O Prefeito

prefeito
por Felipe André Silva

Este texto faz parte da cobertura do 20º Cine PE – Festival do Audiovisual e foi originalmente publicado em nossa página no Facebook.

Excluindo os documentários e filmes ensaio nos quais Bruno Safadi já se envolveu, O Prefeito consegue se esgueirar facilmente para o posto de melhor trabalho ficcional da carreira do diretor carioca, que muito felizmente parece ter tomado um caminho divergente da atual produção brasileira. Não que Bruno e seu cinema neguem as urgências estéticas e políticas propostas por nomes como Kleber Mendonça Filho, por exemplo, mas em seus trabalhos mais recentes há um espaço muito claro para o alegórico, para um cinema que se perde, da melhor maneira possível, num emaranhado de intenções e permite uma absorção relativamente menos dura e direta que a de seus contemporâneos, o que eu percebo como uma dissonância bastante positiva. Para efeito de comparação, talvez ele esteja muito mais próximo de um Adirley Queirós que de um Gabriel Mascaro. Talvez não cheguemos ao terreno da ficção científica propriamente dita como em Branco Sai, Preto Fica, mas existe algo de claramente sobrenatural e fantasioso na trama do recém-empossado prefeito do Rio de Janeiro (Nizo Neto, em performance fantástica), figura de construção dúbia e intrigante que leva arrasta a discussão sobre o ‘ser político’ ao campo da performance quando, por exemplo, tem como palácio uma escrivaninha a céu aberto no meio de um canteiro de obras, e que num arroubo de duvidoso idealismo resolve reerguer a perdida glória da cidade, mesmo que para isso precise o estado num país independente.

o prefeito
A premissa parece gritar comédia, e de fato há um tom farsesco e irônico que costura todos os densos retalhos que Safadi propõe para construir essa figura tão complexa, mas de maneira geral este é um filme muito amargo sobre o desalento e desagrado da opinião popular com as figuras de autoridade política, além de uma mordaz, mesmo que relativamente didática, discussão sobre a destruição da paisagem urbana em favor de dito “progresso”. Se passa no Rio, mas qualquer recifense interessado nas questões relativas ao Cais José Estelita, por exemplo, identificaria semelhanças nas críticas aos deturpados ideais de beleza e urbanidade, e na corrupção que movimenta o mercado empreiteiro. Com este pé fincado no meio do caminho entre a rica pesquisa de Belair (2011), o psicodélico devaneio de O Uivo da Gaita (2013), e narratividade delicada de Meu Nome é Dindi (2013) – trabalhos geralmente feitos com orçamentos quase simbólicos de tão apertados, é importante realçar-, Safadi se coloca num patamar muito interessante de versatilidade, e me faz esperar cada vez mais por suas novas provocações.