A revolta dos oprimidos em Deus Branco

white god
por Juliana Soares

Budapeste. Quando sua mãe viaja a trabalho, Lili, acompanhada do seu cachorro Hagen, se muda para viver com o pai. No primeiro dia depois da mudança, pai e filha recebem uma visita informando sobre a cobrança de uma taxa para manter animais de estimação mestiços. O não-pagamento implica no recolhimento do animal para um abrigo. Sem a menor demonstração de sensibilidade, o pai da menina abandona o cão no meio da estrada. Lili promete voltar para buscá-lo, mas quando o faz já é tarde demais. A partir de então acompanhamos paralelamente a jornada de Hagen, aprendendo a sobreviver sozinho nas ruas, e de Lili, que vive sua fase de autoafirmação adolescente enquanto tenta reencontrá-lo.

Vencedor da categoria Un Certain Regard do festival de Cannes de 2014, Deus Branco (Fehér Isten, dir.: Kornél Mundruczó) explora o afeto entre uma menina e seu cão de estimação para traçar indicações da realidade de milhares de pessoas mundo a fora. O filme é, na verdade, sobre a questão do tratamento às minorias étnicas no continente europeu. Essas minorias são representadas pelo exército de cães sem raça definida que, depois de classificados como inferiores, são abandonados sem o mínimo afeto e insurgem contra seus malfeitores em cenas dignas de filme de terror.

Em sua tradução para o inglês (White Dog), o título do filme permite, talvez deliberadamente, uma associação imediata a White Dog, longa de 1982 do diretor Samuel Fuller. Essa conexão não se restringe apenas ao título, mas também ao fato de os dois tratarem, através das jornadas de seus protagonistas caninos, de uma certa condição de opressão e marginalização de determinados grupos sociais. Se no primeiro a crítica é direcionada ao racismo, num recorte de uma América conservadora e cruel, três décadas depois a crítica é a uma Europa tão intolerante e conservadora que muitas vezes faz parecer que o tempo não passou, insistindo em excluir grupos sociais minoritários da forma mais violenta possível. O abandono, o desprezo e os maus tratos seguidos da insurgência violenta em Deus Branco constituem uma fábula sobre o atual contexto social e político que não se restringe à Hungria – país onde o filme foi rodado, e que tem uma das políticas mais duras contra a migração síria no continente europeu -, chegando a abranger a história (e/ou situação atual) de vários países ao redor do mundo quanto ao trato de minorias étnicas.

A frase de abertura do filme (“tudo que é terrível precisa do nosso amor”), do poeta alemão René Maria Rilke, sintetiza a reflexão proposta por Mundruczó, e somente Lili, entre os personagens, parece compartilhar dessa visão. A violência dos animais não é gratuita, eles são condicionados a ela porque essa de alguma forma se tornou sua única forma de defesa diante de uma sociedade inteira que os cerceia a liberdade injustamente. Ficção e realidade se confundem.