Dicas do Netflix – Fevereiro

a pele que habitopor Cesar Castanha

A Netflix tem se tornado a ferramenta mais fácil da atualidade para o acesso a filmes e séries, com seu catálogo sendo atualizado quase diariamente. Pensando nisso, o Lavoura entrega uma lista com sugestões entre os lançamentos e relançamentos do site durante o mês de fevereiro. Boa maratona! 

embriagado de amor
Embriagado de Amor
(Punch-Drunk Love, dir.: Paul Thomas Anderson, 2002)
O mais obscuro e possivelmente melhor filme de Paul Thomas Anderson (como vejo, Vício Inerente, de 2015, é o único concorrente). Embriagado de Amor apresenta um Adam Sandler demasiadamente humano como Barry Egan, homem com aversão à vida em sociedade que pode ter se apaixonado. É muito bonito o modo como Anderson aborda questões comuns ao seu cinema (o capitalismo como caminho para a solidão e a claustrofobia, por exemplo) a partir da composição de cenas que o fez famoso em uma “dramédia” romântica.

era uma vez na américa
Era uma Vez na América
(Once Upon a Time in America, dir.: Sergio Leone, 1984)
Era uma Vez na América é talvez o mais nostálgico do já bastante nostálgico diretor Sergio Leone. O filme reflete afetuosamente sobre o cinema clássico, sua política, seus temas e sua estética, tudo isso enquanto contempla o ritmo e a complexidade atordoante do cinema moderno. Como Fedora (dir. Billy Wilder, 1978), Era uma Vez na América é um filme que se despede do cinema. Um canto do cisne como poucos outros.

coraline
Coraline e o Mundo Secreto
(Coraline, dir.: Henry Selick, 2009)
Henry Selick não dirigiu muitos filmes, mas três dos seus são obras surrealistas sombrias e por isso essenciais ao cinema infantil contemporâneo. O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, 1993), James e o Pêssego Gigante (James and the Giant Peach, 1996) e Coraline e o Mundo Secreto formam uma trilogia estranha, que representa o que há de absolutamente melhor no gênero nos últimos 25 anos. A chave para o surrealismo de Henry Selick talvez seja sua humildade. O imaginário representado tanto em Coraline quanto nos outros não é pautado por regras arrogantes que servem apenas para atestar uma pretensa inteligência do roteiro. Nesse ponto, Selick é muito como Neil Gaiman, autor original da obra. Para ambos, é no absurdo e na confusão desorientada que a fantasia encontra sentido.

de volta para o futuro
De Volta para o Futuro
(Back to the Future, dir.: Robert Zemeckis, 1985)
Alguns filmes criaram uma mitologia acerca dos anos 1950; De Volta para o Futuro é um desses. Quando Marty McFly parte em busca dos fundamentos de sua identidade, ele encontra uma série de símbolos de uma América de ouro, simples e harmoniosa. De Volta para o Futuro foi lançado no início do segundo mandato de Ronald Reagan, um presidente que prometia trazer “a boa América” de volta, a América que via este mesmo presidente como estrela de Hollywood. De Volta para o Futuro é um documento histórico: o filme da utopia reaganita.

pocahontas
Pocahontas
(dir.: Mike Gabriel e Eric Goldberg, 1995)
Pocahontas é o segundo de três animações da Disney bastante sombrias desde sua concepção (as outras duas são O Rei Leão, adaptação livre da peça Hamlet, e O Corcunda de Notre-Dame, adaptado do texto de Victor Hugo). É também um dos filmes mais subestimados do estúdio. Pocahontas também dá o passo mais além na experiência de O Rei Leão (The Lion King, dir.: Roger Allers e Rob Minkoff, 1994) de quebrar estereótipos consolidados no cinema de animação e trazê-los de volta à condição de arquétipos. O resultado é que o vilão Radcliffe se torna um bufão irrelevante diante da força psicológica representada, por exemplo, pelo pai de Pocahontas.

inimigos públicos
Inimigos Públicos
(Public Enemies, dir.: Michael Mann, 2009)
Michael Mann tem a mão do cinema clássico, e Inimigos Públicos é como nenhum filme de gângster desde a boa fase de Brian DePalma. A estética de Mann ainda se mantém incrivelmente original, e é impressionante como a edição de som instável de seus filmes conseguem sugerir a própria cinefilia. Inimigos Públicos é o melhor filme de Mann desde a obra-prima Fogo contra Fogo (Heat, 1995).

a pele que habito
A Pele que Habito
(La Piel que Habito, dir. Pedro Almodóvar, 2011)
Um filme para se assistir sabendo o mínimo possível sobre ele — e o melhor filme de Almodóvar desde Má Educação (La Mala Educación, 2004). Daria uma boa sessão fazendo dupla com Os Olhos Sem Rosto (Les Yeux Sans Visage, dir. Georges Franju, 1960), embora (e arrisco o título de herege ao dizer isso) eu goste um bocado mais do Almodóvar. A narrativa se constrói com uma coesão impressionante. e raríssima em um filme que pretende ir aos mesmos lugares na sua relação com o público.

shameless
Shameless
(série de TV britânica criada por Paul Abbott, 2004-2013)
Shameless tem o humor social e familiar doloroso de um filme de Mike Leigh e a construção de solidariedade e amor na classe operária de Ken Loach. O nome da série ficou mais conhecido nos últimos anos graças à refilmagem americana estrelada por William H. Macy. A premissa é a mesma: um pai alcoólatra, abandonado pela esposa, convive com seus seis filhos. As primeiras temporadas da série ainda contam com a participação de um James McAvoy antes da fama.