Adonis Creed, o Rocky negro?

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por Mário Rolim

Quando soube que iam rodar uma sequência da franquia Rocky focada no filho de Apolo Creed, fiquei preocupado, até porque a série parecia ter tido uma conclusão mais que digna em Rocky Balboa (dir.: Sylvester Stallone, 2006), seu sexto título. Minhas preocupações diminuíram bastante ao descobrir quem estava envolvido no projeto: o diretor, corroteirista e idealizador da história seria Ryan Coogler, do bom Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station, 2014). Estrelando o filme estariam, além de Stallone, é claro, Michael B. Jordan, que interpreta muito bem o personagem principal do próprio Fruitvale Station, e Tessa Thompson, ótima protagonizando Querida Gente Branca (Dear White People, dir.: Justin Simien, 2014).

Depois disso, me vieram diversas questões: Coogler teria controle criativo ou só seria um subordinado de Stallone? E, mais importante ainda, este seria só mais uma história de superação envolvendo lutadores de boxe, que aproveitaria o filho de Apollo só porque essa possibilidade já tinha se esgotado com o filho de Rocky? Ou seria uma história que retrata um protagonista negro forte como um exemplo de Black Power, e se mostra atenta às tensões raciais evidentes na sociedade americana contemporânea, em tempos de #BlackLivesMatter, #OscarsSoWhite e tudo o mais?

O filme parece transitar entre essas duas expectativas, assim como Adonis varia entre esses dois tipos de heróis. Não que seja impossível fazer uma história de superação com um personagem negro e underdog” (azarão, aquela pessoa de quem é esperado se tornar perdedora em uma competição). No entanto, há de se notar que nas histórias de superação que geralmente vemos no cinema os protagonistas devem sobrepor dificuldades abrangentes (visando assim uma maior abrangência de público, até) como pobreza, falta de talento e oportunidades limitadas. Já em filmes mais militantes com protagonistas negros tentando superar a segregação racial, geralmente os principais adversários do herói são brancos, e as maiores dificuldades vivenciadas por eles são causadas por personagens brancos ou por questões étnicas em geral.

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Adonis não me parece se alinhar estritamente a nenhum desses estereótipos. Por um lado ele traz consigo um sentimento de rejeição, revolta e não-pertencimento, com boa parte de sua infância passada entre orfanatos e unidades de atendimento socioeducativo a menores infratores (onde todos os meninos são negros, diga-se de passagem); por outro, ele é um privilegiado dentro do boxe por ser filho de um dos maiores lutadores da história do esporte, coisa que ele tenta esconder ao assumir o nome ‘Johnson’ em vez de ‘Creed’. Isto fica claro dentro do próprio ginásio em que seu pai treinava, onde os outros jovens (quase todos negros) que tentam se tornar boxeadores o fazem por falta de oportunidade de trabalho em outros setores, enquanto Adonis teve uma boa educação e poderia conseguir um bom emprego fora dos ringues se quisesse. Assim, o protagonista parece estar sempre fugindo dos seus privilégios, pelo menos dentro do mundo do boxe, e sua história de superação está mais ligada à aceitação do legado de seu pai e à tentativa de provar a si mesmo e aos outros que ele merece mesmo ser filho de Apolo Creed do que à superação de falta de oportunidades causadas por questões sociopolíticas ou raciais.

Além disso, as lutas de Adonis contra seus dois adversários (Danny Wheeler e Ricky Conlan, dois brancos) não me parecem ser colocadas como uma metáfora para a superação do racismo ou dos brancos em si. Nem Conlan ou Wheeler são demonizados ou ridicularizados, e suas características não me parecem ser determinadas por questões étnicas. Os dois são “adversários normais”, seguindo o mesmo estilo de “personalidade de boxeador” dos jovens negros da academia de Los Angeles, inclusive – por mais que Conlan pareça arrogante e esteja sob ameaça de ser preso por porte ilegal de arma, não vejo sua arrogância diferir muito de qualquer lutador falastrão. O filme poderia até fazer uma distinção entre Adonis e os dois através de elementos culturais, mas não é isto que acontece. Sim, a utilização de várias faixas de rap na trilha sonora poderia ser vista como uma forma de reforçar a imagem de Adonis como jovem afro-americano (já que esse é o gênero musical mais fortemente associado a este grupo social atualmente), mas ele parece escutar canções do gênero tanto quanto seus adversários – Conlan, como Adonis, ruma para o ringue ao som de rap na luta final, por exemplo.

Há ainda outra dificuldade em situar Adonis como o herói de uma jornada metafórica para superação do racismo: a grande diferença entre ele e seu pai, Apollo Creed. Apollo foi projetado como uma mescla de grandes boxeadores negros como Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson e Jack Johnson, que tinham importância considerável na formação da mística em torno do homem negro, sendo apontados como heróis por serem cool, fortes (de corpo e mente), rebeldes, focados no trabalho, muito conscientes da mídia e como se portavam em relação a ela, e principalmente desafiadores ferrenhos das dificuldades a eles impostas pela segregação étnica enraizada na sociedade norte-americana. Por Apollo carregar boa parte dessas características nas ótimas interpretações de Carl Weathers, o personagem teve carisma suficiente para superar o papel de antagonista em Rocky: O Lutador (Rocky, dir.: John G. Avildsen, 1976) e Rocky II – A revanche (Rocky II, dir.: Sylvester Stallone, 1979) e ganhar mais importância e dimensão, se tornando companheiro e treinador do protagonista em Rocky III – O desafio supremo (Rocky III, dir.: Sylvester Stallone, 1982). Infelizmente em Rocky IV (dir.: Sylvester Stallone, 1985) ele acaba morto, servindo como motivação para Rocky confrontar o russo Ivan Drago, mas é difícil mencionar algo que se salve naquela propaganda antissoviética. Considerando Rocky IV, é um alívio ver Apollo ser tão enaltecido em Creed, onde ele é colocado como um dos maiores boxeadores de todos os tempos e, principalmente, alguém que foi melhor do que Rocky.

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Adonis não segue essa linhagem de boxeadores negros, até porque simplesmente não herda dos homens citados as mesmas características que Apollo – o que, dentro de Creed, deixa a tentativa de Adonis de superar o pai mais conflituosa, e por isso mais interessante. Além disso, a própria diferença geracional também influencia bastante as discrepâncias. Primeiro porque a própria mística em torno do boxeador negro parece ter diminuído. Talvez isto seja decorrente da queda de popularidade do boxe, que parece ter perdido o posto de esporte de luta mais popular para o MMA. Ou talvez porque os boxeadores do passado citados geralmente se mostravam mais militantes na luta pela igualdade de direitos dos afro-americanos. De fato, é difícil apontar algum lutador recente que se chegue perto de nomes como Sugar Ray Robinson, Jack Johnson e Muhammad Ali quanto a ter um impacto que ultrapasse as fronteiras do esporte e toque, principalmente, o campo da política. Adonis vem de uma época em que a segregação parece se mostrar de maneiras mais sutis, e em que as pessoas parecem ser menos vocais em relação a isso. No entanto, a expectativa para que pessoas afro-americanas presentes na “mídia” sejam militantes nesse assunto em algum nível ainda aparece em diversos setores da cultura, como se sempre fosse exigido do oprimido não só suportar a opressão, mas tentar lutar contra seu opressor através dos seus próprios meios de expressão. Exemplos disso são as cobranças para que atores e atrizes usem seu espaço para protestar contra a falta de papéis para negros e negras, ou as avaliações de críticos musicais que dão mais importância aos rappers que usam a música como forma de protesto, e não só “simples diversão”.

Talvez essas ideias me tenham feito criar expectativas excessivas para o filme, ou esperar demais do seu protagonista. No entanto, ao entender que o filme não tentava cumprir diretamente com essas duas expectativas, não obedecendo nem aos padrões de filme de história de superação e nem aos padrões de filme de luta contra o racismo, o percebi como cativante e político de outras formas. Sobre a primeira expectativa, considerando todos os privilégios de Adonis, seria preciso uma carga intensa de melodrama para torná-lo o underdog do filme. Essa tentativa não existe; ao invés disso, evitando maiores revelações, pode-se dizer que Rocky se mantém nesse posto. Livre da obrigação de encarnar a figura do azarão, Adonis ganha um arco de desenvolvimento bastante diferente do de Rocky, o que é um alívio. Quanto à segunda expectativa, Adonis mostra que não precisa ser cool, confiante, larger-than-life e intensamente militante para ser um personagem forte. Sua força vem da sua vulnerabilidade, que o torna mais humano e verossímil. Adonis batalha contra problemas diferentes (mais íntimos e pessoais), mas ainda assim problemas com os quais podemos nos identificar, como a tentativa de buscar a realização do seu próprio sonho e provar seu valor a despeito de nomes ou backgrounds.

O filme ainda arranja outras formas de se mostrar interessante do ponto de vista político; formas que, mesmo se forem mais sutis e menos evidentes, não deixam de significar algo. Uma que me chama a atenção é a caracterização de Bianca, o par romântico de Adonis. Por mais que ela se encaixe no clichê da mulher de lutador, que serve como motivação para o protagonista e fica no canto aflita enquanto seu homem apanha, e por mais que o desenrolar do relacionamento às vezes pareça mais movido por conveniência do que por verossimilhança ou coerência (como quando Bianca aparece repentinamente em Liverpool para ver a luta dele contra Ricky Conlan, indicando que ela perdoou Adonis após uma briga feia mas não dando nenhum motivo aparente para isso), há de se reconhecer que pelo menos ela é bem mais independente do que essas personagens costumam ser. Bianca mora só e parece se sustentar sozinha, tem uma carreira promissora como cantora/compositora, nunca parece dependente de Adonis ou só um objeto do desejo dele, tira sarro por ele ter um “tio” branco e ainda o questiona em relação às suas atitudes em vários momentos. Em uma cena ela chega até a dizer a ele que “talvez você seja só uma motivação para mim também”, palavras que jamais seriam ditas pela esposa de Rocky, Adrian, por exemplo.

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Outros momentos em que achei o filme politicamente interessante foram aqueles em que se deixa de lado os personagens principais para focar pessoas negras anônimas da Filadélfia, sejam elas crianças espiando um treino numa academia de boxe do subúrbio, cozinheiros fritando um sanduíche caprichado ou jovens que passam boa parte de seus dias fazendo acrobacias em suas motos. Esses momentos são os que mais aproximam Creed de Fruitvale Station, um filme que procura inserir a narrativa em um espaço ao retratar as pessoas comuns que nele vivem. Nos outros Rocky, essas pessoas praticamente só apareciam na tradicional cena do filme em que Rocky corre pela cidade acompanhado de uma multidão que o segue, servindo quase como decoração de plano de fundo, ou como reforço da ideia de que Rocky é o azarão que representa todos nós, o que às vezes parecia mais um reforço do heroísmo e do status de ídolo do personagem. Em Creed elas são mais focadas, ouvidas, vistas, e a distância entre elas e o protagonista parece menor. Tanto é que na versão de Adonis dessa cena da corrida com a multidão, ele é quem chama os jovens motociclistas para correr.

Nada mais merecido, considerando que, por mais que a história de superação de Rocky (ainda) tente representar o underdog dentro de todos nós, essas pessoas também vivem histórias de superação em suas lutas diárias. E o ato político de evidenciar essas pessoas, por mais discreto que possa ser, me parece bastante importante, assim como é importante o fato de que, depois de seis filmes da franquia em que não se via nenhum problema no fato de um boxeador branco ser usado para representar as batalhas diárias de todas as pessoas (tanto que ninguém tinha tido a intenção de mudar isso até agora), elas finalmente possam ver nas telas um negro como esse herói que a todos simboliza, e assim, quem sabe, se sentirem melhor representadas.