O Menino e o Mundo

o menino e o mundo

por Juliana Soares

Progrediremos todos juntos, muito em paz/ Sempre esperando a vez na fila dos normais/ Passar no caixa, voltar sempre, comprar mais/ Que bom ser parte da maquinaria!

A princípio com uma forma despretensiosa, ilustrando um garoto e sua rotina com poucos traços no fundo branco do que seria o papel, a real riqueza de O menino e o Mundo (dir: Alê Abreu, 2014) se dá num sentido muito mais amplo que o da técnica. Engolido pelo hiperestímulo (ou pesadelo) urbano, o menino recém-saído do meio rural em busca do pai tem que lidar com a frieza das relações de trabalho, a velocidade dos meios de transporte – que trazem e arrastam suas esperanças – e a desumanização das grandes cidades.

A estrutura social que o menino descobre depois de sair de casa é a perfeita representação da Sociedade do Espetáculo do teórico francês Guy Debord: formada pelo consumo desenfreado de signos que atribuem status de poder, fama e riqueza, com direito até a uma imprensa que informa sobre a violenta repressão a um protesto com um sorriso no rosto, logo antes de passar para a cobertura de moda. É essa sociedade que marginaliza o menino, seu pai, o homem da colheita de algodão, o artista trabalhador da fábrica e tantos outros cujas histórias se repetem e se confundem na narrativa. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

As sensações de solidão e de não pertencimento permeiam a história do começo ao fim. E, enquanto a ausência de um idioma definido pode universalizar geograficamente o filme, ela também acentua a sensação da dificuldade de estabelecer relações. Enquanto isso, o longa que começa com uma dúzia de traços num fundo branco se transforma num pastiche de animação, colagens, computação gráfica e, por fim, o live-action. Tudo para representar a complexidade sensorial das diferentes relações com o espaço.

Mas independente do ambiente hostil e da dificuldade de estabelecer relações, o afeto existe, e vem como lufadas de ar fresco para revitalizar a busca do menino. E este afeto vem justamente dos marginalizados, dos que não se encaixam na sociedade, dos que numa condição tão pobre, só têm o amor mesmo – por qualquer coisa que seja – em que se agarrar. São as estrelas irritantes da música Marcha Macia do artista pernambucano Siba, cujos versos emolduram esse texto. Talvez esta seja a lição para adultos e crianças: que num mundo que parece cada vez mais assustador, é preciso buscar um pouco de luz nas pequenas coisas.

Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando dia!