Aprendendo a Amar a Bomba

fuga de nova york

por Mário Rolim

A princípio, tanto a premissa de Fuga de Nova York (Escape From New York, John Carpenter, 1981) quanto o direcionamento de sua crítica à ideologia do governo americano durante a era Reagan (ainda que a crítica não se aplique somente a esse período) se mostram bastante claros. No filme, o tratamento desumano do sistema carcerário americano, aliado a um belicismo intenso e à hipocrisia na punição de crimes por parte do governo levam a despejar grande parte dos criminosos em Nova York, que foi transformada em uma prisão a céu aberto gigantesca, o que pelo menos dá aos presos grandes espaços para perambular e uma quantidade ilimitada de banho de sol, o que é mais do que se pode dizer das reais cadeias americanas. A escolha da cidade é irônica, considerando que Nova York é justamente a cidade mais cosmopolita dos Estados Unidos, e que na época a política internacional americana era pautada pela paranoia causada pela Guerra Fria, que é citada de maneira incerta, numa referência a uma guerra dos EUA contra a União Soviética e a China.

Após o ataque de uma organização rebelde que diz representar os trabalhadores oprimidos, o presidente americano acaba indo parar justamente em Nova York, pouco antes de uma reunião que decidirá os rumos da guerra e do uso de armas nucleares. Chegando lá, o presidente é sequestrado pelo líder da organização de criminosos liderada por Duke (interpretado pelo eternamente cool Isaac Hayes). A partir disso, a falência do governo em manter a lei e a ordem que levaram à transformação de Nova York em uma prisão é evidenciada na incapacidade do exército de resgatar o presidente, o que faz com que o governo se volte para Snake Plissken (Kurt Russell, na primeira e provavelmente mais badass de suas quatro colaborações com o diretor John Carpenter), um veterano da Força Aérea que acabou se tornando criminoso, para resgatar o presidente. Snake é quase um estereótipo de machão veterano de guerra, se mostrando um anti-herói durão, frio e sarcástico, que despreza figuras de autoridade em geral e não se importa em quem ele deve atirar ou bater para atingir seus objetivos individuais, já que possui um senso de justiça particular.

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A partir da chegada de Snake em Nova York, a crítica do filme vai se tornando quase uma materialização de pesadelos, com os habitantes da cidade-prisão passando a encarnar medos da sociedade em relação à população carcerária, em especial os presos que não comete(ra)m os chamados “crimes de rico”, como sonegação de impostos, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Dentro desse esquema, o grupo mais numeroso entre os habitantes de NY são os ‘crazies‘, pessoas desprovidas de dignidade a tal ponto que parecem não ter rosto ou voz, se limitando a vagar atrás de objetos de valor ou pedaços de comida que possam tomar para si, como zumbis animalescos. Os crazies são retratados como uma mistura entre os viciados em drogas frequentadores das chamadas “cracolândias” das metrópoles e mendigos, o que me fez lembrar situações em que eles foram tratados como a escória da sociedade, como quando foram “convenientemente” removidos à força das ruas de algumas cidades-sede da Copa do Mundo de 2014. Desta forma, alguns dos cenários da cidade se mostram assustadores na medida em que se assemelham a locais existentes nas periferias de diversas grandes cidades do Brasil e do mundo que também são completamente negligenciados pelo poder público e que só têm contato com ele através da força policial/bélica.

Mas não é só com os crazies que Snake tem contato. Enquanto foge de um grupo deles, Snake conhece uma mulher misteriosa numa lanchonete abandonada. A partir daí, passei a ficar incomodado com o que interpretei como uma falta de consideração do filme em relação às personagens femininas. Afinal de contas, a “mulher da lanchonete” morre dois ou três minutos após aparecer, antes mesmo de dizer seu próprio nome, mas não antes de oferecer seu corpo para Snake, na intenção de convencê-lo a levá-la para fora de Nova York. Quando ela é levada pelos crazies, Snake pouco se esforça para ajudá-la e não faz sequer menção de lamento pela sua morte iminente.

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A outra personagem feminina tratada de forma no mínimo controversa é Maggie, companheira de Brain (um cúmplice de Duke). Eles são apresentados a Snake por um taxista chamado Cabbie, que crê que Brain poderá ajudá-lo em sua empreitada. Pouco depois de fazer isso, Cabbie diz a Snake que Maggie foi um presente de Duke para Brain, numa fala que soa estranha e ofensiva, senão pelo fato de Maggie estar perto o suficiente pra ouvir o diálogo (o que de fato acontece e a deixa irritada), pela objetificação gratuita e desnecessária da personagem, que é colocada como uma posse. Essa representação falha das personagens femininas fica mais evidente ao fim do filme, quando Maggie é atropelada após abdicar de sua salvação para ajudar Snake e o presidente a fugir de NY – o que não faz sentido, considerando o desenvolvimento da personagem, já que ela não tinha mais nenhum motivo para ficar em NY ou para colocar a vida de Snake e do presidente na frente da sua – numa das cenas mais violentas do filme.

Voltando à narrativa principal, Snake é finalmente interceptado (e nocauteado) por Duke em sua tentativa de resgatar o presidente, e é aí que a caracterização que o filme faz de Duke e seus capangas me soa estranha, considerando que o que parece abrir margem para falhas no sequestro do presidente é justamente uma espécie de atitude exagerada e estúpida de “machão” bruto, que faz com que Snake seja obrigado a lutar com um brutamonte como nas arenas de gladiadores para o prazer de Duke e de seus capangas (aliás, praticamente nenhuma mulher faz parte do grupo de Duke, e as poucas que aparecem servem como decoração). Além disso, essa atitude de machão também é evidente na ridicularização que a gangue de Duke faz do presidente, que é obrigado a usar uma grande peruca loira, ou seja, um objeto relacionado à vivência/performance de um papel de gênero feminino, sugerindo que eles creem que qualquer caracterização de um homem (principalmente um homem poderoso) que não siga esse estilo cheio de testosterona é ridícula e reduz o “poder” do homem em questão.

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E estranho essa caracterização justamente porque essa “macheza” me parece estar presente de diferentes formas na própria retórica do filme, seja na relativa misoginia em relação às personagens femininas, seja na construção desta cidade-prisão como um lugar bruto, insensível e praticamente só habitado por homens, como no desenvolvimento dos três personagens principais (Snake, Duke e o presidente) que seguem essas características. Além disso, se parte da crítica ao presidente se justifica por causa de suas atitudes violentas e insensíveis em relação aos presos, por que o filme se propõe a caracterizar relativamente sob a mesma medida os prisioneiros e o presidente que confinou eles nesta cidade-prisão? Claro, não se pode negar o sarcasmo mordaz que aparece quando o presidente mata Duke como se estivesse se deliciando com aquilo, o que torna o presidente pior que Duke, já que, se ambos matam e torturam sem remorso, pelo menos o Duke parecia tentar obter anistia geral para todos os prisioneiros. No entanto, se a crítica coloca o presidente (encarnação do poder do Estado) e Duke (símbolo do poder do “submundo”) sob um patamar semelhante, qual seria a alternativa? O individualismo insensível de Snake, que sempre resolve seus problemas na porrada? Ou o filme é tão niilista que se recusa a apresentar uma alternativa?

Snake encontra uma maneira de resistir ao governo ao trocar a fita que definiria os rumos da guerra nuclear, expondo o presidente e sua posição na guerra ao ridículo, mas e se analisarmos além desta insubordinação irônica? Snake seria melhor por ao menos reconhecer que é um “asshole”, assim como Duke e o presidente também são? Ou simplesmente por ser antiautoritário, de forma que a alternativa do filme seria simplesmente voltar a violência para a direção das autoridades numa mera troca de alvo? Por um lado, essa alternativa parece imbuída de um niilismo questionador que pode ser visto até como positivo considerando a situação desesperadora (ou a ideologia militarista) que o filme se propõe a criticar. Mas, por ter problemas com a retórica com a qual essa alternativa é construída, pergunto-me se Carpenter acha essa alternativa tão questionável quanto eu. Afinal, não foi este mesmo individualismo desprovido de ética e violento que tornou as figuras de Duke e do presidente tão negativas e perigosas como elas são, ou a própria ideologia bélica que está sendo criticada no filme? Ou a alternativa é, como em Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, Stanley Kubrick, 1964), parar de se preocupar e começar a amar a bomba, e assim aceitar o niilismo do roteiro (encarnado em Snake) para, ao morrer montado na bomba, almejar pelo menos um pouco de diversão antes do fim inevitável?

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Já que não consigo fazer isso, me vejo obrigado a lembrar da célebre cena de Indiana Jones em Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, Steven Spielberg, 1981): Indy, defrontado por um árabe com uma espada, dispensa o seu chicote costumeiro e simplesmente dá um tiro no inimigo, matando-o em plena praça/via pública. Ao ver isso, grande parte do público do cinema riu, mais do que em qualquer outra cena, inclusive. Pode ser uma comparação exagerada, mas essas contradições que enxergo em Fuga de Nova York me parecem passar uma mensagem semelhante: é legal e até divertido ser violento e genocida, contanto que o violento seja o herói (ou anti-herói, no caso de Snake) ao aniquilar o inimigo (apropriadamente ridicularizado).