“O full of scorpions, is my mind”

macbeth

por Rodrigo S. Pereira

Talvez qualquer adaptação cinematográfica de William Shakespeare assuma de antemão que certa parte do texto original já seja conhecida pelo público: a trama, os personagens, por vezes até algumas linhas citáveis. É estranho pensar desta forma, quando não tive grande contato com a obra de Shakespeare que não por suas adaptações audiovisuais, uma vez que o autor não fez parte da minha educação como faz da formação de parte considerável dos cidadãos do mundo ocidental. Há uma extensa variedade de versões cinematográficas das comédias e tragédias de Shakespeare, das que se propõem a uma espécie de “fidelidade”, buscando reconstruir o período da diegese, preservando o texto e etc; às outras que se descolam do material de origem, muitas destas “atualizações”, transpondo os personagens ao contexto urbano contemporâneo. Macbeth: Ambição e Guerra (Macbeth, dir: Justin Kurzel, 2015) parece pertencer ao primeiro tipo, e destes pouco ou nada se pode dizer a respeito do enredo que ainda seja relevante e/ou não tenha sido dito antes, nos mais diversos contextos – não que eu sequer fosse me permitir fazê-lo, desconhecendo a leitura original. Outras questões do filme, então.

Michael Fassbender cabe no personagem de título como uma luva – o indivíduo atormentado talvez já faça parte de sua persona artística, de sua parceria com o cineasta Steve McQueen (protagonizando Hunger, de 2008, e Shame, de 2011, e sendo coadjuvante em 12 Anos de Escravidão, de 2013) ao seu papel de Magneto na franquia X-Men. As suntuosas palavras shakespeareanas lhe pertencem, são menos ásperas em seus lábios que nos de qualquer colega de elenco. O ator parece ter um admirável domínio do próprio rosto, oferecendo indícios dos sentimentos e pensamentos de seus personagens de formas muitas vezes sutis ou delicadas, mas não menos perceptíveis por isso. Diferente do que se poderia imaginar, isso não lhe confere transparência; pelo contrário, seus personagens são concretizados justamente por transmitir uma sensação de que carregam coisas, dentro de si, que como espectadores somos incapazes de acessar totalmente.

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Outro que se aproxima de tal façanha é Paddy Considine, num Banquo que consegue flertar com diferentes inquietações mesmo enquanto suas palavras expõem o que pensa do conflito principal. Seu olhar marcante consegue ultrapassar toda a maquiagem de lama e a densa barba, e é capaz de criar uma conexão intensa e imediata. Uma feliz surpresa é Sean Harris como Macduff, conseguindo eliminar qualquer rastro de ridículo nas explosões emocionais do personagem, mesmo havendo uma certa afetação que já não há como rastrear se é sua, enquanto ator, ou uma exigência do projeto. Harris alcançou diferentes holofotes recentemente ao dividir-se entre esse personagem e o vilão de Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, dir: Christopher McQuarrie, 2015), e, se não está em seu auge de visibilidade, está ascendendo. Considerando esse par de trabalhos, espero papéis interessantes para o ator nos próximos anos.

Marion Cotillard, como Lady Macbeth, sustenta todo o misticismo da (solitária) figura feminina, com uma frieza quase robótica que não a desumaniza nem um pouco. Mantendo feições pétreas e o olhar vidrado, a mulher parece lutar constantemente para conter no próprio corpo vibrações muito violentas. A personagem que impulsiona Macbeth a perseguir a premonição das bruxas de sua ascensão à coroa é das mais intrigantes, e Cotillard proporciona um amplo leque de apreciação de seu arco na trama, alcançando uma unidade e identidade numa personagem que se divide entre a obstinação inescrupulosa e uma ingênua fragilidade.

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Se um aspecto da direção, da produção ou o quê, é difícil afirmar, mas Macbeth tem questões em sua estética que me incomodam bastante. Não vejo problema algum numa adaptação de peça recusar referências teatrais, seja nos recursos audiovisuais que emprega ou em sua encenação (o que parece ser o caso aqui). O que seria um exemplo do esforço contrário, uma adaptação cinematográfica intensamente teatral, é Trono Manchado de Sangue (Kumonosu-jô, dir: Akira Kurosawa, 1957), baseada no mesmo texto. Não é o caso de compará-las ponto a ponto, o que seria no mínimo injusto, mas a fim de elucidar a questão da encenação: Kurosawa tendia à encenação teatral valorizando o corpo dos atores, posicionamento e movimentação dentro do quadro, enquanto em Macbeth raramente vemos pés, a movimentação é frequentemente construída na montagem, e em diversos diálogos somos limitados ao rosto dos atores. Corpos humanos são muitas vezes parte do cenário tanto quanto as paredes e as pedras, subordinados à supremacia da fotografia fetichista. Este é apenas um dos conflitos do filme que o encaminham para uma situação de constante inadequação, ou insuficiência – senão apenas instabilidade e desequilíbrio, espelhando seu protagonista.

Escuro e sujo, cheio de lama e sangue, e com um tanto de suor e cuspe, Macbeth demonstra um apreço por um realismo cru em sua representação da Escócia medieval, fria e enevoada. Parece ótimo; bastante coerente com o texto arcaico, pelo menos. A música também segue nesta lógica, e se é problemática é por estar presente demais ao longo da narrativa. Um espetáculo visual, Macbeth parece tentar tornar suas imagens inesquecíveis, em maioria, senão todas – o que rapidamente dispara pela culatra, pois a cada nova imagem de tirar o fôlego, as anteriores evanescem um pouco. Há uma pluralidade tão grande de esforços visuais (câmera na mão, slow motion, aceleração da imagem, escandalosas composições de quadro, etc) que a transição entre eles torna-se conflituosa, e algum desses elementos se sobressai em detrimento de outro. A montagem ágil e hollywoodiana, aliada a essa estética meio de videoclipe ou de propaganda de perfume, também dificulta a apreciação de tudo o que o filme oferece.

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A própria violência, que a princípio seria gráfica e impactante, não tem toda a força que o filme parece pedir. Os atos cruéis e brutais estão presentes, mas são mais imaginados que realmente testemunhados, quando não são intensamente estetizados – como uma decapitação no primeiro ato do filme que encerra uma sequência de batalha, também muito mais suada e gritada que sangrada. Mas a presença da violência é forte e muito marcada, por fotografia, montagem e música. Isso vai do clímax embebido de vermelho aos assassinatos do rei e de Banquo, estes últimos, vítimas de uma montagem que anuncia e flerta com a violência, mas termina por recusá-la. Muito marcada, mas não exatamente marcante.

Enquanto o elenco faz um excelente trabalho ao se apropriar do texto shakespeareano (majoritariamente) com sutileza, a narrativa segue no completo oposto, escancarando cada drama com uma obviedade despudorada. Assim, o didatismo presente no filme serve para garantir uma “leitura correta” das emoções que cada cena estaria encarregada de imprimir, em vez de, por exemplo, elucidar informações que talvez façam falta, de relações entre personagens à relação geográfica entre diferentes localidades – esse último didatismo pode estar ausente desde o roteiro, e essa ausência não é negativa por si, apenas se faz notar.

É impróprio conjecturar sobre o que um filme poderia ter sido se uma ou outra coisa fosse diferente, mas me permito imaginar que caso Macbeth fosse mais assumidamente melodramático, poderia ser mais interessante, por ser mais honesto. Contudo, o longa está sempre lidando com dois pesos, sutil contra explícito, frio contra melodramático, extremo realismo contra extrema estetização, e são poucos os momentos em que parece acertar a medida.