Guerra do Paraguay

guerra do paraguaypor Rodrigo S. Pereira

Este texto faz parte da cobertura do 20º Cine PE – Festival do Audiovisual e foi originalmente publicado em nossa página no Facebook.

“Guerra do Paraguay” é um atestado de aversão à guerra, vindo do histórico veterano Luiz Rosemberg Filho. O diretor carrega dezenas de projetos em sua trajetória cinematográfica, e nesse em particular parece se manter fielmente apegado a traduzir em imagens suas conjecturas acerca do mundo: filosofia, política, violência e cultura, principalmente o teatro, são os fios costurados nos discursos de suas personagens. A dedicatória que encerra os créditos iniciais é um grande indicativo de todas estas questões, louvando os filmes “Dr. Fantástico” (1964), de Stanley Kubrick, e “Tempo de Guerra” ou “Os Carabineiros” (1963), de Jean-Luc Godard. O cineasta francês foi ainda citado por Rosemberg Filho ao apresentar seu filme na quarta-feira (4 de maio) no Cine PE 2016, após parabenizar os 20 anos do festival e elogiar a beleza do Cinema São Luiz.

De óbvia e despudorada erudição, o filme faz uso de denso vocabulário para discursar acidamente acerca de pobreza, poder, a condição humana e a natureza da violência, em embates verbais cíclicos dos protagonistas, um soldado (Alexandre Dacosta) e uma atriz (Patricia Niedermeier). Em meio a tantas palavras, questiona-se a distribuição de riquezas e terras, a felicidade, a miséria, a humildade, a alienação e o patriotismo, e sobra até uma crítica sobre o papel da televisão em nosso cotidiano. Mas para um filme que se posiciona inicialmente ao lado de seu núcleo feminino, as insinuações quanto ao ser mulher (o soldado volta e meia chama a atriz de “bruxa”, “desbocada” e “louca”) parecem tristemente insuficientes quando equiparadas às questões sociais repetidamente ensaiadas.

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Sinalizando que fez “o filme que deu, com muito pouco dinheiro”, o longa de Rosemberg Filho não se deixa abater e se resolve entre as dificuldades com seus poucos personagens e extensas sequências – hora sensoriais, hora intensamente dialogadas. Negando imagens de violência e guerra de início, se possibilita explorar a atmosfera teatral estabelecida, mas esta divide espaço com excessivas trovoadas e outros efeitos sonoros, que dominam a narrativa sem dó. Se a proposta sonora era indicar uma tensão de que o filme talvez careça, em seu excesso ela parece enfraquecer texto e encenação, como que não se confiasse totalmente nestes para transmitir o pretendido.

“Guerra do Paraguay” recorre a certa brutalidade em seu encerramento, em sua ficção e em seguida com imagens de arquivo, como que chegasse à melancólica conclusão de que palavras – as muitas e muitas palavras do longa – não são suficientes para conter o horror das guerras. A atriz em certo momento afirma-se mulher e diz que, por isso, está além das guerras, mas o filme não a torna à prova da violência masculina. Apesar de exaltar a aproximação do ser humano com a natureza e a beleza através da poesia e da música, “Guerra do Paraguay” subverte o sublime num horror grotesco, o que pode indicar uma falência das palavras e do diálogo ante o ímpeto violento do homem.