Uma estória de horror no escurinho do cinema

the witchpor Rodrigo S. Pereira

Não foi tarefa fácil assistir ao A Bruxa (The VVitch: A New-England Folktale, 2015) em Recife, Pernambuco. A começar porque o indie de horror encontrou poucas salas disponíveis, portanto muito de sua bilheteria se vale do buzz que o colocou como “o horror bafão do ano”. Já é costume, de certa forma, que um filme de horror específico receba holofotes especiais desde o início do ano, sendo aguardado, comentado e visto muito além do que sua natureza (frequentemente independente e/ou de baixo orçamento) poderia prever. Isto vem ocorrendo, se não desde O Exorcista (dir: William Friedkin, 1973), por se tratar de proporções radicalmente distintas, talvez desde A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, dir: Daniel Myrick; Eduardo Sánchez, 1999), cuja sensação de “novidade” contida na estética found footage e seu inteligente marketing lhe renderam posição fixa entre os assuntos de mesas de bar, almoços de domingo e até mesmo escolas por anos.

Em muito isto se deve ao fato do gênero do horror viver uma dicotomia entre um mercado de nicho e o mainstream. Frequentemente constituídos por um thriller de consumo fácil, uma linguagem universal de sustos e “gente bonita” sofrendo, é bastante difícil para alguém que não se dedica a estudar o assunto traçar um limite entre filmes de horror “industriais” e “independentes”, atualmente. Principalmente porque o baixo orçamento nem sempre é independente, e porque a indústria tem tornado sucessos dignos de nota em intermináveis franquias há décadas, o que aconteceu com o próprio O Exorcista, e também aos mais baratos Halloween (dir: John Carpenter, 1978), Jogos Mortais (Saw, dir: James Wan, 2004) e Atividade Paranormal (Paranormal Activity, dir: Oren Peli, 2007), por exemplo. Na mesma medida, as sequências não são sempre fruto da ambição industrial, o que poderia ser o caso de A Morte do Demônio (Evil Dead, dir: Sam Raimi, 1981) – e sequer vale a pena entrar aqui no quesito remakes/reboots.

A Bruxa, talvez felizmente, não parece ser do tipo que renderá muitos novos títulos, o que não se refere à sua qualidade concreta. Assim como os recentes (e excelentes) O Babadook (dir: Jennifer Kent, 2014) e Corrente do Mal (It Follows, dir: David Robert Mitchell, 2014), A Bruxa tem uma narrativa one-shot, ou seja, que faz sentido pelo que é, um título único (nos anos 80-90, talvez Corrente do Mal se tornasse uma péssima franquia de horror teen). Estes tendem a ser os filmes de horror mais impactantes, pois ao não haver responsabilidade de sequência, nenhum personagem está seguro – e eliminar as seguranças do espectador é o cerne do bom horror, aquele que perturba e persiste na imaginação e nos sonhos muito depois da experiência mediada pela tela.

the witchPerturbador” é sempre um termo muito valorizado entre os filmes de horror, e merecê-lo não é tarefa simples. A Bruxa carrega esforços evidentes nesse sentido, e é importante reconhecê-los, mas também questioná-los. O longa pode chegar a ser um pouco óbvio em suas tentativas de subversão, como insinuar sensualidade entre crianças, da descoberta do impulso sexual ao conflito com a ideia de incesto (e de algum flerte pedófilo, vindo do próprio filme). Também é muito lógico neste esforço questionar o Cristianismo, o que desde O Exorcista raramente é bem-feito, apesar de haver uma infinidade de filmes de possessão e profecia que se utilizam, por exemplo, da cruz invertida para anunciar seu horror sobrenatural.

Estes ataques básicos às construções socioculturais subjetivas do espectador são em grande parte um fator mercadológico: um projeto de horror que aspire ao sucesso e/ou à alcunha de “perturbador” precisa que suas manobras sejam abrangentes ao máximo possível. Num jogo de dardos, sexualidade e espiritualidade estão ali pelos aros centrais do alvo, senão na pontuação máxima. O filme se debruça enfaticamente sobre o corpo humano, sua materialidade e sua fragilidade, e frequentemente a (sugestão de) nudez e o feminino se tornam ameaças, manifestações do Mal. A identidade feminina se encontra no conflito da protagonista Thomasin com sua mãe, numa disputa de tradicional e subversivo, liberdade e repressão. A relação entre juventude e (i)maturidade é progressivamente questionada, sobrando espaço até para usuais ciúmes – que talvez sugiram uma problematização da objetificação feminina (e do corpo feminino) na construção sociocultural subjetiva das próprias mulheres.

Se o interesse do filme por estas questões parte de um ímpeto pessoal dos realizadores ou se foi calculado enquanto ambição de mercado, é difícil ou pouco prático discernir, visto que A Bruxa não pertence, a princípio, à lógica industrial – mas como previamente delineado, o meio independente é absorvido pela indústria de tal modo que também não é fácil dissociá-los nitidamente. Os trejeitos de indie americano podem ser uma refrescante novidade para um espectador infrequente de salas de cinema, mas para qualquer cinéfilo – ou mesmo um espectador atento de Corrente do MalA Bruxa não carrega muito de particular (para não dizer “original”). Talvez algo muito próprio do filme seja o quanto o termo “indie americano” lhe é adequado, considerando que o site Internet Movie Database (IMDB) registra não só os EUA, mas o Canadá, onde foi filmado, e até o Brasil como países realizadores e/ou de origem (o Reino Unido é o divergente do grupo).

A produtora e distribuidora estadunidense A24, responsável por A Bruxa, tem vasta experiência de indies bem reconhecidos desde sua fundação em 2012, e teve presença marcante no Oscar 2016 com a surpreendente premiação de Efeitos Visuais para Ex Machina: Instinto Artificial (Ex Machina, dir: Alex Garland, 2015), o vencedor na categoria Melhor Documentário Amy (dir: Asif Kapadia, 2015) e o indicado a melhor filme no mesmo ano, O Quarto de Jack (Room, dir: Lenny Abrahamson, 2015), pelo qual Brie Larson foi oscarizada como Melhor Atriz. A Bruxa já tem lugar entre as maiores bilheterias da A24, cujo histórico também conta com os ótimos Spring Breakers: Garotas Perigosas (Spring Breakers, dir: Harmony Korine, 2012) e Bling Ring: A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, dir: Sofia Coppola, 2013). Como esses dois últimos, A Bruxa se beneficia da polêmica que pode provocar, no que se insinua como um padrão ou manobra de marketing.

the witchMas nem todo buzz fez bem a este filme. Nos multiplexes de Recife, não foram poucos os relatos de experiências frustrantes nas sessões, não só por condições ruins de projeção e/ou da própria sala, mas principalmente pela má educação de alguns espectadores. A Bruxa provoca asco, indignação e escárnio em certa parcela do público local, e talvez seja difícil traçar a razão exata: se este é um público colateral de Os Dez Mandamentos (dir: Alexandre Avancini, 2016; que dispensará comentários no presente texto), é compreensível o impacto que o longa possa causar nestas pessoas que, ao que tudo indica, sequer frequentam salas de cinema (por contraindicação de seus líderes de fé). Se fossem apenas espectadores desacostumados ou avessos à(s) estética(s) “indie Sundance”, seria pouco provável tamanha recorrência de exibições gratuitas de criancice durante as sessões.

Não são apenas conversas e brincadeiras em alto e bom som, é uma total falta de respeito com o próximo: debochar e xingar o filme pode ser um direito inerente à livre expressão do espectador pagante, mas ele não comprou também o direito de comprometer o consumo dos demais. A experiência coletiva do cinema prevê distrações, seja um riso, um grito, um espirro, pipoca ou aquele maldito pacote de salgadinho que a pessoa jura que é melhor abrir devagarzinho. É diferente de assistir a um filme enquanto se ouve o tempo todo, da fileira de trás, da frente, ou de seus vizinhos, que aquilo é ruim, ridículo ou desinteressante – como qualquer opinião, isso provoca uma reação subjetiva de concordância ou discordância, e para espectadores minimamente dedicados, é preciso ver um filme inteiro antes de decidir se gosta ou não.

Ouvir um ou outro comentário do tipo durante um filme é corriqueiro, mas quando não se tem um descanso sequer da opinião alheia para formular a sua própria, a experiência pode não ser das melhores. É muito simples: ninguém é obrigado a gostar do filme. Correto. Mas também ninguém é obrigado a desgostar, e, ao impor essa postura espalhafatosa àqueles desconhecidos que pagaram um ingresso nada barato para aquela sessão, o desgostoso está sendo apenas intransigente. Se poderia esperar esse tipo de comportamento de adolescentes, destes que vão ao cinema em grupos depois da escola (ou mesmo faltando aula), mas são adultos, por vezes mães e pais – com seus filhos, o que é surpreendente (sempre cheque a classificação indicativa, sim?) – que não sabem se portar numa experiência compartilhada. Uma dica: podemos falar à vontade o quanto detestamos o filme depois de sairmos da sala, diretamente para alguém que realmente está interessado em nossa opinião.

A Bruxa retrata como a imaturidade na relação humana com suas crenças e com o próximo ameaça diretamente a convivência, sendo essa imaturidade a própria perna bamba do que chamamos de sociedade. Curioso como esse público consegue se comportar exatamente como é previsto pela narrativa. Tão absortos em si mesmos, repudiam tudo aquilo que lhes é desconhecido e que questiona ou conflita com suas verdades – inclusive seu gosto, sua concepção do que é bom ou ruim. Parece uma conclusão que extrapola “má educação na sala de cinema”, mas não é: a cidadania não é só pagar impostos, é respeitar a cidade e os demais cidadãos, é não jogar lixo no chão (ou pela janela do ônibus, Deus tá vendo), é não deixar água parada exposta em casa, é frear antes da faixa e é não estacionar em ciclovias, entre outras tantas coisas. Em suma, é não pensar apenas no próprio umbigo, mas no bem comum. Da abertura do filme, com a expulsão da família de sua comunidade, à progressiva hostilização da jovem protagonista por seus pais e irmãos, A Bruxa tem a infeliz posição de propor uma discussão, e ter sua proposta ignorada ou rejeitada pela própria atitude a ser discutida. As maquinações demoníacas que a mitologia cristã prevê têm este exato teor de ironia perversa.

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