Da Intimidade Com Sense8

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por Rodrigo S. Pereira

Sense8, encabeçada por J. Michael Straczynski (Babylon 5) e pelos irmãos Wachowski (Matrix), teve em junho de 2015 um lançamento explosivo na Netflix, que resultou numa recepção calorosa do público. A crítica, por sua vez, foi favorável com ressalvas, apontando como maiores problemas que a série demora muito a se desenvolver e que sua trama principal é subaproveitada. O plot: uma conexão sensorial direta entre oito pessoas separadas no mundo, cultural e geograficamente. A série se inicia com o despertar da natureza sensate destes oito personagens, a partir da morte de Angelica (Daryl Hannah). A premissa sci-fi é imediatamente vinculada ao misterioso fugitivo Jonas Maliki (Naveen Andrews), que movimenta a trama alertando os protagonistas de uma perigosa conspiração.

Grande parte da atenção que recebera, contudo, não tem qualquer relação com esse enredo: Sense8 provocou muito barulho principalmente pela atenção que dedica a questões de diversidade, feministas e LGBT. E mesmo neste debate, sua recepção foi mista, tendo sido acusada de pouco ou mal desenvolvimento destes pontos. A pluralidade e a diversidade de Sense8 lhe rendem, além da hype e uma notável abrangência de público, uma intrínseca inconstância narrativa. Há um flerte com a postura flâneur, termo de importância acadêmica e artística que se refere a um indivíduo vivendo plenamente sua urbanidade e modernidade, andando sem um objetivo final e usufruindo quase performativamente do que seu entorno lhe oferece em termos de vivência, entretenimento e aprendizagem. Do francês, flanar significa (ou melhor, sugere) “andar sem rumo, sem preocupações”, e isso reflete um pouco da experiência narrativa oferecida pela série.

Sense8 direciona o olhar plasticamente, tem muito apreço pela experiência estética. Em grande parte, não perde o tom de maravilha ao lidar com culturas além da estadunidense, localizando-as sempre no exótico. O flâneur é considerado por alguns como um precursor do turista moderno, e o espectador de Sense8 nunca perde essa sensação de turismo, de experimentar momentos especiais justamente pela novidade de tal lugar, ou tais pessoas. Há um conflito desta orientação e da perspectiva narrativa adotada, sempre ao lado de seus personagens – é o personagem que guia a percepção da história pelo espectador. A considerar que a conexão entre os sensates é também sensorial, é ver, ouvir, sentir, é bastante lógico que o ponto de vista narrativo esteja sempre com eles. Fosse diferente, a confusão (que já não é pouca) poderia ser catastrófica. Mas é esquisito se sentir turista mesmo acompanhando a perspectiva de uma personagem que, diferente do espectador, tem (ou deveria ter) intimidade com aqueles elementos. Uma concessão sensível de Sense8 é a grande maioria de seus diálogos serem em inglês. A série indica que os personagens de idiomas natais diferentes continuam falando suas línguas, mas os espectadores, tal como os sensates anglófonos, os entendem “em inglês”. Uma bela proposta sobre comunicação, o entendimento que transcende a barreira idiomática, que independe das palavras.

A série se apresenta com muita autoconsciência. Tal como outros títulos sob a tutela dos irmãos Wachowski, ela mergulha fundo na cultura de massa, no plástico, no industrial, sendo ao mesmo tempo crítica e saudosa. Aproxima-se muito de A Viagem (Cloud Atlas, 2012) em sua pluralidade narrativa, muito pertinente para um público cada vez mais imerso na internet: frequentemente a fluidez das informações é apontada como causa ou consequência de uma total falta de foco. O bombardeio constante de novas experiências rege um novo ritmo para a flânerie deste milênio. Experimenta-se de tudo sucessivamente, o tempo todo. Há cada vez menos dedicação a uma experiência particular, um ritual de anulação dos rituais específicos. É assim que a série consegue transitar do drama da DJ Riley (Tuppence Middleton), vagando por Londres em seu luto autopunitivo, à comédia melodramática de Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre), em um conflito de suas sexualidade e vida amorosa com sua carreira de galã de cinema e televisão na Cidade do México. Há suspense no thriller político, mistério, há cenas de ação, há planejamento de roubos, há até cenas musicais – cada personagem oferece uma perspectiva, uma experiência única, distinta, e juntos criam algo novo, ainda mais peculiar e interessante.

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Aventura, romance, comédia e drama, em uma ambientação fantástica/ sci-fi, pontuada por cenas de ação: uma descrição que cabe a Sense8 tanto quanto ao A Viagem. Descrição muito próxima da prática da indústria do entretenimento referida como four-quadrant, indicando um produto com um apelo geral a todas as maiores audiências (masculina e feminina, acima ou abaixo dos 25 anos). São englobados tanto grandes sucessos da história do Cinema e da televisão como uma incalculável enxurrada de projetos grotescos, que tentam forçar essa relação com o público de uma maneira matemática. Como são comumente aliados à estrutura blockbuster de publicidade e distribuição massivas, a qualidade concreta desses produtos frequentemente pouco importa para seu sucesso nas bilheterias – na audiência televisiva a história é um pouco diferente; inclusive o lançamento de temporadas de série na íntegra pela Netflix se assemelha à transformação dos sistemas de distribuição de cinema sofrida nos anos 70, mas talvez isto seja assunto para outro texto.

Que se diga de uma vez: ser um produto four-quadrant não o torna melhor ou pior que outros que não o são. O que constrói um produto do tipo é um conjunto de características muito simples e muito amplas. Falar de família, lidar com um problema universal de fácil compreensão e adesão, narrar uma jornada de superação do(s) protagonista(s), etc. O que faz de A Viagem e Sense8 interessantes nessa perspectiva é como assumem essa abordagem ao extremo. Cada pequeno elemento que é costurado nestes four-quadrant recebe uma atenção exacerbada, tudo chama atenção, tudo é colorido e brilha, assim como em Speed Racer (2008) e O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015), títulos mais controversos e cáusticos dos Wachowski. Parece um esforço de evidenciar todos esses mecanismos, a própria pílula vermelha que vai escancarar aos nossos olhos toda a fantasia em nossa realidade.

Não cheguemos no cúmulo de limitar o produto a este esforço, mas é partindo dele que se pode chegar a um lindo elemento que é, também, uma proposta política. Os criadores de Sense8* sempre priorizaram (em vez de influências sci-fi) a cultura pop, questionamentos de gênero e sexualidade e a diversidade cultural. A intenção não era produzir uma série de ação, e sim utilizar essa oportunidade para fazer certos posicionamentos políticos. Uma grande vantagem é a de que esses posicionamentos não são discursos diretos, são apenas evidências em meio à narrativa. São ações, palavras, são o discurso tornado concreto, tornado vivo. Isso se verifica de diversas maneiras, mas basta ressaltar o exemplo mais óbvio, que são os conflitos de Nomi Marks (Jamie Clayton) enquanto mulher trans. Sua mãe nunca aceitou sua identidade de gênero, e continua se referindo a ela pelo nome masculino que lhe atribuíra no nascimento. Um outro personagem, o policial Will Gorsky (Brian J. Smith), não tem nada de ativista a princípio, não parece ter qualquer intimidade com o movimento LGBT, mas ele reconhece a importância do nome que Nomi escolheu para si, e quando tem oportunidade, corrige/ repreende a mãe da mulher. Da parte dele, é respeito, mas além disso, é “apenas” lógica, e isto é um poderoso posicionamento político para esta questão, mesmo que estes personagens não discursem ou discutam abertamente esta problemática.

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É por incorporar seus posicionamentos e discursos à vida de seus personagens que Sense8 não se demora em todas as questões polêmicas ou sensíveis que atravessa, e seria um esforço mortificante enumerar cada evidência, cada rastro em toda a série, bem como se pode supor que seria uma leitura maçante. Melhor ir assistir, e depois conversar e se conectar. Com uma extrema diversidade de pontos de interesse, é de se esperar que cada espectador vá compreender, absorver e guardar consigo uma seleção particular destes pontos. Essa é uma relação muito cara à série, que assume a perspectiva da intimidade de seus personagens. Segundo Straczynski, na criação de Sense8 se tinha o interesse nas verdades que não admitimos nem para nós mesmos. Muitas linhas de raciocínio e encadeamentos afetivos se concluem apenas no “se eu tentasse explicar, você não entenderia”. E é isso. A mente humana funciona assim, fazendo relações particulares entre coisas vividas e coisas pensadas, e é improvável obter exatamente o mesmo resultado com dois indivíduos distintos.

A beleza da coisa toda, o lindo elemento referido anteriormente, é uma proposta da relação do espectador com o produto que consome: a arte e o entretenimento atingem seu máximo potencial quando, simplesmente, importam. É como dois garotos de Berlim que veem em Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian, dir: John Milius, 1982) a inspiração para enfrentarem e superarem suas crises cotidianas, e esse mínimo detalhe, íntimo, particular, cumpre papel decisivo na formação de Wolfgang (Max Riemelt) e em sua trajetória na série. Capheus (Aml Ameen) tem por ídolo o astro de ação Jean-Claude Van Damme, e também vê em seus filmes uma fonte de forças para enfrentar sua dura realidade. Kala Dandekar (Tina Desai) compartilha uma sessão de Van Damme com Capheus, mas não consegue ver ali o que ele vê. Ela se choca com a violência, enquanto Capheus vê violência cotidianamente em sua realidade. É uma relação muito, muito particular, uma relação difícil de racionalizar. Não é a origem que importa, mas o que se constrói sobre essa conexão. Note que estes dois exemplos são ícones pop que dificilmente seriam apontados, em outros contextos, como produtos inspiradores desta maneira.

É assim que Sense8 e A Viagem podem quebrar a própria dicotomia de inconstância narrativa: oferecendo uma multiplicidade de experiências, esses produtos têm a capacidade de se conectar com os espectadores mais diversos, distintos uns dos outros. No caso de A Viagem, é como assistir vários filmes radicalmente diferentes em um só; não surpreende que o romance em que o filme é baseado era considerado inadaptável ao cinema. Seus segmentos são separados temporalmente, mas há uma conexão, uma sensação de afinidade entre eles, que transcende a questão de espiritualidade e reencarnação (que talvez devesse ser o alicerce, o ponto central do filme). Sense8 já se apresenta em outra lógica: a simultaneidade. Apesar de separados geograficamente, aqueles personagens estão vivendo e se desenvolvendo todos ao mesmo tempo, como o é desde que começaram a respirar no exato mesmo instante – os sensates que compõem um grupo nascem na mesma data, mesma hora (pelo menos o fandom não tem tanto trabalho com os mapas astrais).

Esta pluralidade, essa proposta agregadora configura um interessante esforço receptivo, de abrangência de público, com um produto de massa composto de produtos de massa distintos. Se pode supor que cada segmento apela para uma parcela específica do público, e estes produtos parecem propor que todos esses grupos se encontrem em uma experiência única, e se conectem. É como direcionar os mecanismos da indústria, o projeto four-quadrant, a distribuição massiva dos blockbusters e tudo o mais para atrair o público para uma experiência genuína, em vez de um consumo imediato de um produto idêntico a todos os outros (este já sendo o ponto central de O Destino de Júpiter). Não é só sobre gostar de ação ou gostar de romance. A questão idiomática de Sense8 também é agregadora, de uma forma controversa: ao padronizar os diálogos no inglês, a série garante uma abrangência de público muito maior que se fosse inteiramente plurilinguística. Ainda uma bela proposta, mesmo de seu ponto de vista anglo cêntrico (quiçá colonialista).

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Esta colcha de retalhos é como uma obra pop art, que incorpora o conflito: arte, em seu aspecto crítico, ou é tanto um “lixo” quanto os materiais de que se apropria? Sense8 “flana” pelas narrativas que entrelaça, e essa postura flâneur parece ser uma forma mais adequada de experimentá-la enquanto arte e entretenimento. Em vez de assisti-la buscando e esperando ver algo específico, o espectador terá maior proveito ao despir-se das expectativas e também flanar, permitindo-se experimentar todos os sinais, flertes e momentos pelo que oferecem em si, não por como servem a um propósito “maior”. É como Hernando (Alfonso Herrera), namorado de Lito, demonstra ao que os dois se encontram em um museu de Diego Rivera: é poder enxergar nas entrelinhas, ver a beleza nos mais diversos aspectos da vida. Lito ainda tenta explicar essa postura do amado: “Ele pensa muito sobre tudo. Pode falar apaixonadamente de pintura, dança, como de futebol e luta livre”. Porque para Hernando não há distinção arbitrária entre essas coisas, nenhuma é mais ou menos relevante que a outra enquanto cultura. Cada uma lhe oferece experiências específicas, e todas elas o fascinam. Hernando é aqui o espectador que Sense8 idealiza, alguém com uma disposição plural, receptiva, despida de preconceitos.

Esta doce insinuação valida diretamente a obra dos Wachowski. Matrix (1999) é um filme com ressonância, que persiste afetivamente no imaginário coletivo, e ele não precisa deixar de ser um filme pop, de ação, para ser importante de alguma forma. Em A Viagem, Sonmi-451 (Doona Bae, que retorna em Sense8 como a sul-coreana Sun Bak) tem contato com um mínimo trecho de um filme, do qual extrai as palavras que lhe dão força para lutar por si mesma e seus iguais, pelos direitos humanos, e essa luta rende ao seu nome, em outro segmento em um futuro distante, um aspecto messiânico, divino. Depois que ela constrói sua luta sobre estas palavras (“I will not be subjected to criminal abuse”), não importa que o filme que vira seja uma romantização comicamente afetada de outro personagem de A Viagem, nada grandioso em si (mais, um homem desprezível sob muitas óticas). É um produto pop, autoindulgente, uma cinebiografia digna de Oscar. Quem torna o filme importante é ela, ao assisti-lo.

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Da mesma forma, Sense8 não força sua pertinência ao espectador, não discursa sobre a própria importância. A série não tenta deixar de ser uma aventura cheia de ação e emoção, um produto pop, como já aconteceu com séries e filmes que parecem interromper sua própria lógica narrativa (dar uma pausa no entretenimento que oferecem ou “deveriam oferecer”) quando precisam abordar algo que julgam importante; e o fazem da maneira mais escancarada possível, para ter certeza de que você vai entender exatamente o que querem dizer, e mais, que será convencido de que estão certos. Na série, é o espectador que em algum ponto de toda essa bagunça, esse turbilhão, poderá ou não encontrar um ponto de partida, uma inspiração mínima. Uma palavra, uma música, um sorriso ou um choro que é visto na tela, e, de repente, nos conecta. Nem sempre conseguimos identificar o porquê. Mas já estamos conectados, lá no íntimo, e talvez não admitamos sequer para nós mesmos. “E de todo modo, se eu tentasse explicar, você não entenderia”.

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* Há duas fontes de palavras de J. Michael Straczynski que foram importantes para este texto:
http://editorial.rottentomatoes.com/article/13-questions-about-netflixs-new-series-sense8-answered/
http://blogs.wsj.com/speakeasy/2015/06/05/sense8-netflix/