Os Anos 1950 Sem Technicolor

carol

por Cesar Castanha

A história de Carol (dir.: Todd Haynes, 2015) pode ser resumida à descoberta de um rosto na multidão, à troca de olhares entre dois estranhos que logo não serão mais estranhos, como já era sugerido pelos belos cartazes do filme. Dizer que se trata de uma história de amor exigiria alguma reflexão sobre a natureza do amor, mas eu aceito a afirmativa. Sim, é uma história de amor socialmente condenado, ainda que sem a urgência de filmes como Desencanto (Brief Encounter, dir: David Lean, 1945), Tudo o Que o Céu Permite (All That Heaven Allows, dir.: Douglas Sirk, 1954) e Longe do Paraíso (Far From Heaven, dir.: Todd Haynes, 2002). Talvez porque, antes de ser uma história de amor, Carol seja a história de um encontro.

Therese Belivet (Rooney Mara) é vendedora em uma loja de brinquedos na Nova York dos anos 1950; Carol (Cate Blanchett) é uma das várias clientes que na época de Natal passam pela loja em que Therese trabalha em busca de um presente para os filhos. O interesse e o flerte surgem já nesse primeiro contato. Therese liga para Carol, que marca um encontro. O flerte logo se torna um caso, afastando Therese do noivo e Carol da filha, e cercando-as dentro do seu próprio universo, exatamente como duas amantes que acabaram de descobrir o efeito da companhia uma da outra.

Therese e Carol poderiam cair num estereótipo de relacionamento entre uma mulher mais nova e outra mais velha. Não é o que acontece. O filme reconhece a expectativa para que Carol seja uma cougar (termo que faz referência a um predador felino para definir mulheres de meia idade que se relacionam com pessoas mais novas), e Therese, uma garota ingênua. A genialidade do texto e das atuações (principalmente a de Mara) está no quanto elas se aproximam dessa expectativa e esperam cumpri-la, decepcionando a si mesmas. A Carol de Blanchett reluta em mostrar uma vulnerabilidade exposta sutilmente pela atriz desde sua primeira cena. Ela não tem nada do controle que finge ter sobre seu relacionamento com Therese ou com o ex-marido. Sua pose é falsa, e é por essa frágil fachada que Therese se sente atraída. Esta conhece bem o efeito de cada passo seu na vida das pessoas ao seu redor, e com frieza toma cada um deles.

carol carol

A busca pela felicidade é o que motiva as duas a seguirem em frente, correr os riscos e declarar-se uma para a outra, mas há um conflito de gerações dentro dessa busca. Therese, diferente de sua amada, usufrui de uma época de maior abertura sexual e de mais espaço para as mulheres dentro do mercado de trabalho. Carol vive o ressentimento de uma geração de mulheres de classe média conduzidas sem muita escolha ao isolamento da vida doméstica. O que Carol poderia ter de vilanesco (o seu charme e seu orgulho) faz dela mais uma contemporânea a Mrs. Robinson, a sogra infiel de A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, dir.: Mike Nichols, 1967), do que qualquer outra coisa. Numa cena que fecha um ciclo temporal da narrativa do filme, Carol reconhece a liberdade de Therese, o que a destrói e a leva a expor pela primeira vez sua vulnerabilidade à amante. O texto então tem uma sequência iluminada, levando também o filme a reconhecer a liberdade conquistada por Therese.

Todd Haynes é o mestre do pastiche porque reconhece que a função deste gênero não é reproduzir o material de origem, e sim revisá-lo. Ele sabe que Carol Aird, diferentemente da Cary Scott de Tudo O Que O Céu Permite, não existe em um mundo de Technicolor. Suas cores, ainda que busquem a nostalgia pelos anos 1950, são mais frias. Aliás, mais do que em qualquer outro filme do diretor. O que o Haynes faz tanto aqui quanto em Longe do Paraíso é revisar um cinema a partir do seu contexto histórico-social de produção. Mas desta vez ele se afasta da urgência daquele cinema ao se aproximar de personagens que não eram representados por ele. Sem referência, Haynes observa esses sujeitos à distância, por reflexos e camadas transparentes, como se os separasse do cinema que a imagem evoca. O grande feito de Carol é reconhecer a limitação da busca por um cinema, um tempo e personagens que nunca vão nos pertencer.