Uma Guerra Fria Solene

ponte dos espiõespor Cesar Castanha

O cinema de Steven Spielberg sempre foi dotado de certo tom de solenidade. Algumas vezes, como em suas obras-primas Tubarão (Jaws, 1975), E.T. – O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1984), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993), essa solenidade, construída de forma tão simples quanto a maneira como Spielberg ilumina suas cenas, é a forma com que o diretor alcança a humanidade de seus personagens. Em outros casos, a mesma solenidade serve para aprofundar o tom de relevância, verdade e neutralidade de dramas históricos. Spielberg, assim, tornou-se um diretor não exatamente de filme de monstros, mas antes de amor aos monstros. Suas ficções são pacifistas, e seus filmes de guerra também.

O temperamento de Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015), o último filme do diretor, não é exceção à regra. A trama se desenvolve em uma crise de reféns feitos durante a Guerra Fria tanto pelos EUA quanto pela URSS, quando o governo americano condena o suposto espião soviético Rudolf Abel à prisão perpétua até que surge a oportunidade de trocá-lo por um soldado ianque preso em Moscou. E, se o texto dos irmãos Coen já insiste em um ideal de protagonista superior à sociedade da qual faz parte, íntegro e capaz de carregar isoladamente todo o fardo da razão — como é o caso do advogado responsável pelo resgate, James B. Donovan (Tom Hanks) —, Spielberg monta o conflito de maneira a propor um desequilíbrio (mascarado como equilíbrio, pela maneira como o filme julga ponderar entre polos em disputa) a-histórico entre os fatores políticos e sociais expostos.

Como representados por Spielberg, o único defeito dos EUA é a hipocrisia que os distanciam dos velhos (e bons) valores americanos. Já a Alemanha Oriental é fria. É curioso, para sermos ingênuos, o interesse constante de Spielberg no frio soviético, considerando-se, por exemplo, que a primeira parte de Ponte dos Espiões, aquela na América, possui escassas cenas externas. O frio da Alemanha Oriental não produz apenas várias e longas cenas em que o herói do filme se mostra fisicamente incomodado, mas também serve como ambientação para uma sociedade falha, onde jovens roubam casacos e outros buscam uma maneira de fugir (do frio?) para o Ocidente.

spies (1)A diferença na maneira com que Spielberg filma dois países em oposição política enquanto sugere, pelo texto, uma narrativa equilibrada é, no mínimo, tendenciosa. Mas esta palavra, ao que me parece, não pode definir o tratamento do filme ao Donovan de Hanks, o idealista íntegro. Como disse o crítico Jonathan Rosenbaum no seu maravilhoso texto Spielberg’s Portrait of Lincoln is a Bust (‘O Retrato de Lincoln por Spielberg é um Busto’), Spielberg parece incapaz de olhar para a História por fora do senso comum americano. Seu Donovan, como seu Abraham Lincoln e seu Oskar Schindler, é um herói iluminista, formado individualmente, à parte das contradições da sociedade de que participa. E, nesse sentido, pouco interessa se essas figuras são ou não fiéis aos seus respectivos nomes históricos. Até porque é preciso considerar que a História não é passada adiante sem interesse político e que os EUA mantém uma estabilidade política (sendo, desde o fim da Guerra Civil, um dos poucos países a não passar por mudanças radicais na sua estrutura governista) que dificulta a desconstrução de seus mitos, além de serem um país com grande apreço por eles. E o cinema americano, de A Mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln, dir. John Ford, 1939) e além, tem ajudado a manter as lacunas políticas da narrativa americana.

As questões ideológicas da mise-en-scene, no entanto, estão longe de ser o único problema de Ponte dos Espiões, um dos mais frágeis trabalhos da carreira de Spielberg. Se a solenidade do cinema de Spielberg, ainda que politicamente ambígua, consegue fazer de Lincoln (2012) um filme atraente e de Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) um dos épicos mais interessantes do século XXI, essa mesma solenidade é depenada para além do reconhecimento em Ponte dos Espiões. A trilha sonora e a fotografia conferem ao filme uma construção de cena idiotizada e enfadonhamente didática. A síntese desse didatismo está no epílogo do filme, quando Donovan volta à América acompanhado por uma melodia de vitória e mantém-se, no quadro, ainda distinto dos seus compatriotas, só que dessa vez não como pária, e sim sob um pedestal de honra. As cartelas que encerram o filme têm sua própria maneira de dizer que Donovan, como o Mr. Smith de A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, dir. Frank Capra, 1939), não descansará até cumprir sua missão de redenção de cada homem do planeta. Felizmente, somos assim poupados de acompanhar o resto de seu martírio.