Tarantino reencena seu cinema

os oito odiados

por Alan Campos

Passando longe do western revisionista de Django Livre (Django Unchained, 2012), Quentin Tarantino faz em Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015) um encontro de olhares: de um lado temos o diálogo que o diretor se propõe a fazer com sua própria cinematografia, e de outro temos uma história longa e tensa de gato e rato. Enquanto começa a ser conduzido em meio a muita neve, Os Oito Odiados se lança em desenvolver a troca de faíscas entre seus personagens, com a câmera preferindo captar mais seus rostos do que seus corpos. Essa abordagem gélida pode causar estranhamento aos acostumados com as tensões físicas dos diversos truques de montagem de Django ou Kill Bill: Vol. 1 (2003) e Kill Bill: Vol. 2 (2004). Por outro lado, nunca houve um filme de Tarantino tão enfático e dinâmico em seus diálogos.

A narrativa contida não exclui a pretensão do diretor em arranhar os mais diversos temas, que vão além da metalinguagem da obra. Tarantino não diz pouco, e entre comentários acerca do conservadorismo americano e das tensões étnicas e raciais vivenciadas no país ele se opõe à crítica direta desse conservadorismo, preferindo mergulhar seu filme nos assuntos que marcaram boa parte de sua carreira. Ao colocar sua própria cinematografia como norte para Os Oito Odiados, Tarantino reinterpreta arquétipos, temáticas, olhares e atores no seu próprio playground de autorreferências, como Tim Roth interpretando um personagem com trejeitos dos personagens de Christoph Waltz em Django e Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009).

Demonstrando um olhar bastante calculado e ciente de seu cinema, Tarantino o faz vir à tona constantemente em Os Oito Odiados, seja referenciando explicitamente seus filmes ou abrindo espaço para polêmicas e acusações que ele tem sofrido ao longo da carreira. Exemplos disso são vistos no excesso de violência contra a personagem de Jennifer Jason Leigh como alívio cômico, no frequente uso da palavra “nigger” como provocação e em certa história contada pelo personagem de Samuel L. Jackson no meio da narrativa, que soa como um momento estereotipado e raso idealizado por um homem branco (com sua branquitude sendo particularmente evidenciada). Desta forma, Tarantino parece diante de uma espécie de reencontro com seu cinema e as discussões que o mesmo vem levantando ao longo dos anos, considerando que ele foi taxado como misógino e racista diversas vezes.

os oito odiados

Porém o lugar do longa é de suspensão de uma realidade fílmica, um momento de colocar toda sua bagagem intelectual em cena e fazê-la entrar em choque consigo mesma. Se o ato de expor os podres de seu cinema não isenta o fato de que sua representação ainda é problemática, tal honestidade do autor não se expressaria como vontade de tentar colocar um fim a esse conflito? Parece-me que sim, porém só as próximas obras nos farão ter certeza sobre esse suposto fim. O que permanece em Os Oito Odiados é o desgaste confesso dessa representação. De maneira similar a 8½ (, dir.: Federico Fellini, 1963), Império dos Sonhos (Inland Empire, dir.: David Lynch, 2006) e Persona – Quando Duas Mulheres Pecam (Persona, dir.: Ingmar Bergman, 1966), Os Oito Odiados representa a paranoia metalinguística de seu realizador acerca de seu próprio cinema. Em outras palavras, o filme representa a culminação de vários elementos que o cineasta vem desenvolvendo há mais de vinte anos, ao mesmo tempo em que abre espaço para novas formas narrativas.

Se há uma “egolombra” gigantesca em replicar personagens e situações no filme mais longo de sua carreira – cerca de três horas –, Tarantino o faz através de uma narrativa reduzida ao suspense mais primal de um filme hitchcockiano, se limitando às tensões e circunstâncias – pessoas presas em uma cabana durante uma nevasca – estabelecidas na primeira hora do filme. Nesse sentido, não pude deixar de observar semelhanças fortes com O Enigma de Outro Mundo (The Thing, dir.: John Carpenter, 1982) – obra que também conta com Kurt Russell e Ennio Morricone – em sua premissa simples e de teor claustrofóbico. Indo além das referências visuais que relacionam Odiados a Enigma, como o figurino praticamente idêntico que o cocheiro possui com o de Kurt Russell em Enigma ou a cena onde os personagens traçam um caminho na nevasca até o banheiro, por exemplo, me parece que Tarantino inspira-se no filme de Carpenter em sua maneira de retratar a impossibilidade da convergência pacífica entre as pessoas diante do desconhecido, o que aqui assume a forma de um assassino entre os personagens.

Se a ação no filme de Carpenter era espaçosa, ou seja, nela existia um deslocamento geográfico constante nos cenários e o foco ia variando conforme o personagem, causando uma sensação de paranoia constante, em Os Oito Odiados o espaço é estático, e com pouca deslocação. A maneira como os conflitos são expostos remete a um palco de teatro: a câmera busca um olhar imparcial sobre seus protagonistas, uma visão mais etérea e plana, sem movimentos inusitados de câmera.

Ao optar por uma estrutura simples e não rebuscada, Os Oito Odiados permite que seus personagens conduzam o suspense pelo contraste de uma América dividida – tal como no filme de Carpenter –, onde cada parte busca resolver seus interesses pessoais. Os contornos americanizados do western surgem na tentativa de Tarantino de contextualizar a sociedade americana: no conflito do homem branco com o homem negro, a ironia de seu subtexto explora até que ponto os princípios dos personagens não podem ser postos de lado para a resolução do problema comum. Um posicionamento bem sarcástico e raso, que difere do niilismo de Carpenter. Tarantino se apoia no subtexto clássico do western em Oito Odiados e suas conclusões parecem batidas, com uma mensagem gritante dizendo que “as coisas na América são resolvidas dessa maneira”. Não que ele acredite piamente nessa visão, apenas se limita ao cinismo típico do gênero, e se mostra incapaz de refletir para além disso.