não cai numa masturbação nostálgica porque Linklater sabe criar empatia, e também porque é 2016 e sair da aula pra encher a cara ainda faz muito sentido para os jovens. Festinha na casa da colega, cerveja e discussão no bar, maconha e pegação no meio do mato, sonhos pro futuro ao ver o sol nascer: quem nunca? Qualquer dia desses chega por aqui Everybody Wants Some!!!, sequência espiritual de Jovens, Loucos e Rebeldes que se passa nos anos 80.

o casamento de rachel
O Casamento de Rachel
dir.: Jonathan Demme, Estados Unidos, 2008
A única festa de casamento da lista está aqui por um bom motivo: é provavelmente a festa de casamento mais divertida já filmada. Kym (Anne Hathaway) é liberada da clínica de reabilitação para ir ao casório de sua irmã Rachel (Rosemarie DeWitt). O que se segue é uma lavação de roupa suja filmada à la Dogma 95 e com um elenco magistral. O casório, que dura um fim de semana, termina numa festança absurda que abraça as várias culturas que se tornaram parte da família Buchman. Todo tipo de música e dança entra na roda – até uma mini-escola de samba! -, e Jonathan Demme captura tudo com vigor e genuína alegria. Não há conflito familiar ou tragédia que resista a uma comunhão como essa.

festa de família
Festa de Família
dir.: Thomas Vinterberg, Dinamarca, 1998
Seguindo a linha “roupa suja se lava em festa” de O Casamento de Rachel, Festa de Família é na verdade antecessor e diria até inspirador do filme de Demme – afinal esse é um dos originais do Dogma 95. Uma abastada família dinamarquesa se reúne para o aniversário de 60 anos do patriarca Helge (Henning Mortizen). O único membro da família que não está presente é a filha Linda, que cometeu suicídio recentemente. A repercussão dessa morte leva o filho Christian (Ulrich Thomsen) a engatilhar uma série de acusações que, no auge da festa, abrem feridas e revelam a crise pela qual a família passa. O estilo seco e cru do Dogma nos coloca dentro da experiência, como se assistíssemos a um filme caseiro rodado por um parente virtuoso, assim como em El Futuro. A experiência é fascinante e ao mesmo tempo angustiante, já que a festa se torna tão imediatamente bizarra e feia que é preciso ter certo espírito de schadenfreude (expressão do alemão que se refere ao sentimento de alegria ou satisfação perante o sofrimento de outra pessoa) para encarar tudo, até pela grande empatia que os personagens provocam. O final é inacreditável.

chega de saudade
Chega de Saudade
dir.: Laís Bodanzky, Brasil, 2008
Este talvez seja o melhor filme da carreira de Laís Bodanzky até agora, e que infelizmente parece ter sido esquecido com o tempo. Chega de Saudade acompanha um vasto grupo de personagens que se encontram num baile de gafieira em São Paulo frequentado por pessoas da terceira idade. É um olhar raro sobre um grupo social pouco representado, ainda mais no contexto desse filme. Os muitos personagens, encarnados por atores carismáticos e icônicos (Tônia Carrero, Cássia Kiss, Stepan Nercessian, Betty Faria, Elza Soares), passam por situações mundanas que nem sempre quebram os estereótipos, mas a paixão de Bodanzky por eles, a mise-en-scène bem coreografada, a fotografia de Walter Carvalho e, claro, as canções clássicas da música popular brasileira e estrangeira criam uma unidade e fazem da experiência um deleite. Tanto a música quanto a dança são muito significativas para o estudo de personagens, criando uma relação clara com O Baile (1983) de Ettore Scola. É maravilhoso também ver esses atores sem nenhum truque de maquiagem: estão todos suados, com rugas e marcas à mostra. Mesmo que às vezes o roteiro de Luiz Bolognesi tropece em deixá-los tridimensionais, estamos sempre olhando para humanos que, sim, são velhos. E muito vivos.

the invitation
The Invitation
dir.: Karyn Kusama, Estados Unidos, 2016
Ainda não lançado no Brasil, The Invitation é uma volta à forma para Karyn Kusama, que despontou com Girlfight – Boa de Briga (2000) para depois deixar a desejar (e muito) com os fiascos Aeon Flux (2005) e Garota Infernal (2009). O convite do título é para uma festa de reencontro de velhos amigos que se separaram após uma tragédia envolvendo Will (Logan Marshall-Green) e Eden (Tammy Blanchard). Situado em Los Angeles, The Invitation aborda com alguma dignidade um tema pesado como a perda de um ente querido, mas o grande trunfo do filme está na construção do suspense: de reunião constrangedora, o filme caminha lentamente para algo que deixaria Charles Mason cheio de memórias. Considerando a ineptidão dos últimos filmes de Kusama, é uma boa surpresa ver como ela consegue manter a tensão e se esquivar de escolhas fáceis. Percebam a arrepiante sutileza do plano onde vemos Claire (Marieh Delfino) indo embora com a ajuda do sinistro Pruitt (John Carol Lynch, excelente). O filme pode não atingir a profundidade que aparenta almejar, mas é uma festinha maldita que vale uma visita num sábado à noite.

completo estranho
O Completo Estranho
dir.: Leonardo Mouramateus, Brasil, 2014
Amor de festa. Não, o cearense Leonardo Mouramateus não está interessado nas costumeiras ficadas de balada. O que ele apresenta no curta-metragem O Completo Estranho é uma experiência mais profunda: ser arrebatado por alguém que, mesmo que por uma noite, revele possibilidades de uma outra vida. Daiana (Lorena Dialla) recebe a ligação de uma amiga que está numa festa num momento de crise por causa de um ex. Daiana leva seu noivo para lá. Em certo momento, ela conhece um garoto que irá embora de Fortaleza em alguns dias. Quando falta energia, no escuro de um canto do apartamento, os dois conversam. Se uma festa já é uma potência de possibilidades e alternativas, onde o corpo pode tudo o que não pôde antes e não poderá depois, um romance de festa, logo frívolo e definido por sua finitude, se consuma fora desse encontro, ecoa para a vida dos personagens – vide Antes do Amanhecer, do Linklater. A sensação de que “I’ll fly with you” (como diz o pancadão de Gigi D’Agostino que embala o filme) com uma pessoa de quem nada se sabe não seria tão palpável e real não fosse esse descolamento do mundano que a situação proporciona.