A Traição das Imagens

a gatinha esquisita

por Felipe Leal

Um sentimento estranho continua a perseguir e corroer a arte: o de que não há mais nada a se dizer, de que as fontes de assunto restantes a atacar, espelhar, subverter ou mimetizar apresentam-se cada vez mais escassas – e o de que, por consequência, o gênio inventivo é algo que se perdeu, estrela cada vez menos clara numa constelação agora nublada. A Gatinha Esquisita (Das Merkwürdige Kätzchen, dir: Ramon Zürcher, 2013), pois, não é somente tal clarão de significância por si só; o que o diretor conseguiu conceber foi uma sequência de eventos cuja potência é tão gritante, que o sutil se instaurou e perturbou a imagem, tornando o filme um atestado vivo de que o cinema ainda consegue, felizmente, maravilhar-se com o que a aparente pequenez da banalidade pode resguardar. Diante do filme de Zürcher, podemos ser os equivalentes daqueles espectadores assombrados que uma vez assistiram à grande chegada do trem na estação La Ciotat, dos irmãos Lumière. Não parecia ser possível, afinal, que as tramas da realidade mais palpável pudessem esconder tantos fios, tantas possibilidades.

“Fui ao cinema com a sua avó, e depois de um tempo notei que ela dormia e respirava fundo”, diz a mãe à filha, denunciando a esta ambas a essência das imagens e a catástrofe da realidade. “De repente, o estranho ao lado pôs seu pé direito sobre o meu. Talvez por estar concentrado, ele não se dava conta do pé. Eu esperei demais e não consegui tirar o meu. Não pude mais seguir o filme. E aí houve um concerto e um músico tocava alto trompete. Nesse momento a avó acordou e ele reagiu, tirando seu pé e se sentando de outro jeito. E aí pude me mover livremente”. Não seríamos nós a mulher que foi ao cinema e cujo evento menos provável fendou o tempo e o fluxo natural das coisas? E não seria o cinema essa máquina de provocar, sim, sonhos, mas também de macular o instante e retirar o véu das mais primordiais percepções?

a gatinha esquisita

Essencialmente um homem com uma câmera, Zürcher é ao mesmo tempo arqueólogo da sétima arte. Antes de Glauber Rocha e Pasolini, encontrou em Vertov aquilo que a mediação de uma câmera tem de desnaturalizador: a imagem da gatinha é e não é a gatinha. Talvez por isso digam que ela enlouqueceu. Por isso que, na realidade, todos aqueles parentes que narram histórias de estranhamento possam também estar loucos. Perceber as coisas concomitantemente como elas mesmas e algo a mais foi a contaminação que a reprodução das imagens propagou, mas que a poucos infectou. A imagem de um cachimbo não é um cachimbo, provocou Magritte. E porque a sétima arte também é linguagem, Zürcher repete a celeuma: estaríamos fadados a permanecer nos esparsos instantes de consciência entre a iluminação e o apagamento do projetor? Um trajeto é certo: há potência nos loucos, é preciso ver mais de perto.

Mas é que A Gatinha Esquisita e sua insistência no despertar não são tanto a insurreição sobre “o que o olho não vê” quanto um afago maternal: “naquilo que os olhos não prestam atenção, o cinema pode fazê-lo”. E é agenciando a loucura, essa sacralidade da percepção, esse estado de pura potência em que a realidade se permite ser riscada, que ele encontra sua possível essência. Se não me acho capaz de inferir qualquer coisa segura sobre sua natureza, é porque aceito de bom grado que ele, como tal mãe, segure minha mão e veja por mim.