Bons filmes sobre o (bom) jornalismo

spotlight

por Mário Rolim

Pegando pela memória, só me lembro de ver quatro longas de ficção que considerei (e ainda considero) bons sobre jornalismo ou protagonizado por personagens jornalistas: A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success, 1957, dir.: Alexander Mackendrick), A Montanha dos Sete Abutres (Ace In The Hole, 1951, dir.: Billy Wilder), Rede de Intrigas (Network, 1976, dir.: Sidney Lumet) e Todos os Homens do Presidente (All The President’s Men, 1976, dir.: Alan J. Pakula). Creio que o filme americano sobre jornalismo “do momento”, Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight, 2016, dir.: Tom McCarthy) mereça entrar nesse grupo, mesmo não chegando a ser o melhor deles.

Entre todos os cinco, Spotlight foi o que mais me fez acreditar que o que eu via na tela pode(ria) ter acontecido na chamada vida real, não só na Detroit do início da década de 2000 mas em vários outros lugares do mundo em outros momentos. Além disso, o longa de Tom McCarthy me parece trazer não só a representação mais positiva do jornalismo (e da classe jornalística em geral) entre os filmes citados, mas também a mais realista – ou talvez ela pareça ser a mais positiva por ser a mais realista, enfim. Nesse quesito, os outros filmes citados me parecem em certa medida falhos, senão ao menos limitados.

Embriaguez do Sucesso traz os jornalistas como divididos em três grupos: os ingênuos que tentam fazer a coisa certa e nunca saem da mediocridade (principalmente a financeira), os vendidos que se corrompem na esperança de alcançar o sucesso a qualquer custo, e os chefões que parecem tão acima dos outros que creem que questões morais e éticas não se aplicam a eles, portanto eles podem utilizar o jornal para interesses próprios sem problema algum. É possível que ele seja o mais sóbrio, menos melodramático dos filmes em questão, mas ainda assim se mostra moralista em relação ao seu protagonista, que tenta se vender para seu chefe na esperança de conseguir prestígio e acaba sem emprego e na sarjeta.

A Montanha dos Sete Abutres apresenta uma divisão maniqueísta semelhante entre os jornalistas ambiciosos e inescrupulosos que se utilizam do sensacionalismo pra alcançar dinheiro fácil, e os jornalistas íntegros e aparentemente medíocres, e se mostra em alguns momentos melodramático, moralista e exagerado: a cena em que o campo ao redor da montanha do título aparece repentinamente repleto de dúzias de alojamentos de diferentes veículos de imprensa chega a ser risível.

Rede de Intrigas se excede ainda mais que A Montanha dos Sete Abutres, mas seu exagero é mais compreensível na medida que o absurdo do filme é tal que ele se revela satírico. A divisão maniqueísta dos jornalistas do filme se mantém até certo ponto, mas é bem menos moralista e restrita, com personagens mais complexos e autoconscientes, o que torna o filme mais verossímil nesse quesito. No entanto, o filme se mostra mais interessante pela crítica sobre a corrupção da chamada grande mídia (principalmente da televisão) e da manipulação assustadora exercida por seus donos (que chegam a ser retratados de forma quase sobrenatural, o que reforça o caráter hiperbólico e irreal do filme). Por mais que o absurdo pareça tomar conta em alguns momentos, mesmo nas partes irreais o filme não deixa de ter um forte impacto, mais pelo amargor da crítica do que pelo humor da sátira.

Todos os Homens do Presidente é bastante diferente dos exemplos anteriores, “baseado em fatos reais”, e principalmente por apresentar um exemplo de bom jornalismo. Nesse caso, os personagens principais deixam de ser os jornalistas tentados pela corrupção e pela vontade de colocar os interesses pessoais acima do “compromisso com a verdade”, e passam a ser os jornalistas honestos, com seus opositores sendo o próprio governo americano, colegas de trabalho ou chefes céticos, mais interessados nos patrocinadores do jornal. Por mais que isso seja positivo, o filme perde parte de seu impacto justamente por apresentar seus protagonistas e suas façanhas como dignas de heróis e/ou super-jornalistas, que às vezes descobrem as informações através de intuição divina (e charme divino, no caso de Dustin Hoffmann) ou ajuda sobrenatural (uma das fontes literalmente só aparece entre as sombras). O fato dos protagonistas não parecerem ter vida social além do jornal só os deixa ainda mais longe da realidade.

De certa forma, Spotlight segue esta linha por ser baseado em um “caso real” de jornalistas desmascarando um esquema de corrupção do governo (da Igreja católica, na verdade, mas envolvendo o governo). Contudo, ele mas parece muito menos preocupado em tornar seus personagens heroicos, e, por causa disso, se torna bem mais verossímil. A primeira diferença que salta aos olhos é o fato de Spotlight trazer como uma das jornalistas “boas” uma mulher (interpretada por Rachel McAdams), ao contrário de todos os filmes citados agora, o que ajuda a quebrar com o clichê – ainda bastante presente – de que só os homens podem ser jornalistas honestos e bem-sucedidos, enquanto as mulheres melhor sucedidas nesta área trabalham na televisão, “que é para onde vão as jornalistas bonitas”.

Mas talvez a diferença mais marcante entre os longas de McCarthy e o de Pakula sejam os jornalistas mais humanos, em vez de heróis, com seu sucesso nas apurações dependendo de esforço e trabalho duro, e não de forças “sobrenaturais”, charme irresistível ou inspiração divina. Só o fato das denúncias contra a Igreja Católica publicadas ao final terem exigido aproximadamente sete meses de esforço e trabalho de equipe de quatro jornalistas (que dá nome ao filme) atesta isso, enquanto em Todos os Homens do Presidente os dois jornalistas não parecem realmente colaborar ou trocar ideias tanto assim, geralmente trabalhando de forma mais individualista. De fato, a pequena rivalidade entre os dois jornalistas do filme me faz lembrar que em todos os outros filmes citados sempre há algum tipo de oposição ou conflito dentro da própria redação, que faz os protagonistas medirem sua moral (ou a falta dela) contra um personagem oposto a eles. Este personagem oposto sempre é retratado de forma unidimensional, caricatural, e/ou como uma espécie de entrave na jornada do protagonista. Já Spotlight mostra a tensão na redação de forma distinta.

Claro, a equipe de jornalistas do filme precisa bater de frente com o ceticismo e o conservadorismo dos editores do jornal, mas esses editores nunca aparecem de maneira caricatural, sombria ou como exagerada. O interesse dos donos do jornal em manter os leitores satisfeitos (principalmente os católicos, no caso) é mencionado, obviamente, mas de uma maneira que não os coloca como exercendo uma manipulação absoluta e maquiavélica dos rumos do veículo. Assim, o controle editorial (ou “censura”, se preferir) que vem de cima pra baixo é mostrado como os jornalistas me parecem vivenciá-lo mais frequentemente dentro das redações: como algo que é sussurrado e sugerido de vez em quando, mas que aparece mais como uma autocensura que funciona dentro da cabeça do próprio jornalista e que precisa ser confrontada diariamente.

No fim das contas, Spotlight me parece funcionar melhor quanto à verossimilhança por ter melhores personagens, ou personagens mais críveis, no geral. E eles são mais críveis por não exatamente por serem bons jornalistas, mas pessoas que se cansam, trabalham em horas extras (demais), vivem em apartamentos ou casas apertados, têm dificuldades para conciliar a vida profissional com a vida pessoal, sentem dúvida sobre os rumos da apuração, erram (como o próprio editor da Spotlight admite que errou ao não dar a devida atenção aos casos de pedofilia quando eles apareceram anos antes, ou o repórter que suborna um funcionário da Justiça), se angustiam por sentir que estão perdendo tempo sentados na frente de um computador fazendo uma matéria que parece inútil enquanto há inúmeras outras histórias que têm mais necessidade de serem apuradas e contadas do lado de fora da redação, tratam a famosa imparcialidade como um mito ou motivo de piadas sarcásticas, enfim.

Por tudo isso, o filme me parece acertar ao mostrar os jornalistas não como meras marionetes controladas por donos de jornais gananciosos e corruptos, e sim pessoas capazes de erros e acertos, e que tentam lidar com as limitações e censuras (internalizadas ou vinda de outras pessoas) para contar histórias que precisam ser contadas, nem que elas demorem sete meses para aparecer ou serem publicadas – o que é mais ou menos como eu enxergo o jornalismo impresso nesse momento… se essa espera de meses e meses por uma matéria realmente boa vale a pena ou não é algo a ser discutido. Mas claro, não dá pra negar que o filme traga um pouco de dramatização com tons melodramáticos no final de forma desnecessária, mas ela só aparece depois de três quartos do filme, quando seria difícil estragá-lo – e ele realmente não é estragado.

Em resumo, Spotlight me parece ter a melhor (e/ou mais positiva) representação do jornalismo entre os filmes citados, mas tenho minhas dúvidas se ele é o mais urgente (ah, a mania de pressa dos jornalistas) quando se lembra do contexto sociopolítico em que ele é lançado. Não que a questão dos atos de pedofilia dos padres da Igreja Católica não continue acontecendo ou não seja importante, mas é difícil “disputar” com a perseguição política implementada pelo macarthismo nos EUA dos anos 1950 (Embriaguez do Sucesso) e o escândalo de Watergate (Todos os Homens do Presidente), por exemplo. Na verdade, o filme me parece ser mais pertinente para o contexto político do Brasil que o dos Estados Unidos, considerando que as ameaças ao caráter laico do Estado me parecem muito mais gritantes aqui, com a preocupante (pra dizer o mínimo) influência da chamada “bancada da Bíblia” no governo.

Mesmo assim, o longa pode fomentar uma discussão importante sobre o estado atual do jornalismo impresso como o conhecemos. Porque se em 2001 (ano em que se passam os eventos de Spotlight) ele já parecia em crise e prestes a se tornar obsoleto, agora em 2016, com a internet tendo se tornado o principal meio de acesso a informação, parece claro pra todo mundo (menos os responsáveis por alguns jornais, aparentemente) que não há mais como os jornais impressos brigarem com a internet no campo das notícias mais urgentes e menos analíticas (as chamadas hard news), e por isso os jornais deveriam adotar um formato mais parecido com o das revistas, com matérias de apuração mais demorada e textos mais opinativos se quiserem sobreviver. De fato, o filme retrata isso de forma bastante clara, com o caderno de Cidades se mostrando incapaz de cobrir o caso da pedofilia de forma apropriada, e o próprio editor da Spotlight confessando que não “suitou” uma matéria sobre uma lista de padres pedófilos quando era editor de Cidades, o que sugere que o próprio ambiente corrido do caderno o levou a deixar a matéria de lado. O problema é que, pelas mesmas razões descritas acima, a crise (financeira) que os jornais vivem atualmente os impede de sustentar quatro repórteres passando mais de um semestre inteiro numa só pauta, o que, não se pode negar, nos deixa num impasse difícil quanto ao futuro do jornalismo impresso.

Se por um lado o filme serve como uma espécie de presságio antecipado do fim de uma certa forma de se fazer jornalismo (nos trazendo o medo do desconhecido que vem pela frente), por outro ele também me dá um certo alívio, pelo simples fato de trazer uma representação do jornalismo no cinema melhor (e/ou mais realista) do que estávamos acostumados a ver (ou pelo menos eu estava), sem tanto heroísmo, moralismo, maniqueísmo, melodrama, etc. Ou por servir meio que como exemplo de bom fazer jornalístico e me ajudar, mesmo que por um dia, a acreditar na profissão. E me desculpem se pareço sentimental ou romântico ou seja lá o que for ao dizer isso, mas às vezes é bom acreditar, mesmo que por um instante, que sua profissão pode trazer algum benefício para a sociedade e ser motivo de algum tipo de orgulho, por mais que existam inúmeras provas do contrário todos os dias.