Duas Visões da Transexualidade

tangerinepor Juliana Soares

“Out here is all about our hustle. And that’s it!” (traduzindo livremente, “aqui fora o que importa é a nossa luta. E só!”). A frase é de Alexandra, personagem de Mya Taylor em Tangerine (dir.: Sean Baker, 2015), e resume bem do que se trata a rotina das transexuais que sobrevivem fazendo programas na ruas da Califórnia. Uma batalha diária em busca de aceitação e legitimação de si e de seus corpos pela sociedade.

É justamente a representação da batalha diária enfrentada pela classe LGBT, nesse caso especificamente pelo T da sigla, que me parece faltar em A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, dir.: Tom Hooper, 2015). Enquanto o segundo filme pode parecer muito mais rico em seu requinte técnico, ele empobrece vergonhosamente quando se passa a analisar seu desempenho em lidar com a principal questão em que o filme se debruça, ou deveria se debruçar: o dilema de quem não se identifica com o corpo em que nasceu. A questão tão urgente e complexa da identidade de gênero se perde no distanciamento com que o drama de Lily Elbe, a primeira pessoa a se submeter a cirurgia de mudança de sexo, é explorado ao longo da narrativa.

a garota dinamarquesaSe em Tangerine, Sin Dee e Alexandra, ambas transexuais muito bem resolvidas com seus corpos e com o lugar que ocupam vivendo na Califórnia em plena década de 2010 ainda têm que lidar com o peso do preconceito, passando por situações de violência de naturezas bem variadas, onde fica a luta de Lily, que vivia no conservadorismo dos anos 20? Se Tom Hooper se recusa a mergulhar de verdade na violência do tema, permanecendo na superfície dos dilemas de Lily, Sean Baker o faz de maneira muito honesta.

E não falo aqui de violência física, daquelas escancaradas na face do espectador, mas da violência velada cujo agressor não tem um rosto. Em Tangerine a violência não é gráfica, mas está lá o tempo todo, mesmo nos momentos em que a sala é tomada por risos arrancados pelo bom humor das protagonistas. Ela vai desde a melancólica cena da apresentação de Alexandra num bar quase vazio na véspera do Natal até o banho de urina que Sin Dee leva no rosto no que ela pensava ser uma proposta de programa.

Com exceção dos diagnósticos de esquizofrenia que Lily recebe na busca por um médico capaz de ajudá-la, a Europa do século XX de Hooper parece bem mais receptiva e livre de preconceitos que a Califórnia do século XXI de Baker. Sendo assim, não é difícil perceber qual dos dois sabe lidar melhor com os desdobramentos da questão.