Dez Filmes Musicais

o buracopor Felipe André Silva

A tradução literal e algo desorganizada de tendências e vícios do teatro musical americano para as telas de cinema transformou o filme musical numa espécie de purgatório da cor e da futilidade. Passaram-se décadas até que a ideia de simples espetáculo escapista fosse dissolvida, e outras tonalidades de drama e abordagem conseguissem encontrar espaço no afamado nicho. Entre responsáveis e produtos, estes são títulos que defendem algumas das várias possibilidades para o encontro entre música e narrativa.

Os Guarda-Chuvas do Amor
Jacques Demy, França/Alemanha Ocidental, 1964
Digam o que disserem, este terceiro trabalho de Jacques Demy segue inabalável com o título de melhor filme musical já feito (Cantando na Chuva é uma ilusão), e de quebra ainda consegue ser o mais triste deles. Espécie de continuação da história iniciada em Lola – A Flor Proibida (1961), Guarda-Chuvas segue a melodramática separação dos apaixonados Geneviève e Guy (Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo, espetaculares), e os agridoces rumos que suas vidam tomam nos anos seguintes. Para além da ousadia em fazer um filme cujos diálogos são inteiramente musicados, o trabalho com cores vivas e texturas vibrantes (que se tornariam a grande marca do cinema de Demy) cria um mundo verdadeiramente cinematográfico, onde a tragédia e o delírio coexistem em harmonia.

O Salmo Vermelho
Miklós Jancsó, Hungria, 1972
O virtuoso libelo comunista de Miklós Jancsó segue sendo um impressionante exemplo de virtuosismo cinematográfico que muito sabiamente não se perde em seus próprios encantos. Poética compilação de cantos folclóricos e tradicionais da Hungria, não se trata exatamente de um musical na noção tradicional do gênero, mas a música e sua encenação são agentes muito importantes para compreender os ideais da comunidade rural que luta para manter seus direitos frente à opressão que surge de todos os lados.

Cannibal! The Musical
Trey Parker, Estados Unidos, 1993
A ligação de nome e pessoa pode não acontecer rapidamente, mas bastam alguns minutos dentro de Cannibal! The Musical para entender que o Trey Parker que escreve, dirige e compõe aqui, é o mesmo que ganharia absurda notoriedade através do anárquico seriado South Park. O humor escatológico e politicamente incorreto que seria a razão de seu sucesso já estava presente neste primeiro trabalho, e é uma das grandes razões para que o filme, tão tecnicamente precário e por muitas vezes completamente esquizofrênico, seja tão delicioso. Feito ainda durante a faculdade com um orçamento minúsculo, o filme “biografa” a história de Alferd Packer, a primeira pessoa a ser condenada por canibalismo no Estados Unidos. Desde a maquiagem ridícula até uma tribo de nativos americanos interpretada por estudante japoneses (!), o filme é um claro rebento dos estúdios Troma, e da mente insana de seu criador.

O Buraco
Tsai Ming-liang, Taiwan/França, 1998
O cinema de Ming-liang, assim como os de seus vários contemporâneos asiáticos, sempre foi muito eficiente em criar simbioses complexas de formalismo e devaneio pop dentro da mesma narrativa. O Buraco, por exemplo, é mais uma bela reflexão do diretor malaio sobre solidão e incomunicabilidade, onde dois moradores de um prédio abandonado que percebem a existência um do outro apenas por um buraco que liga seus apartamentos, escapam para um mundo menos duro ao sonhar com a vida leve e colorida de um filme musical. A soma de fatores que vão desde a voz de Grace Chang, que interpreta todas as canções e tem por si só algo quase místico, até o clima de desolação tão comum no cinema de Tsai e que aqui parece ser potencializado por certo sentimento apocalíptico que marcava o fim dos anos 90, fazem deste um de seus melhores trabalhos.

8 Mulheres
François Ozon, França, 2002
Numa manhã de inverno o patriarca de uma família é encontrado morto em seu quarto, as 8 mulheres que o rodeiam são as suspeitas, e o que se segue é um whodunit que reverencia Demy, Hitchcock, Fassbinder e Sirk numa só tacada. Além de ter um dos maiores elencos já reunidos na história do cinema francês (ou de qualquer cinema, é verdade), François Ozon se apropria de certa estética kitsch ultra afetada e colorida, e soma isso a uma deliciosa compilação com o melhor da chanson française, para criar um musical que é ao mesmo tempo sátira e reverência à grande pompa do gênero.

Canções de Amor
Christophe Honoré, França, 2007
Sempre inspirado ou influenciado pela música na hora de criar, Christophe Honoré sempre encaixava algum momento musical em seus filmes até resolver de fato mergulhar num projeto que tivesse a música como um dos fatores mais importantes para a história. Em parceria com o amigo e compositor Alex Beaupain, Honoré criou uma história sobre os mistérios que levam alguém a amar, e de que formas esse sentimento pode se manifestar. Claramente inspirado no cinema de Jacques Demy, em especial em Os Guarda-Chuvas do Amor – estão lá os três capítulos, as pessoas deslizando em travellings, as ruas da cidade como personagem -, Honoré pode falhar aqui e ali em dar conta de tantos personagens flutuando por todos os lados, mas sua afeição inabalável por aquelas pessoas, e principalmente o que suas canções têm a dizer, transformaram Canções de Amor num pequeno objeto de culto.

Ninguém Sabe Dos Gatos Persas
Bahman Ghobadi, Irã, 2009
Assim como em tantas outras produções iranianas que sofrem com intensa censura do governo, Gatos Persas foi concebido em segredo, e trata exatamente da terrível pressão em que vivem os artistas daquele país. Numa mescla encantadora de documentário e ficção – os jovens protagonistas do filme foram de fato aprisionados por seu envolvimento com ‘música proibida’ -, Ghobadi acompanha a busca por novos integrantes para uma banda que tem como objetivo maior deixar o país para se apresentar na Europa, enquanto constrói um grande mosaico político e musical com as vozes do submundo de Teerã.

Inside Llewyn Davis
Ethan Coen e Joel Coen, Estados Unidos, 2013
O cinema dos irmãos Coen é um dos mais curiosos do cinema americano, e não só pela maneira particular que eles têm de lidar com as narrativas, mas por terem conseguido deixar o posto de esquisitões do cinema independente para chegar tão longe (conseguindo indicação ao Oscar e tudo o mais) sem jamais negar a ousadia de seu cinema. Entre comédias rasgadas e suspenses sangrentos, Llewyn Davis se destaca particularmente pela tranquilidade que parece exalar de sua encenação, ainda que seu protagonista esteja sofrendo horrores. A história do cantor de folk incansável em sua busca por algum reconhecimento se transformaria em qualquer coisa de moralista e edificante em mãos menos capazes, mas Oscar Isaac dá voz a um personagem irônico, amargo, que beira a antipatia, mas não deixa de ser um belo signo da força que emana daqueles que acreditam na própria arte.

Sinfonia da Necrópole
Juliana Rojas, Brasil, 2014
A ideia por trás de Sinfonia da Necrópole pode não ser particularmente ousada, mas faz dele um filme bastante curioso quando colocado em perspectiva com a atual safra do cinema brasileiro. Criado para e exibido na televisão como um média metragem e depois remontado num longa completo, o delírio musical de Juliana Rojas pesca referências na infância e adolescência dos anos 90 (mesma fonte de boa parte dos seus trabalhos com o habitual parceiro Marco Dutra), e cria uma interessante mistura de nostalgia, gótico, e kitsch. Deodato, sempre amedrontado pela profissão de coveiro, tenta aprender a lidar com suas questões quando conhece Jaqueline, a nova funcionária do cemitério. É uma simples história de amor e fantasmas, contada de um jeito deliciosamente carinhoso.

God Help The Girl
Stuart Murdoch, Reino Unido, 2014
Não é totalmente errado afirmar que God Help The Girl seja a epítome da geração tumblr em forma de filme musical. Ainda que as inspirações de Stuart Murdoch (também conhecido pelo trabalho como frontman da banda Belle & Sebastian), venham de lugares e tempos muito anteriores a essa cultura tão interessada em coisas genericamente fofas e coloridas, é inegável que seu filme se apropria de certos didatismo e prolixidade tão caros a esse público. Adaptado de dois EPs compostos pelo músico com seu projeto homônimo já pensados como rascunho de um futuro filme, o drama de uma Emily Browning anoréxica que acaba descobrindo na música um escape para suas dores tem um pouco mais de profundidade do que se esperaria, e vencida a barreira das roupas vintage e comportamento infantilóide, é de fato uma história bastante bonita, e profunda. E a música é ótima, especialmente se você já gosta de Belle & Sebastian.