Dicas do Netflix – Março

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por Cesar Castanha

A Netflix tem se tornado a ferramenta mais fácil da atualidade para o acesso a filmes e séries, com seu catálogo sendo atualizado quase diariamente. Pensando nisso, o Lavoura entrega uma lista com sugestões entre os lançamentos e relançamentos do site durante o mês de março. Boa maratona!

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Mesmo Se Nada Der Certo
(Begin Again, dir.: John Carney, 2014)
Mesmo Se Nada Der Certo é um dos melhores musicais contemporâneos e uma doce reafirmação do gênero — incluindo as melhores músicas escritas diretamente para um musical no cinema em algum tempo. É muito bonito como o filme consegue se colocar também de frente para questões estéticas e narrativas propostas pelo mumblecore e as adequar a uma linguagem bastante hollywoodiana.

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Amor Profundo
(The Deep Blue Sea, dir.: Terence Davies, 2013)
Desencanto (Brief Encounter, dir.: David Lean, 1945), Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa, dir.: Wong Kar-Wai, 2000) e Amor Profundo formam a melhor trilogia para os momentos de fossa que eu poderia conceber. É, evidentemente, um filme sobre amor, casamento e depressão. Mas, diferentemente das outras duas obras-primas mencionadas, Amor Profundo reconhece como essas questões se desenvolvem socialmente em um fardo quase insuportável para a mulher. De certa maneira, é também um filme sobre a Inglaterra que foi deixada pela II Guerra Mundial, de mulheres que buscam superar a espera.

netflixCosmópolis
(Cosmopolis, dir.: David Cronenberg, 2012)
Cosmópolis é um dos mais intrigantes entre os filmes recentes de David Cronenberg, embora eu ainda prefira Mapa para as Estrelas (Maps to the Stars, 2014). Adaptado do romance de Don DeLillo, o filme é uma sustentação anticapitalista. Isso não é, por si só, incomum a Cronenberg, mas o diretor poucas vezes foi tão formalmente radical. Nesse sentido, Cosmópolis está mais próximo da jornada à la James Joyce que é característica também em Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991).

netflixO Rei da Comédia
(The King of Comedy, dir.: Martin Scorsese, 1982)
O Rei da Comédia é um dos filmes esquecidos de Martin Scorsese, e se apequena quando o localizamos entre as obras-primas Touro Indomável (Raging Bull, 1980) e Depois de Horas (After Hours, 1985). Ainda assim, é uma comédia eficaz, com alguns momentos de genuíno brilhantismo e uma atuação fantástica de Robert De Niro (eu diria que é o terceiro melhor trabalho do ator, atrás apenas dos incomparáveis Touro Indomável e Taxi Driver). A tentativa malsucedida de Sandra Bernhard de seduzir Jerry Lewis está entre os grandes momentos da carreira do diretor.

netflixValente
(Brave, dir.: Brenda Chapman & Mark Andrews, 2012)
Valente foi o filme que enfatizou o enfraquecimento criativo da qual a Pixar ainda não se recuperou (não compro Divertida Mente como algo além de um bom filme). Mas, ainda assim, considero o filme um pequeno marco da animação digital, o primeiro a apontar caminhos estéticos que fogem da imagem robotizada e chapada que hoje estão adquirindo uma aparência cada vez mais kistch. Nas suas cores e na forma como representa a paisagem da Escócia, o filme se aproxima da animação tradicional; e, na criação visual dos personagens, principalmente de Merida, em que a distância entre cada fio de cabelo importa, foi talvez o primeiro a justificar esteticamente a necessidade da animação digital.

netflixAmadeus
(Amadeus, dir.: Milos Forman, 1984)
Tenho um carinho especial por Amadeus, que adapta a história da rivalidade entre Mozart e Salieri. Foi um dos primeiros filmes cânones pelo qual me apaixonei. Lógico que, para mim, ele só era o que o cinema tinha de absolutamente mais especial porque eu só conhecia então um determinado tipo de cinema. Amadeus não está mais entre os meus dez preferidos, mas ainda é uma das mais belas cinebiografias da história. Ouso dizer o único filme americano do gênero que pôde se comparar a ele desde então foi A Rede Social (The Social Network, dir.: David Fincher, 2010).

netflixO Grande Lebowski
(The Big Lebowski, dir.: Ethan Coen & Joel Coen)
O Grande Lebowski colocou os irmãos Coen no centro da cultura pop cinematográfica. É, ainda hoje, um dos filmes mais adorados dos anos 1990 e o modelo definitivo do bom stoner movie (filme de maconheiro). É absurdo e hilário. The Dude (Jeff Bridges) é o personagem para encerrar um século, ou para começar um novo, um em que o cinismo defendido pelos Coen desde Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984) será via de regra em Hollywood. A partir de Um Homem Sério (A Serious Man, 2009) eles seguiriam por outro rumo.

netflixMatrix
(Matrix, dir.: Andy Wachowski & Lana Wachowski, 1999)
É até difícil acreditar no quanto Matrix foi um sucesso (principalmente no âmbito comercial) se considerarmos a infinidade de elementos díspares presentes no filme: a estética de animes japoneses como Akira (dir.: Katsuhiro Otomo, 1988) e O Fantasma do Futuro (Kôkaku Kidôtai, dir.: Mamoru Oshii, 1995), lutas inspiradas nos filmes de kung fu e ação de Hong Kong, hackers brigando pela libertação da humanidade em metrópoles futuristas como nas histórias cyberpunk, conceitos inspirados numa série de religiões (especialmente o Cristianismo e o Judaísmo) e referências a ideias de filósofos vindos da pós-modernidade e da Grécia Antiga. De alguma forma, essa grande mistureba funcionou (pelo menos em termos de influência na cultura pop), e por muitos anos era difícil ver um filme de ação hollywoodiano que não tivesse cenas com slow motion (ou o chamado ‘bullet time‘), câmeras girando em torno de personagens “congelados” e muito kung fu. Revisto uma década e meia depois, os elementos de ficção científica de Matrix parecem ao mesmo tempo proféticos (quanto a máquinas servindo como próteses/extensões do corpo humano) e inocentes (com a explosão da internet nos anos 2000, as máquinas parecem mais presentes do que nunca em nossas vidas, mas é mais difícil imaginá-las como responsáveis pelo controle e opressão dos rumos da humanidade), mas as cenas de ação continuam divertidas. E os professores de Filosofia de Ensino Médico ainda acham o filme a melhor maneira de se abordar a Alegoria da Caverna de Platão. (por Mário Rolim)

netflixDjango Livre
(Django Unchained, dir.: Quentin Tarantino, 2012)
Considero Django Livre um filme injustiçado de Tarantino injustiçado, e também um de seus mais honestos. O diretor faz aqui um faroeste spaghetti revisionista (o que já é por si só interessante, porque o spaghetti western já é um subgênero de revisão do faroeste por si só) sobre o período de escravidão e assume o seu lugar privilegiado de fala através de um personagem belíssimo, o Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Dr. Schultz é um alemão que transporta carrascos e que se depara, como um estrangeiro tanto por ser europeu quanto por ser branco, com a escravidão americana. Geralmente, Tarantino nos convida a lê-lo em seus filmes. Em Django Livre, somos convidados a lê-lo em Schultz. No fim das contas, o diretor entrega um filme sobre olhares: um de horror perante a escravidão, outro de afeto diante de um gênero do cinema.

netflixThe Office (série)
(dir.: Greg Daniels, Ricky Gervais, Stephen Merchant, 2001-2003)
O The Office original é um dos produtos mais geniais da TV britânica. Ricky Gervais aqui se lançou como um dos atores cômicos mais geniais de seu tempo, e com justiça: seu David Brent é um tanto mais absurdo e constrangedor que o charmoso Michael Scott de Steve Carell. A estrutura narrativa geral da série é a mesma da adaptação da NBC. Aqui, no entanto, a direção tende a estender o constrangimento sadicamente, segurando cada cena até o limite do insuportável. A primeira temporada é uma pequena obra-prima da televisão.