“I believe in America”, versão 2015

o ano mais violento
por Mário Rolim

Estranhamente, o pôster mais divulgado de O Ano Mais Violento (A Most Violent Year, dir.: J. C. Chandor, 2015), onde o protagonista (interpretado por Oscar Isaac) e sua esposa (interpretada pela ótima Jessica Chastain) são enquadrados num chiaroscuro rebuscado, não me remeteu a nada específico. No entanto, foi preciso assistir a poucas cenas do longa para notar o quanto ele foi inspirado na (e homenageia a) trilogia O Poderoso Chefão (The Godfather) dirigida por Francis Ford Coppola, especialmente no seu primeiro filme, de 1972.

Se atendo à narrativa básica dos filmes, pode-se notar que os dois são centrados em um protagonista descendente de imigrantes que acaba se tornando o chefe de uma empresa previamente comandada por uma figura paterna moralmente condenável, e luta para não se tornar um gângster enquanto tenta proteger seu negócio dos concorrentes (mais) corruptos e violentos e das forças da lei. Também há certa semelhança com outro filme estrelado por Al Pacino, Serpico (dir.: Sidney Lumet, 1973), em que o personagem principal é um policial de boa índole que vê sua vida desmoronar enquanto luta para se manter honesto em meio a uma força policial quase que inteiramente corrupta.

No caso de O Ano Mais Violento, o protagonista em questão é Abel Morales, dono de uma empresa de distribuição de óleo combustível, que tenta fechar um negócio arriscado que pode solidificar o crescimento da empresa ao mesmo tempo em que se vê ameaçado por uma série de acusações por parte da justiça e por frequentes roubos das cargas de seus caminhões (com agressões aos seus motoristas incluídas). Em meio a tudo isso, Abel é colocado (assim como o Michael Corleone de Al Pacino) no início do filme como alguém de princípios morais e éticos superiores aos de praticamente todas as pessoas ao seu redor, o que vai de seus parceiros a seus inimigos. Assim, Abel se recusa a aprovar a decisão do seu chefe de motoristas de dar armas aos mesmos (sem autorização legal) para “protegê-los” durante o transporte, se recusa a pedir ajuda do pai gângster da esposa, Anna, reclama com Anna ao descobrir que ela está carregando uma arma para defender a família/casa, e assim por diante. Mesmo a polícia é colocada como impiedosa e insensível (mesmo que não seja de forma exagerada, eu reconheço) por interromper o aniversário de dez anos da filha do casal para conduzir uma busca na casa da família. Tudo isso só na primeira metade do filme.

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Não que Abel não faça nada de errado. Seus erros começam a aparecer na segunda metade do longa, quando ele já está estabelecido como moralmente superior aos outros. Quando a polícia revista sua casa, Abel ajuda Anna a esconder documentos que podem incriminar a empresa, e é mostrado com uma expressão que mistura aborrecimento e resignação. Nesta ocasião, Anna chega a ameaçar o oficial de justiça encarregado de investigar a empresa, reforçando a ideia de que laços de família, capitalismo e corrupção/crime andam lado a lado (outro tema fortemente presente em O Poderoso Chefão), com os erros do protagonista sendo atenuados pelo comportamento irresponsável de membros da sua família, o que dá a impressão de que ele está pagando pelos erros dos outros. Isso fica ainda mais forte quando Anna revela a Abel que vinha desviando dinheiro da empresa desde o início. Ele briga com ela por causa disso, mas não demora a aceitar usar o dinheiro, passando de um temperamento decepcionado e raivoso para uma expressão resignada, como se tivesse desistido de tentar ser correto.

Assim, Abel acaba sendo moralmente protegido, já que, como o Don Corleone de Marlon Brando, ele se beneficia de atos corruptos feitos em nome de sua empresa ou seu bem-estar sem nunca praticar os atos com suas próprias mãos. De forma semelhante a Don Vito, Abel também é ajudado por sua construção como um gentleman carismático e educado, o que ajuda a ocultar seu lado corrupto e o faz parecer mais íntegro. No entanto, para tentar ser justo, reconheço que isso aparece mais fortemente em Poderoso Chefão, até quando lembramos que o policial mais relevante do filme é caracterizado como corrupto, violento e arrogante, o que por tabela eleva moralmente os gangsteres, e torna seus crimes menos repreensíveis.

Uma possível exceção a essa proteção à moral de Abel diante dos seus erros vem quando ele tem a chance de perseguir um dos assaltantes que vinha atacando seus caminhoneiros. No intuito de descobrir quem está por trás dos roubos, ele usa a arma do assaltante para espancá-lo e ameaçá-lo de morte. No entanto, Abel se vê incapaz de “terminar” o ato, e liberta o assaltante. Nesse momento, a trilha sonora começa a tocar uma melodia semelhante à do início do adagio do ‘Concierto de Aranjuez’, do espanhol Joaquín Rodrigo. Apesar de a música soar melancólica, ela não deixa de parecer também edificante, gloriosa. Com ela, o filme parece abandonar toda a possibilidade de fazer uma observação crítica (principalmente nesta cena, mas ecoando no todo do longa) sobre a corrupção e a violência e assim por diante, mas ele não faz isso em nome da expressão das emoções de seu protagonista. Ao invés disso, o que me parece é que, neste momento, o filme passa a mão na cabeça de Abel, absolvendo-o da prática da violência que ele mesmo vinha condenando – e só porque ele não matou o assaltante e deixou-o ir. E, como se não bastasse, o assaltante fica tão tocado com a piedade de Abel que até conta a ele que trabalhava por conta própria, e onde vendia o óleo. De fato, o filme não podia tornar as coisas mais fáceis para Abel nessa cena, tanto no sentido da absolvição moral quanto da resolução dos seus problemas com os roubos de cargas.

o ano mais violentoOutro tema presente em O Ano Mais Violento que também é importante para a trilogia O Poderoso Chefão é o status dos EUA como “a terra da oportunidade (‘land of opportunity’)” primordial, com uma narrativa que nos leva a refletir sobre a decadência moral do chamado “sonho americano (‘american dream’)”, ou sobre a inevitabilidade da corrupção dentro dele – ou do capitalismo como um todo.

Isso fica bastante claro no arco de Julian, motorista que transporta óleo para a empresa de Abel, e parece ter certa intimidade com o chefe. Julian também é um imigrante “latino”, e vê em Abel um exemplo a ser seguido. No entanto, depois que é agredido e vê o caminhão que dirigia ser roubado, Julian, amedrontado, passa a dirigir portando uma arma, a contragosto de Abel. Julian acaba disparando tiros em plena ponte para se defender dos assaltantes, e se torna foragido da polícia (mesmo com Abel praticamente o entregando nas mãos dos policiais), colocando em risco os negócios de Abel. Diante de todos os problemas pelos quais Julian passa, Abel consegue se manter íntegro e frio, não só ao ajudar a polícia a achar/capturar Julian, mas também por colocar os interesses profissionais acima dos pessoais e negar um pedido de promoção. Isto tudo só torna Julian mais “fraco” e moralmente inferior, o que aumenta sua vergonha e seu sentimento de culpa e reforça a diferença entre um imigrante que não soube se portar diante da violência e corrupção ao seu redor e acabou entrando em colapso, e o outro imigrante que se tornou (mais) um gângster.

Ao final do filme, Abel consegue dinheiro o suficiente para comprar uma refinaria próxima de sua propriedade e assim possibilitar que sua empresa cresça, mas só após se render à corrupção e se tornar tudo aquilo que não queria ser, enquanto Julian, desesperado por se tornar um foragido da polícia, se mata. Esta cena consegue estabelecer bem um tom de lamento em relação à corrupção e violência entranhadas no sonho americano capitalista, não só pela trilha sonora tensa e solene, mas também pelo fato de Julian acidentalmente atingir um tanque de óleo combustível, fazendo o líquido vazar e indicando a impossibilidade de Abel de impedir o derramamento de sangue (literal ou metaforicamente) dentro daquele sistema corrupto, apesar dele usar um lenço para tentar tapar o vazamento.

o ano mais violentoO filme teria estabelecido pelo menos um desenvolvimento relativamente coerente para seu protagonista se tivesse terminado nesse momento, mas não é isso o que acontece. Ao invés disso, temos um diálogo confuso e oblíquo entre Abel e o oficial de justiça encarregado de investigar sua empresa, em que Abel afirma categoricamente que tomou “o caminho mais certo”, e o oficial reconhecendo que “todos nós precisamos de ajuda às vezes” e que com a compra do terminal Abel ficaria bem mais forte “politicamente falando”, o que sugere bem vagamente a possibilidade dele aceitar um suborno para abandonar as investigações, ou mesmo afrouxá-las sem suborno, como se tivesse sido conquistado pelo charme e sucesso de Abel. Assim, Abel, ao se ver incapaz de sair do ciclo de corrupção e violência que o cerca, parece abraçar de bom grado as ideias e valores que antes rejeitava, o que diminui bastante a carga de lamento ou de reflexão crítica sobre o declínio moral do sonho americano, e coloca a corrupção como algo inevitável, contra o qual não se pode lutar – por isso, é mais fácil abraçá-la e aceitá-la. Mas será mesmo?

Algumas pessoas poderiam até colocar essa retórica como próxima ou remetente às das tragédias shakespearianas clássicas, em que observamos a queda do protagonista e de seus princípios morais e éticos diante de um mundo cruel e violento para que assim possamos de alguma forma aceitar melhor os terrores da realidade ao nosso redor – a crítica americana Pauline Kael fez este tipo de comparação em seu texto sobre o segundo Poderoso Chefão, por exemplo. No entanto, creio que esta abordagem acaba validando a corrupção e a violência ao vê-las com complacência e aceitá-las como inerentes ao que quer que seja, e o fato disso ser construído num tom que passa longe do lamento ou da crítica só faz tudo parecer conformista, quase derrotista – me refiro mais a O Ano Mais Violento, mas isso não deixa de se aplicar em certo nível à saga de Michael Corleone. Até porque é fácil colocar a corrupção como inevitável quando o protagonista muda de personalidade para favorecer a visão do roteiro. E, por mais que o filme proteja a moral de Abel ou passe a mão em sua cabeça, sua compra do terminal (ou seja, sua conquista profissional/financeira) é na verdade desprovida de glória (ou de qualquer sentimento edificante para quem a assiste), já que ao alcançá-la Abel deixa de ser Abel (ou pelo menos aquele construído até então), passando a ser só mais um gângster. No entanto, o que o filme parece dizer é “tudo bem, agora que você aceitou ser um gângster vai dar tudo certo no final de alguma forma”. E não consigo não ver isso como uma forma de covardia.