Dez Curtas Brasileiros

quinze curta

por Felipe André Silva

Ao pensar num panorama do cinema brasileiro, especialmente no âmbito criativo da produção, o curta-metragem sempre competiu de igual para igual com a nossa festejada produção de longas, e por muitas vezes saiu vitorioso. Esta lista compila um pouco das intensas safras dos últimos anos, mas infelizmente se resume a filmes que já foram liberados ao público por seus realizadores. Muita coisa teve que ficar de fora, mas o recorte a seguir pode conduzir para novos e muito proveitosos caminhos.


Handebol
Anita Rocha da Silveira, Rio de Janeiro, 2010
Os trabalhos de Anita Rocha em curta metragem (além deste ela realizou O Vampiro do Meio-Dia e Os Mortos-Vivos), são como pequenos ensaios para o espetáculo maior que seria Mate-Me Por Favor, seu longa de estreia. Sempre dedicada a explorar a ideia da adolescência e seus desejos como terreno fértil para a violência, em Handebol ela levava isso para um plano literal, filmando a vida de meninas da mesma equipe que são confrontadas com a própria brutalidade.


Monja
Breno Baptista, Ceará, 2011
Rebento de uma geração de cineastas que nasceu quase paralela ao famoso coletivo Alumbramento, e que mais tarde daria origem a Tardo Filmes, uma espécie de parente menos hermético e mais afetuoso do famoso grupo cearense, o cinema de Baptista sempre esteve as voltas com fantasmagóricas histórias de amor e perda. Nesse seu primeiro filme, a cama é como um templo de saudade, que não se deixa ocupar outra vez.



O Duplo
Juliana Rojas, São Paulo, 2012
O cinema paulista tem certa fama (se boa ou má fica a critério de quem observa) de fazer um cinema industrial, pautado em rígidos métodos de criação e produção, e que jamais deixar de pensar fria e metodicamente suas escolhas estéticas. Juliana Rojas, famosa pela extensa e multipremiada carreira em curtas junto ao colega Marco Dutra, está hoje na linha de frente duma certa renovação desse cinema. Se ainda parecem muito investidos em atingir certo ideal de técnica e apuro narrativo, Rojas, Dutra, e outros nomes como seu habitual parceiro Caetano Gotardo, exploram caminhos completamente esquecidos do cinema brasileiro, como o musical, e neste caso o filme de horror. O Duplo é um conto muito estranho e instigante de paranoia, que aproveita o rosto expressivo de Sabrina Greve em toda sua dimensão.



A Mão Que Afaga
Gabriela Amaral Almeida, São Paulo, 2012
Numa carreira em constante flerte com o suspense e o horror, ainda que em lampejos discretos, é interessante notar que o filme mais assustador de Gabriela Amaral Almeida seja aquele que menos se esforça para referenciar esse tipo de gênero. Luciana Paes (sempre fantástica) vive uma emocionalmente frágil atendente de telemarketing que promove uma festa de aniversário para seu filho único. O estranho e o trágico se unem para transformar esse filme num trabalho delicadamente triste.


Se
Ian Capillé, Rio de Janeiro, 2013
Videodiário compilado por Capillé em 2013, seu primeiro filme pode ser tanto uma experiência muito íntima, um produto perfeitamente fabricado, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Mergulhado em sua cinefilia, suas dores, e suas paixões, Capillé faz um impressionante poema visual e sonoro, que evoca Jonas Mekas e se desnuda por completo, ou finge perfeitamente bem.


Casa Forte
Rodrigo Almeida, Pernambuco, 2014
Antes da criação do coletivo Surto & Deslumbramento, pode-se dizer que o cinema pernambucano sofria um grande monopólio de olhares e intenções heterossexuais. O surgimento do grupo de jovens cinéfilos/acadêmicos/críticos interessados em criar algo totalmente diverso daquilo que o audiovisual pernambucano estava acostumado em ver, resultou numa sequência de filmes profundamente investidos em questões relacionadas a estética, política, e sexualidade. Casa Forte é um grande exemplo da dimensão criativa do grupo: a simples observação dos nomes de prédios no abastado bairro já é suficiente para compor as bases de uma história de amor e racismo.


O Completo Estranho
Leonardo Mouramateus, Ceará, 2014
Muito já se falou sobre o humano e festivo cinema de Leonardo Mouramateus, que aos 25 anos e recém saído do curso de cinema da UFC, é certamente um dos maiores realizadores brasileiros em atividade, mas seus filmes parecem revelar uma nova camada a cada revisão. O Completo Estranho é uma boa porta de entrada, e talvez o grande resumo, de todas as questões que fazem o seu cinema: Estão lá os personagens jovens lidando com memórias urgentes, coisas que vão deixar de ser, festas que não necessariamente são momentos de alegria, e uma incessante busca por qualquer coisa não-dita. Neste aqui tudo isso é acompanhado por luzes neon e Gigi d’Agostino.


Quinze
Maurílio Martins, Minas Gerais, 2014
A produtora mineira Filmes de Plástico tem, em seus breves 7 anos de história, uma das trajetórias mais instigantes do atual cinema brasileiro. Responsáveis por pequenos arrasa-quarteirões de plateias em festivais de cinema mundo afora (vide reações aos seus Pouco Mais de Um Mês e Quintal), o cinema dos rapazes de Contagem tem como grande trunfo ser cheio de vida, exalar uma inegável verdade e carinho pelas figuras que costuma retratar, e principalmente fazer tudo isso sem jamais ceder à sua própria concepção de cinema, que reverencia muito da produção contemporânea, mas também trilha um caminho todo novo. Em Quinze, Maurílio Martins conta a história devastadoramente bela da mãe (Karine Teles, impecável, agora bastante conhecida por Que Horas Ela Volta?) que se esforça para equilibrar o amor incondicional pela filha e pela namorada, às vesperas do aniversário de 15 anos da garota. É filme como sonho, no melhor dos sentidos.


Taba
Júlio Pereira, Matheus Beltrão e Nuno Aymar, Pernambuco, 2015
A partir da criação de seu curso de cinema federal, o audiovisual universitário pernambucano tem crescido a passos curtos, porém firmes. Dentro desse espectro, os trabalhos do coletivo Filma Que Vai Cair parecem surgir como um marco de verdadeira explosão criativa e desprendimento de qualquer normatividade; um cinema totalmente anarquista. Taba é produto de um exercício sobre documentário clássico, e apesar de parecer apenas uma anedota muito bem contada sobre a vida de jovens maconheiros, jamais perde a total crença em seu objetivo e sua encenação, e por isso se torna tão cativante para além das piadas.


Takotsubo (Broken Heart Syndrome)
Nicolas Thomé Zetune, São Paulo, 2015
Recentemente reconhecido pelo sucesso de seu último trabalho, São Paulo Com Daniel (onde divide a direção com Deborah Viegas), que foi vencedor na última Semana dos Realizadores e selecionado para o próximo Festival de Roterdã, o cinema estéril, hermético, e amargo de Zetune tem certamente um sabor estranho, que demanda tempo e paciência para ser aproveitado. Zetune tem o hábito de filmar histórias de amor, em toda a dimensão da palavra, sob um espectro bastante cru e que por vezes pende para aquilo que estamos acostumados a chamar de “experimental”, mas que na verdade são simplesmente recortes bastante humanos daquilo que ele acredita ser a percepção que suas personagens têm do mundo.