Um Filme Sobre Amor e Música

aquele querido mês de agosto

por Mário Rolim

“Ai, que saudade/Ai, que saudade/Ai, que saudade tenho de ti, amor antigo”…

Começo o texto com um trecho de ‘Amor, amor antigo’ do grupo musical Diapasão não só porque é difícil terminar Aquele Querido Mês de Agosto (dir.: Miguel Gomes, 2008) sem que suas canções fiquem ecoando nos ouvidos, mas também porque, como sua sinopse tem felicidade em colocar, este é acima de um tudo um filme sobre amor (antigo ou não) e música.

O longa se introduz como um documentário sobre a vida dos moradores de pequenas aldeias da serra da região central de Portugal, em especial Arganil e Pardieiros, tendo como pano de fundo as tradicionais festividades do mês de agosto. No entanto, assim como nos seus outros longas lançados até o momento – A Cara Que Mereces (2004), Tabu (2012) e As Mil E Uma Noites (2015) –, em Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes parece mudar de ideia sobre o que quer do filme no meio do processo, fazendo com o que a abordagem narrativa mude drasticamente. No caso, Aquele Querido Mês de Agosto passa de um documentário para um romance melodramático envolvendo um pai solteiro, sua filha adolescente e o primo dela, todos parte de uma banda de música de baile portuguesa.

Esta mudança entre uma parte e outra não é tão abrupta e dura quanto pode soar. Um dos motivos para isto é que, no decorrer do longa, a equipe de filmagem é mostrada não só discutindo os rumos do filme em meio à falta de financiamento, mas também ocupando os cenários de algumas cenas ficcionais, seja para molhar os pés no rio ou mesmo dançar. Outro elemento dos bastidores do filme utilizado são as entrevistas e vídeos com moradores da vila na primeira parte como casting, com os atores da segunda parte já tendo aparecido como “pessoas normais” de Arganil na primeira.

aquele querido mês de agosto

Se, por um lado, este foco nos bastidores torna o filme autorreflexivo e consciente de si próprio, o que poderia deixá-lo cerebral e sério demais, por outro lhe confere um tom de brincadeira, um jeito leve e bem-humorado. Um exemplo é a cena em que os atores principais (interpretando Tânia e seu primo, Hélder) se encontram pela primeira vez, em que a montagem se torna kitsch e exagerada, sobrepondo imagens dos dois sob um filtro de cores dignas de um cartão-postal de amor daqueles que se compra em supermercados, ao som de uma música romântica tão ingênua que faria o Roberto Carlos dos tempos de Jovem Guarda se sentir um compositor “maduro” e “rebuscado”, por assim dizer.

Por mais que a reutilização de imagens apresentadas na primeira parte do filme seja mais evidente, talvez este jogo se mostre ainda mais interessante no campo sonoro, como quando Tânia vê na TV (e só ouvimos a transmissão) uma entrevista com o vocalista do grupo Diapasão sobre a canção ‘Som de Cristal’, que ele canta na primeira parte do filme. Sob a maravilhosa direção de Vasco Pimental, o som frequentemente se arrisca a seguir uma narrativa própria, parecendo tão incongruente em relação à imagem que é como se esses dois elementos seguissem caminhos distintos, mas se encontrassem de formas estranhas, complementando e ressignificando um ao outro. Um exemplo disso é a cena em que é mostrada uma carreata de motoqueiros enquanto a faixa de áudio reproduz a música tocada por uma banda militar em uma procissão.

No geral, este jogo de reaproveitamento de elementos lembra a transição entre sonho e realidade (não necessariamente nessa ordem) de Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr, dir.: David Lynch, 2001): entramos em um estado onírico, em que as coisas familiares são estranhamente reordenadas de forma (quase) aleatória. Aquele Querido Mês de Agosto acaba por revelar o potencial de sonho dentro da terra que retrata, e mais especificamente de sua gente, sua música, suas tradições, graças a uma estética brincalhona e inventiva que explora o potencial de realidade na ficção e o potencial de ficção na realidade, se recusando a ser rotulado. A própria distinção entre documental e ficcional para as duas partes do filme é problemática, no presente texto, já que há cenas se aproximando do documentário na segunda parte e vice-versa.

aquele querido mês de agosto

Desta forma, a segunda parte (mais ficcional) do filme pode ser interpretada como uma grande paródia dos temas tratados nas músicas, como amores impossíveis, nostalgia, viagens pela estrada, inocência e a perda dela, desilusão e tensão nas relações familiares. No entanto, não me refiro à paródia com a conotação negativa que o termo geralmente carrega. Pelo contrário. O olhar de Miguel Gomes para seus personagens e o ambiente em que transitam é dotado de atenção, respeito, carinho e também certa inocência, sem julgamentos ou uma postura de superioridade.

Se a narrativa ficcional do filme é construída através de uma reutilização de elementos estéticos ou mesmo culturais em geral das aldeias retratadas capturados na parte mais documental do filme, esta construção só se mostra convincente e cativante por causa do carinho perceptível no olhar de Gomes. A maneira como a conclusão do filme é desenhada – na cena do incêndio, principalmente – poderia parecer tosca e ridícula de tão melodramática se aparecesse em outro filme, mas parece orgânica se a enxergarmos como um reflexo estético do melodrama que está tão presente na cultura – especialmente na música – popular típica dessas aldeias. O próprio fato dos protagonistas serem não-atores parece ajudar o filme, dando aos seus personagens um ainda maior ar de inocência, de pertencimento àquele lugar.

No todo, o filme também acaba fazendo um retrato nostálgico (o que me faz lembrar da canção ‘Amor, amor antigo’ de novo) do imaginário e das tradições dessas pequenas aldeias da serra portuguesa, que possuem uma cultura rica e singular, não fazendo parte do Portugal cosmopolita de metrópoles como Lisboa e Porto. Um retrato com muito amor e música.