Um universo masculino em busca da maturidade

ta rindo do quepor Cesar Castanha

Ao estrear na direção com O Virgem de 40 Anos (The 40 Year Old Virgin, 2005), Judd Apatow revelava os primeiros traços do que viria a se tornar seu universo cinematográfico próprio, uma marca reconhecida dentro da comédia hollywoodiana que recorre sempre aos mesmos símbolos e temáticas. O cinema de Apatow reflete com uma repetição até didática algumas questões geracionais que afligem, possivelmente, também o próprio diretor e roteirista.

Seus filmes representam duas gerações distintas que de alguma forma respondem ao esvaziamento político e à explosão imagética da cultura americana que foram os anos 1980. Os personagens de Apatow foram ou crianças ou adolescentes na década (o próprio diretor nasceu em 1967) e não abrem mão da sua relação afetiva com seus símbolos, constantemente evocados pelos personagens verbal ou iconograficamente. A essa nostalgia, o diretor sempre relaciona uma dificuldade psicológica de deixar para trás essa infância ou adolescência. A jornada dos personagens, em todos os seus filmes, é em busca da maturidade.

Essa maturidade pode ser uma exigência social ritualística ainda não resolvida (como em O Virgem de 40 Anos), ou algo que os personagens encontram dificuldade para resolver (como em Bem-vindo aos 40). E também pode ser um processo, que precisa ser acelerado diante de algumas circunstâncias (Ligeiramente Grávidos) ou que está estagnado, dificultando ao personagem alcançar a própria felicidade (Tá Rindo do Quê?).

O caso de Tá Rindo do Quê? (Funny People, 2009) talvez seja o mais interessante da filmografia de Apatow, apesar dos inúmeros problemas estruturais do filme (Apatow, de forma geral, carece de bons montadores, à possível exceção de seu trabalho mais bem-sucedido, Ligeiramente Grávidos). No filme, a busca pela maturidade comum a sua obra encontra a reconhecida, e não menos autoral, imaturidade de Adam Sandler.

ta rindo do queSandler é cria do Saturday Night Live e deixou o programa em 1995 para ser uma espécie de palerma oficial da sua geração. Desde então ele transitou entre fracassos e alguns filmes bastante populares (como O PaizãoComo Se Fosse a Primeira VezClick e etc), e até conseguiu uma atuação realmente sublime em Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, dir. Paul Thomas Anderson, 2002), facilmente seu melhor filme. A questão é que todos esses, até mesmo o filme de Anderson, evocam ou reconhecem a presença autoral de Sandler. Sua imaturidade, ou a do personagem extremamente popular criado por ele nos anos 1990, já é hoje esperada por quem vai ver um de seus filmes.

Em Tá Rindo do Quê?, Sandler interpreta um comediante que produz basicamente o mesmo tipo de farsa grotesca campeã de bilheteria que o ator tem produzido nos últimos anos. O filme começa com vídeos de um Sandler mais jovem, passando trote. Algumas cenas depois, o ator contempla um conjunto de televisões que mostram seus vídeos caseiros, filmes e stand-ups antigos. Da maneira como Apatow constrói a cena, indo de cada tela para o conjunto delas, observado por Sandler, o filme, o ator e o personagem contemplam a própria mortalidade, assim como permitem a nós contemplarmos a nossa.

Essa talvez seja a cena mais bonita da carreira de Apatow, que costuma ter também alguma tendência a refletir sobre a comédia. As suas piadas sobre pênis, por exemplo, presente em todos os seus filmes, sempre foram excessivas ao ponto de possibilitar uma indagação sobre o propósito delas, se não serviriam como uma declaração para algo. E servem: para a própria busca pela maturidade e representação da imaturidade de seu cinema. A diferença entre a comédia de Sandler e a de Apatow é que uma expressa a imaturidade, a outra a acentua de maneira a torná-la tão evidente que é preciso refletir sobre ela.

O maior problema do cinema de Apatow, no entanto, é a indulgência que quase sempre resulta dessa reflexão. O diretor nunca está interessado em de fato problematizar a imaturidade dos personagens. Ele pode até localizá-la histórica e socialmente, mas apenas alcança as suas consequências dentro do universo masculino dos personagens. À exceção de Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, 2007) e do mais recente Descompensada (Trainwreck, 2015), todas as mulheres do filme de Apatow são escadas para os personagens masculinos no processo de busca pela maturidade, o que afasta o filme da desconstrução da misoginia declarada de seus personagens. Na maioria das vezes, os filmes de Apatow lidam com as mulheres na mesma maneira autocentrada e infantil que o universo masculino que eles representam.

É possível que essa indulgência parta da mesma questão geracional que motiva Apatow, ou seja, do afeto dentro de um determinado universo masculino, movido pelo bromance e por piadas com pênis. Assim, Tá Rindo Do Quê? seria, creio que até involuntariamente, o seu filme mais honesto. Trazer Sandler para dentro dessa indulgência é reconhecer que não há tanta distância assim entre a comédia de um e a de outro, já que os dois respondem à mesma imaturidade e misoginia, por exemplo. E essas são questões que precisam ser enfrentadas tanto por um quanto pelo outro.

Publicado em 04/04/2016.